Recuperando um disco de um Mac dos Anos 90 com Linux

Recentemente recebi uma mensagem pelo site do Piso que dizia o seguinte: “Queria saber se vocês conseguem recuperar informação de velhos Macs”. Troquei algumas mensagens com o Miguel e descobri que se tratavam de dois HDs (um de um Macintosh IIvx e um de um Powerbook 190). Fiquei de fazer um teste e ver se era capaz de extrair o conteúdo do HD que veio no Performa 450 (LC III).

O objetivo era simples: criar uma imagem completa do disco, montar seu sistema de arquivos HFS no Linux e recuperar os documentos armazenados nele.

A primeira coisa a se fazer foi ligar um computador de maneira provisória sobre a mesa e fazer boot com um HD com Ubuntu instalado. Tinha uma placa SCSI Tekram DC-310 que é facilmente reconhecida em Linux e foi nela que liguei o HD do Performa para ver se isso era realmente possível.

Pedi ajuda ao ChatGPT com os comandos para usar no terminal e depois ainda pedi que ele fizesse a estrutura desse post aqui. Editei bastante, adicionei imagens, mas esse aviso é importante.

Depois de alguns testes, encontrei um fluxo de trabalho bastante confiável que funcionou tanto para o disco de 120 MB do Performa, como depois posteriormente para os discos do computadores do Miguel.

1. Identificando o disco SCSI

Após instalar uma controladora SCSI PCI e conectar o disco, o primeiro passo foi verificar se o Linux o reconhecia:

lsblk

No meu caso, o disco apareceu como:

/dev/sdb

Perfeito!

2. Criando uma imagem do disco

Para preservar o conteúdo original, a primeira tarefa é criar uma imagem binária completa do disco.

sudo dd if=/dev/sdb of=~/scsi_120Mb.img bs=4M status=progress conv=noerror,sync

Onde:

  • if= define o disco de origem;
  • of= define o arquivo de destino;
  • bs=4M utiliza blocos maiores para acelerar a cópia;
  • status=progress exibe o progresso;
  • conv=noerror,sync faz com que a cópia continue mesmo diante de setores defeituosos.

Para discos com muitos erros de leitura, o ideal é utilizar ddrescue, que realiza tentativas mais inteligentes de recuperação.

3. Descobrindo a estrutura de partições

Com a imagem criada, podemos analisar sua tabela de partições:

sudo parted ~/scsi_120Mb.img print

O resultado com um disco do Miguel foi:

Number Start End Size File system Name
1 512B 24.1kB 23.6kB Apple
2 24.1kB 65.5kB 41.5kB FWB Disk Driver
3 65.5kB 245MB 245MB hfs MacOS

A partição que interessa é a partição HFS, neste caso a número 3.

4. Calculando o offset

Para montar apenas a partição HFS, precisamos calcular seu deslocamento dentro da imagem, ou seja, o local em bytes onde ela começa..

O início da partição é:

65.5 kB

Convertendo para bytes (porque sabemos que nessa época a grande maioria dos discos tinham 512 bytes por setor):

65.5 kB = 65536 bytes

Outra forma de pensar é:

128 setores × 512 bytes = 65536 bytes

Esse valor será usado no parâmetro offset.

5. Criando um ponto de montagem

sudo mkdir -p /mnt/mac

6. Montando o sistema de arquivos HFS

Agora podemos montar a partição HFS em modo somente leitura (ro = read-only):

sudo mount -t hfs -o ro,loop,offset=65536 ~/scsi_230Mb.img /mnt/mac

Após isso, os arquivos ficam acessíveis em:

/mnt/mac

O HD que usei de testes estava em francês e tudo correu muito bem aqui…

7. O problema dos nomes de arquivos

No caso de um dos HDs do Miguel, a instalação estava em Português e tinha ç, ã, etc. Ao abrir a pasta montada, muitos nomes apareciam corrompidos:

Aplica\215\233es
Utilit\223rios

Isso acontece porque os Macintosh clássicos utilizavam a codificação MacRoman, enquanto os sistemas atuais utilizam UTF-8. Os arquivos estavam íntegros, mas os nomes não eram exibidos corretamente.

