Projeto Caixa Preta • Intercalando vídeos

Precisava construir um vídeo alternando entre duas gravações produzidas por percursos completamente diferentes. De um lado, uma Axis P1354 gravando diretamente em H.264, a 1280×720 e 30 fps, registando o que acontecia sobre a mesa da instalação. Do outro, o sinal de vídeo proveniente de um DVD Player, manipulado sobre essa mesma mesa, capturado por um Doctor Video e gravado em 720×480. Mais do que juntar duas resoluções diferentes, interessava-me colocar em diálogo dois pontos de vista sobre o mesmo acontecimento: um mostrando os gestos, os dispositivos e o espaço da instalação; o outro mostrando a imagem que circulava entre esses dispositivos.

O primeiro passo foi preparar os dois ficheiros, recortando apenas os trechos que seriam utilizados na montagem.

ffmpeg -ss 00:00:30 -t 120 -i axis.mkv \
-c copy axis_trim.mkv
ffmpeg -ss 00:00:55 -t 120 -i doctor.mp4 \
-c copy doctor_trim.mp4

Em seguida, normalizei os parâmetros para que ambos pudessem ser utilizados no mesmo projeto. O Doctor Video gravava em 720×480 e apresentava uma taxa de quadros algo irregular, por isso optei por convertê-lo para 30 fps e inseri-lo num quadro de 1280×720 através de um pad, preservando a resolução original da imagem em vez de a ampliar artificialmente.

ffmpeg -i doctor_trim.mp4 \
-vf "fps=30,pad=1280:720:(ow-iw)/2:(oh-ih)/2:black" \
-c:v libx264 -crf 20 -preset slow \
-c:a aac -b:a 192k \
doctor_720p30.mp4

Embora a gravação da Axis já estivesse em 1280×720 e 30 fps, também a recodifiquei para que os dois ficheiros partilhassem os mesmos parâmetros de vídeo e áudio.

ffmpeg -i axis_trim.mkv \
-vf "scale=1280:720,fps=30" \
-c:v libx264 -crf 20 -preset slow \
-c:a aac -b:a 192k \
axis_720p30.mp4

A montagem foi feita alternando segmentos de cinco segundos de cada vídeo. Em vez de criar dezenas de pequenos ficheiros intermédios, utilizei o filtro trim para selecionar cada trecho e o filtro concat para reuni-los numa única sequência.

À medida que a descrição da montagem crescia, tornou-se evidente que já não fazia sentido mantê-la diretamente na linha de comandos. Foi então que descobri a opção -filter_complex_script, que permite guardar toda a lógica do filtro num ficheiro de texto separado. O ficheiro alterna.flt passou a conter toda a sequência de cortes e concatenações.

Um pequeno trecho desse ficheiro tem este aspeto:

[0:v]trim=start=0:end=5,setpts=PTS-STARTPTS[v0];
[0:a]atrim=start=0:end=5,asetpts=PTS-STARTPTS[a0];
[1:v]trim=start=0:end=5,setpts=PTS-STARTPTS[v1];
[1:a]atrim=start=0:end=5,asetpts=PTS-STARTPTS[a1];
...
[v0][a0][v1][a1]...[v23][a23]
concat=n=24:v=1:a=1[v][a]

Com isso, a execução da montagem reduziu-se a um comando bastante simples:

ffmpeg \
-i axis_720p30.mp4 \
-i doctor_720p30.mp4 \
-filter_complex_script alterna.flt \
-map "[v]" \
-map "[a]" \
-c:v libx264 \
-crf 20 \
-c:a aac \
alternado.mp4

O resultado é um vídeo em que a imagem alterna ritmicamente entre dois fluxos distintos. A gravação da Axis documenta o que acontece sobre a mesa da instalação, enquanto o Doctor Video preserva o próprio conteúdo do circuito de vídeo manipulado durante a performance. A montagem permite que o espectador oscile continuamente entre observar o dispositivo em funcionamento e observar a imagem produzida por esse mesmo dispositivo.

