Uma Olympus Derretida

Essa semana eu participei de um Café de Reparos organizado pela Lipor na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. graças à interlocução com a Camila Mangueira e com o Fabrício Fava. Eu estava lá como voluntário. Não consegui consertar nada para ninguém, foi um fiasco. Por outro lado, as pessoas aparecem com as causas mais perdidas… Um tablet que não era carregado há 12 anos, um PSP sem bateria ou adaptador de corrente, ou coisas impossíveis de diagnosticar no tempo desses encontros.

Dai uma estudante da Belas Artes, a Beatriz Queiroz, apareceu com uma câmara digital pequenina da Olympus. Explicou que tinha comprado numa feira por 1 euro e que a senhora que a vendeu explicou que a câmara já não funcionava mais. Contou que experimentou a câmara e que ela estava fazendo fotos borradas e com cores estranhas.

Liguei a câmara, vi como a imagem aparecia distorcida e magenta no LCD, vi algumas imagens que estavam na memória. “Que câmara sensacional! Adorei! Os trabalhos já saem prontos! Essa câmara é o máximo! Não conserta ela não, usa ela assim mesmo!”

Beatriz me olhou incrédula (talvez) e disse: “Fica com ela.”

Comecei a explorar as poucas opções de modo de funcionamento e controles da câmara. Descobri que em modo Desporto a câmara registra um pouco mais os detalhes da cena. Em modos que usam velocidades mais baixas, os detalhes desaparecem por completo com cenas claras. Sob o Sol, é impossível fotografar, muita luz dá problemas demais e o retângulo quase não conserva detalhes ou meios tons. Mas o ruído comum a situações de pouca luz parece ajudar a gerar imagens que ainda guardam formas e tons originais.

No Lightroom, encontrei um jeito de retirar o excesso de magenta apenas o suficiente para gerar um P&B com mais meios tons. Centralizo a exposição e estico o gráfico para ter mais meios tons e áreas de preto e branco de verdade. Cenas corriqueiras e cotidianas se distorcem e ganham um escorrido inesperado. Os tons mais claros escondem os tons mais escuros quando escorrem na sua frente.

No modo de gravação de vídeos, esse derretido fica mais atenuado e aparecem bandas horizontais. No modo de fotografia, o efeito na imagem tem altíssima resolução e independe da foto estar tremida ou não. Isso me leva a crer (talvez erroneamente) que o problema está relacionado à leitura do sensor, à análise do padrão do filtro de Bayer ou à interpolação em um arquivo RGB na memória da câmara. É possível que um update de firmware fosse a solução para o problema. No entanto, o site da Olympus não disponibiliza um.

A câmara tem uma memória interna de 50Mb, equivalente a um rolo de 24 poses. Eu tinha um cartão XD em algum lugar, mas ainda não consegui o achar. Vou continuar procurando, pelo cartão e por mais fotos para derreter!

O descampado no fim da minha rua

Agora que já faz mais de um ano que adotamos a Polenta, uma cadela sem ração definida que tem muitas características de uma raça conhecida como podengo português, comecei a olhar para as fotos que fiz ao longo de incontáveis passeios com ela pelo bairro.

No fim da minha rua há um terreno vazio, um grande descampado com uma vista incrível para o vale do Rio Cávado. No outro lado do vale estão Vila Verde e o Prado, que são menores que Braga. Ao longe uns montes mais altos com turbinas eólicas e se pudéssemos ver além, veríamos a Espanha.

Polenta adora farejar, mas gosta também de sentar e ficar sentindo os diferentes cheiros que vêm no vento. E eu entro na onda e fico observando o tempo passar, os detalhes de cada estação, a forma das nuvens, como a vegetação da época balança ao sabor do vento.

Às vezes as nuvens filtram a luz do Sol, tem vezes que é a fumaça dos incêndios. Tem dias quentes com um vento gelado. E agora nesse início de Outono teve uns dias perfeitos, nem quentes, nem frios, com um vento constante.

Depois de um tempo, vendo sempre a mesma paisagem, várias vezes ao dia, algumas coisas que pareciam tão relevantes e dignas de uma imagem, começam a se tornar corriqueiras. Me pego esperando um dia ainda mais incrível, nuvens com um desenho ainda mais complexo ou intrigante, coisas desse gênero.

Já sei mais ou menos a que horas os postes de iluminação urbana vão acender ou apagar, fico esperando aquele momento em que tudo vai se alinhar para que a exposição automática do smartphone seja capaz de lidar com essa riqueza de tons.

Mas tem vezes que a situação exige abandonar qualquer plano previamente estabelecido e arriscar tudo num frame impensável com o Sol quase ao centro da imagem. A natureza é que manda, boa parte das vezes.

Um dia a Polenta me acordou mais cedo, chegamos no descampado ali pelas 6 das manhã, o Sol ainda não tinha nascido pelas nossas costas, mas uma luz matinal já iluminava essas nuvens sobre o vale do Cávado. A Lua, que ainda não tinha ido dormir, se escondia por trás de umas nuvens fininhas, quase na linha do horizonte. Agradeci a Polenta, pensei em William Turner, fiz uma foto tremida e cheia de ruído.