8. Convertendo os nomes para UTF-8

A solução mais elegante foi utilizar o rsync com conversão automática de caracteres enquanto já copiava os arquivos da imagem gerada para uma pasta na Área de Trabalho do computador:

rsync -av --iconv=macintosh,utf-8 /mnt/scsi230/ ~/Desktop/scsi230_utf8/

A partir dessa pasta já é possível copiar os arquivos com os nomes corretos para outro lugar ou abrí-los e explorar seu conteúdo.

Considerações finais

Foi surpreendente perceber como discos Macintosh de quase trinta anos ainda podem ser lidos sem grandes dificuldades utilizando ferramentas disponíveis em uma distribuição Linux moderna.

O fluxo que funcionou foi:

  1. Identificar o disco com lsblk;
  2. Criar uma imagem com dd ou ddrescue;
  3. Examinar a tabela de partições com parted;
  4. Calcular o offset da partição HFS;
  5. Montar a imagem em modo somente leitura;
  6. Extrair os arquivos usando rsync --iconv=macintosh,utf-8.

Com esse procedimento foi possível recuperar documentos, programas e dados pessoais preservados em discos Macintosh que permaneceram guardados por décadas.

PS: o Miguel ainda teve algumas dificuldades ao abrir os documentos em um programa Word moderno num sistema operacional Windows. Ficava recebendo alertas da Central de Confiança. Uma busca rápida nos levou a instruções para permitir que arquivos de versões antigas do Word pudessem ser abertos sem esse bloquei e estava tudo resolvido!

PS2: em Linux, com o Libre Office, não houve qualquer dificuldade em abrir os documentos.

São Bento do Cando

Fiz um trilho esses dias ao redor de Gavieira e São Bento do Cando, por todo o percurso se podia olhar para o pico Penameda, com seus 1268 m. Metade do tempo ele estava meio coberto por nuvens, na outra metade estava na sombra delas, como na foto logo abaixo. Acabei dando um pouco mais de atenção às casinhas de pedra nas aldeias e aos campos de pastagem delimitados pelas paredes também em pedra que criam linhas interessantes na paisagem.

Sobre a aldeia, vale ler o artigo da Wikipedia, que apesar de curto tem várias datas e informações significativas.

Já falei aqui sobre outros lugares que fizeram me sentir da mesma maneira. El Chaltén e o Parque Nacional de Itatiaia. Curioso, fiquei pensando em ligações visuais entre esses lugares. Acho que aquela parede de pedra exposta no lado de lá do vale tinha o jeitão das pedras expostas em Itatiaia e guardava uma vaga lembrança de todas as pedras de El Chaltén (ou melhor, eu tenho uma vaga lembrança de El Chaltén…).

Enfim, São Bento do Cando me pareceu mais um lugar interessantemente congelante para se passar dias de frio e vento como esse dia em que fui lá. Um lugar para se estar por trás de paredes grossas, olhando a paisagem por uma janela pequena, ao lado de uma salamandra acesa e com um xícara de chocolate quente nas mãos, tomar coragem e sair para umas fotos, voltar correndo e repetir o chocolate quente. Deve ser um lugar inspirador para umas residência fotográfica de inverno.

Crise de meia-idade

Desejei esse pequeno grupo de tatuagens durante muito tempo. São três desenhos e cada um representa uma pessoa. Meus dois filhos e eu. Essas coisas vão ficando para depois e depois. Semana passada imprimi uma folha com a minha idéia e fui a uma loja que tinham me indicado logo depois da pandemia.

A loja estava fechada, foi decepcionante. “Que vacilo, Guilherme!”