Mais uma vez, chamou-me a atenção como o FFmpeg acaba por ocupar um lugar improvável no meu processo artístico. Embora seja visto sobretudo como uma ferramenta de conversão e transcodificação, revela-se igualmente útil como instrumento de montagem, experimentação e composição.

A Mamiya da Petra Costa e os fotolivros da Susana Paiva

Essa quarta vou publicar mais uma entrevista na série Fotografia Portuguesa, com a fotógrafa Susana Paiva que vive em Lisboa. Ela cuida do Photobook Club de Lisboa e lá pelas tantas ela fala de como os fotolivros agradam aos fotógrafos que os produzem, mas nem tanto ao público que o compraria.

Venho pensando nessa relação da fotografia e do vídeo na minha vida. Sim, por conta dessas entrevistas e do que elas podem comunicar, do seu alcance.

Para extrapolar, pensei também que Democracia da Vertigem foi indicado ao Oscar de melhor documentário e os veículos que noticiaram isso usaram a foto de perfil da Petra Costa em que ela posa com uma Mamiya RB67 em Brasília. Tenho certeza que ela deve ter feito umas fotos bacanas de Brasília, mas sem dúvida o alcance do seu trabalho em vídeo na mesma cidade foi muito maior. Consigo imaginar ela voltando a São Paulo e levando os filmes no Gibo para ele revelar e fazer contato. Será que essas imagens impressas poderiam contar para tanta gente que o que aconteceu no Brasil foi golpe?

Processos Fotográficos • perdas e ganhos

Recentemente durante uma entrevista do Foco Crítico (programa que apresento com Fausto Chermont) surgiu o assunto das perdas dos processos fotográficos. Falávamos com Ralph Gibson e ele contava da impressão de seu primeiro livro: http://www.ralphgibson.com/1970-somnambulist.html

A história que ele contou era de quanto ele teve que aprender e investigar sobre os processos de litografia naquela época e procurar pessoas que o atendessem para que ao invés de perder no processo de impressão e acabasse ganhando algo novo e inesperado. Nasceu ali um longo relacionamento dele com os livros.

No início do ano de 2015 queria preparar duas imagens da série Ser Cor e Ser Rio para uma feira. Mandei os dois arquivos para o Lucio Libanori, da Gicleria, imprimir e montar. O Lucio alertou para possíveis problemas de gamut. O arquivo dessa série é produzido em um software antigo, sem CMS, mas que é o que permite criar esse tipo de imagem, assim toda espalhada pelo ambiente do RGB.

Fomos adiante e fizemos as cópias, o trabalho realmente perdeu alguma coisa, algo que provavelmente é imperceptível. No entanto, nenhum método de impressão atual poderia resolver o problema.

O Lucio fez um vídeo de tela enquanto ele comparava os gamuts da imagem e da impressora dele, antecipando as perdas em todas as direções.

Confesso que me bateu um orgulho de ter conseguido criar um arquivo tão complicado e uma tristeza ao encontrar as limitações do processo.

LABici • um pouco de história

Já fiz aqui uns três posts sobre ações do LABici, mas de certa maneira faltou um pouco de história para ajudar a entender o que é isso.

Essa semana a Paty Vilela nos presenteou com um lindo vídeo que conta um pouco o que aconteceu no último Pinholeday no Minhocão com a nossa atividade/aula por lá.

O vídeo está aqui

LABici é algo que Simone Wicca, Roger Sassaki e eu criamos para o Pinholeday de 2014.

O Roger tinha comprado a bicicleta para fotografar colódio por ai e a Wicca botou o olho e vislumbrou pinholes por ai. A coisa cresceu, evento de Facebook, saiu do controle, mas no dia mesmo deu tudo certo e todos os nossos kits se esgotaram alegremente.

O que são os kits? Bom, o evento do Pinholeday é como uma aula, a pessoa chega e ganha o kit. No kit tem uma câmera pinhole que ela vai montar na aula e sair usando, ao ar livre. A parte da montagem é o início da aula, tem cola, tesoura, agulha e martelo envolvidos no processo, no vídeo dá para ver. Depois carregamos as câmeras e fazemos algumas imagens. A gente revela no lab que fica sobre a bike e depois as imagens ficam no vento no nosso varal improvisado. Simples assim.