Sony a3000 e objetiva Risespray 25mm

Sempre estive de olho nesse corpo Sony. Ele é o corpo mais barato com a baioneta E e tem um sensor de tamanho APS-C com 20MP com uma qualidade de imagem superior a de vários modelos mais caros.

Há vários anos que vendi a minha Sony A7s, mas guardei os anéis adaptadores que juntei ao longo dos anos. Queria um dia voltar a aproveitar a facilidade de adaptar objetivas diversas para essa baioneta. E apesar da diferença de tamanho do sensor, as duas câmaras compartilham a mesma baioneta.

Outra coisa que eu queria muito explorar são as objetivas super baratas que aparecem à venda no AliExpress para o sensor APS-C.

Um dia, durante a pausa do jantar no trabalho, um colega comentou do site MPB de compra e venda de equipamentos de fotografia digital e de vídeo. Criei uma conta, criei um filtro/alerta e comecei a ficar de olho nas a3000 que apareciam ali. Do outro lado coloquei uns anúncios em grupos de discussão com uns itens à venda em preços mais que camaradas. Queria levantar uns 120€ e pode comprar uma a3000 com uma 25mm dessas.

Não demorou muito tempo. Depois que a câmara chegou, toquei a usar com a 24mm Nikon enquanto a Risespray vinha da China. Custei a me entender com os menus. Ainda aperto os botões errados quando quero usar o zoom instantaneamente para focar ou coisas do gênero.

O EVF dessa câmara é sofrível, mas configurar os JPEGs para PB e fotografar em RAW ajuda muito. Assim o EVF fica PB e facilita imenso focar manualmente e enquanto temos imagens RAW coloridas sendo salvas no cartão.

Mas dai a lente chegou da China e a diversão começou. A lente 25mm nesse corpo é como uma 35mm num corpo full frame.

Primeira coisa que percebi na objetiva é que seu diafragma tem muitas lâminas e o desfoque é incrível em diversas aberturas. Toda aberta, o vignette que a objetiva dá é muito peculiar e tem até um swirl effect nas fotos em close-up.

O sensor da a3000 ajuda muito na hora de recuperar highlights. É um prazer trabalhar as fotos depois.

Com o diafragma fechado em f/11 ou f/16, a objetiva se comporta com uma lente moderna, foco até os cantos, muita definição.

No entanto, a objetiva se sobressai ali entre f/2 e f/2.8, com o foco só na região central, um vignette leve.

Combina bem com um dia de verão seco da península Ibérica, tão bem como um vinho verde bem gelado.

CCD e CMOS

Há uns dias eu publiquei um teste com uma Nikon D200. Elogiei suas cores, apesar de ser uma câmera digital com mais de 10 anos e citei o fato dela ter um CCD ao invés de CMOS, que hoje é padrão na indústria fotográfica. Acho que essa questão ficou no ar, dai esse post para por ela de volta no chão.

A fotografia digital nasceu com o CCD, o CMOS veio posteriormente como uma forma mais barata de produzir sensores de imagem para câmeras mais simples, com a evolução do software que controla o CMOS e dos próprios CMOS ele acabou substituindo o CCD em quase todas as câmeras fabricadas hoje em dia (Leica e Phase One ainda oferecem opções com CCD, mas aos poucos elas vão rareando).

O cerne da diferença é que os CCDs usam um processo de manufatura mais complexo, enquanto os CMOS podem ser fabricados numa fábrica comum de microprocessadores, isso por si só faz os CCDs mais caros que os CMOS. CMOS são naturalmente mais sensíveis ao ruído, anos de desenvolvimento de software fizeram isso se tornar imperceptível para o consumidor. O CCD naturalmente consome algo como 100 vezes mais energia que um CMOS equivalente. Ainda há quem diga que as cores do CCD são melhores, mas o fato é que a mistura de pigmentos que são usados nos sensores e os perfis gerados posteriormente pelos fabricantes também tem um papel importante para a percepção da qualidade do CMOS hoje e com a evolução tecnológica o CMOS foi ganhando esse espaço também.

Isso explica basicamente porque hoje em dia temos que lidar com o rolling shutter e as imagens flicando. Se você quiser ler uns bate-bocas a respeito de qual sensor é melhor, aqui tem um. Aqui tem um vídeo maneiro que explica as diferentes tecnologias.

MegaVision S-2

A MegaVision é um fabricante pioneiro de backs digitais, sendo o primeiro a oferecer um back digital para venda ao consumidor. Esse aqui é um S-2 de 1996 com um CCD de 31x31cm com 4MP e pixels de 15µ (uau).

O filtro IR-cut desandou e ficou todo irregular impossibilitando fotografar com foco.

Achei uns vidros de 0.5mm guardados desde a pré-história e consegui (sem me cortar, nem arranhar o vidro) cortar um pedaço de tamanho idêntico ao original.

Usei uma cola de silicone bem comum para colocar o novo vidro no lugar e fazer uns testes. O sensor tem umas duas manchinhas que ele adquiriu de 1996 para cá, mas vamos ver no que dá. O software não foi tão difícil, depois que eu descobri uma página escondida no site do fabricante com os arquivos para instalar esse back num Mac OS9: http://mega-vision.com/tech/downloads/ (o site do fabricante omite o s no final de downloads e os links não funcionam, demorei uma semana para sacar de onde era o problema).