Uns dias depois estava reunido com um grupo de artistas aqui da cidade, no jardim de esculturas de um museu. No meio da conversa, uma artista menciona que estava aprendendo a tatuar e que buscava pessoas interessadas em serem seus primeiros objetos, vítimas, cobaias, telas.

Saquei o papel impresso da mochila e o resto é história.

A Juliana Boo aceitou que eu fosse a sua primeira tatuagem e eu dei a sorte que ela fosse a minha primeira tatuadora.


Quando escrevo que essas coisas vão ficando para depois e depois, era sobre isso que queria falar.

Há um tanto de tarefas que aparecem e vão passando à frente, seja porque o mundo demanda, ou porque elas têm seus prazos. Acho que a crise da meia-idade para mim tem sido o momento de rever tudo que foi ficando para trás, as coisas que eu não tive tempo de estudar antes (como a programação, a eletrônica, enfim, o digital mesmo), as coisas que eu não tive organização para fazer (como essas tatuagens, um mestrado).

Tem um artigo interessante no DailyOm sobre isso, lá eles listam 4 maneiras de usar a meia-idade de maneira mais afirmativa e estratégica. Destaco duas que eu considero as mais importantes: repensar como se usa o tempo (coisa que eu já tenho feito bastante desde a construção da ULF, escrevi bastante sobre isso, talvez até demais) e usar sua própria sabedoria já construída ao longo dos anos (perceber seu próprio fluxo de trabalho, repensar suas próprias reações em situações já vividas). Esse tipo de reforço ajuda a mudar o mindset daqui para frente.


Essa semana eu achei um monitor no lixo, um HP de 19 polegadas, nada muito maravilhoso, mas um monitor pequeno e leve. Ao ligar, ele dava apenas uma tela branca, sem nenhuma imagem. Ao longo desses aprendizados eu já sabia que os monitores tem 3 placas: fonte de energia, placa de vídeo e a placa t-con que fica presa ao painel. E já sabia que tela branca em geral é um problema na t-con. Fui lá com meu multímetro e achei um fusível queimado. Um fusível, que simples! Fiz uma ponte ao redor do fúsivel (não é o reparo ideal nem o mais seguro, mas…) e pronto!

Assim já tinha um novo monitor para um dos meus laptops nus. Acho que ainda não falei deles aqui. São vários e fazem parte das coisas que tenho feito no TiroLiroLab. Hummm, essa história vai longe, depois eu conto mais. Por enquanto vou só deixar uma foto aqui:

Quando escrevo “que simples!”, esse é meu novo eu, todo envolto em novos aprendizados e tatuado. E aos 49 anos fui aceito no Mestrado em Media Arts. Mais e mais tenho lido e me interessado pelas artes digitais. Bom, esse assunto ainda é mais longo que o TiroLiroLab, e vou deixar ambos para mais adiante.

“Natureza subversiva do efêmero”

Tenho sempre um caderno que vou usando para tomar notas. Esses dias estava foleando o que estou usando agora e umas das primeiras notas que escrevi nele foi durante uma reunião dos artistas para a organização da Lesma, o Festival de Fotografia Lenta. As libelinhas-chefes da Lesma Paula e Sofia deixaram claro naquele dia que estavam interessadas que o festival promovesse a “natureza subversiva do efêmero”. Anotei isso.

Como o efêmero poderia se manifestar no contexto da Lesma? Estar presente – corpo, mente e alma. Viver o festival, os encontros, os eventos, sujar as mãos um pouquinho, conversar com os colegas, passar o tempo lá, presencialmente, afinal tínhamos sobrevivido ao pior da pandemia.

Então, com essa frase e com essas idéias na cabeça, vou fazer aqui um update sobre o post do início do ano (mais programação e menos redes sociais). Queria falar um pouco dos esforços para apontar a proa numa direção (mas nem sei se consigo). Para onde vamos? A direção da proa não é suficiente para determinar, pelo menos isso eu sei.

O post de uns dias atrás, com o vídeo Impermanência, me fez pensar nisso também. Nossos esforços para fazer as coisas durarem mais, mesmo que bem sucedidos e nem sempre o são, nunca fazem nada durar o suficiente. E quanto seria suficiente? Vale a pena gastar tempo a pensar nisso?

Melhor perceber quais são as coisas que me acompanham por onde quer que eu vá.

Um esforço tem sido esse: avaliar se vale a pena gastar tempo pensando nisso ou naquilo. Enquanto existem, as coisas sempre mudam. O tempo sempre passa. E as coisas podem mudar antes de se chegar a uma conclusão sobre elas.

Heráclito sabia muito disso: um homem nunca atravessa o mesmo rio duas vezes. O rio muda e o homem muda. E pronto fundou o conceito do devir. Eu suponho que o Christian Marclay quando fez The Clock deve ter tido muito tempo para pensar nisso (e o tempo passou bem ali).

Nós aqui frente ao efêmero. Nós aqui diante do tempo. As coisas seguem mudando ou vindo a ser. Nós seguimos mudando ou vindo a ser. Viver certos momentos pode ser mais importante do que tentar os registrar/guardar – talvez uma das edições mais complicadas que o fotógrafo precisa fazer cotidianamente. Outro esforço é esse: acertar nessa decisão de quando tentar registrar/guardar em imagens.

E o grande esforço é encontrar uma maneira de viver intensamente nosso envelhecimento, o envelhecimento dos nossos trabalhos, das nossas ferramentas, dos nossos aparelhos. E se deixar fluir com o rio. E não estou a falar do Rio de Janeiro, esse da foto, que fiz em 1999.

Saudades do José Luís Silva

Foi graças ao Bento Bueno que nos conhecemos. O Bento sempre dava uma canelada na caixa da Toyo GX ao levantar da cama, anos a fio. Ele acabou decidindo vender todo o equipamento de grande formato e me pediu ajuda. Anunciei um monte de coisas do Bento num fórum, era o Esquina da Foto talvez. O José Luis Silva entrou em contato para comprar uma objetiva, talvez.

Sei que foi em 2012 porque o meu filho Felipe era recém nascido. E eu estava passeando com ele, falei que podia parar pelo estúdio e pegar a objetiva, o Zé falou que passava lá rapidinho para vê-la.

O Felipe tinha dormido finalmente quando cheguei ao estúdio. Deixei ele no carrinho e organizei as coisas do Bento sobre a mesa. O Zé chegou e viu o Felipe dormindo. Foi falando bem baixinho para me ajudar a mantê-lo assim.

Ele olhou as coisas que estavam a venda, nós começamos a conversar. O Felipe continou dormindo por mais de uma hora e nós ficamos amigos, ali, durante aquela soneca dele.

Penna Prearo, José Luís Silva, Elisa Bueno e eu. Fotografando em um ferro velho no interior do estado de São Paulo.

Tínhamos muitas das mesmas preocupações: como garantir a qualidade dos nossos trabalhos, como mostrar nossos trabalhos, como ganhar algum dinheiro com nossos trabalhos. Tínhamos visões diferentes na maioria desses assuntos, mas respeito mútuo pelos nossos esforços em seguir esse caminho.

E reconhecíamos o respeito de ambos pela fotografia em si. E nossas maiores dificuldades nesse campo também.

Obviamente o Zé levava as coisas muito mais a sério do que eu. O site e o Instagram deixam isso bem claro e vale uma visita agorinha, enquanto ainda estão lá. Tem um link quebrado no site, é uma pena, uma outra conta de Instagram que não existe mais, talvez.

Saudades das nossas perambulações pela Zona Leste de São Paulo e nossas caminhadas pelo Centro e por Higienópolis. Quando diminuiu meu tempo para sair e fotografar assim pela cidade, nossas ligações telefônicas continuaram. Ano passado, mesmo com a distância, pusemos em dia as fofocas fotográficas e as nossas conversas sempre francas… Porra, Zé, tão cedo!