Tenho me divertido no mundo dos sons ultimamente e resolvi colocar em uso um gravador que eu tinha de época em que fazia vídeos de casamentos.
O gravador é simples, um Zoom H1n, e tem apenas uma entrada TRS 3.5mm. Queria explorar o mundo inaudível das ondas electromagnéticas com ele.
O primeiro microfone que fiz com uma bobina tirada de uma televisão que encontrei no lixo. Liguei a bobina num pré-amplificador, soldei tudo dentro de uma caixa, com pilhas, um cabo estéreo etc.
Com o tempo, percebi que essa caixa era ótima, mas um podia acomodar mais ideias. Criei uma bifurcação na entrada do pré-amplificador para poder trocar de microfone mais facilmente.
Inclusive descobri que podia usar elementos piezo conectados a essa caixinha!
Depois fui em busca de outras bobinas para fazer outros microfones eletromagnéticos. Achei uns eletroimãs que eu desmontei, separei algum cobre de uma outra bobina de TV, achei um pedaço de ferrite e fiz uma bobina pequena.
Comecei a ouvir os ruídos dos diversos aparelhos aqui de cada, da minha TV, do meu aquecedor, do roteador, do mostrador digital do forno elétrico, do telefone, dos carregadores de celular. As bobinas maiores captam o ruído de todo o dispositivo. Com as bobinas menores consigo isolar um ruído específico de uma parte dos dispositivos. Essa exploração é uma delícia.
Comecei a fazer umas aulas online de piano. É uma delícia. Esse órgão tem sido um grande divertimento.
Estava agorinha fazendo os faders dançarem numa solução de álcool e removedor de gordura. Acabei fazendo essa imagem simbólica, mas que mostra um líquido ligeiramente amarelado da sujeira que saiu de dentro dessas peças.
Com sorte vão voltar a vida.
Descobri a tese do Peter Blasser, criador dos instrumentos Ciat-Lonbarde. E também seus paper circuits. Que viagem.
Sexta-feira pela manhã, estava bem friozinho, marcava 2 graus celsius quando sai de casa às 7:35 para caminhar com meu filho até a escola.
Nossa caminhada foi agradável, fria, mas sem vento. O céu estava colorido e ainda nada do Sol. Na rua da escola ele continuou sozinho e eu me virei em direção à universidade onde ocorrem algumas das aulas do mestrado.
Tinha previsto desviar pelo shopping, para usar um caixa eletrônico que aceita depósitos que há ali. Já estava a 100 metros da porta do shopping quando passava numa esquina onde, em geral, deixam objetos diversos para irem para o lixo. Sob algumas placas de fórmica vi uns pedais. Quem deixou esse item ali, teve o cuidado de deitá-lo sobre um pano e protege-lo com essas placas.
Olhei pelo outro lado. Afastei as placas. Ah! Dois teclados, botões e faders. Uau!
Não, definitivamente não caberia na minha mochila. E eu estava a pé. Abri o WhatsApp e olhei aquela tela buscando uma solução. Entrei no grupo da turma de mestrado, disparei uma foto, pedi ajuda. Depois no grupo da orquestra, fiz o mesmo.
Um colega falou que chegava em 5 minutos. Chegou, mas o carro era muito pequeno. Pusemos o órgão de pé e estudamos melhor a situação. Uma outra colega avisou que faltava 10 minutos. Mandei um áudio, falei que ela tivesse calma, que eu estaria ali “de guarda” até ela chegar.
Diana Gil, a salvadora! Na minha cabeça pensamentos diversos enquanto encontrávamos maneiras de colocar o órgão no carro. Pensei até em como contornaria o nome do blog. Em algum momento ficaria óbvio que o som agora é meu vício, minha obsessão, e que a fotografia anda meio esquecida…
Identifiquei o órgão, é da marca italiana Eko, modelo Madrigale N.V., achei uns parecidos à venda em classificados na Alemanha (basta procurar “eko madrigale orgel”). Criei um post no Reddit para pedir ajuda nas reformas nesse orgão, vamos ver o que me dizem. Coloquei lá o seguinte:
“Na última sexta-feira, encontrei este cara na rua, consegui ajuda de alguns amigos e o levei para a minha garagem. Ontem, usei um aspirador de pó e um pincel para limpar as placas e dei uma olhada no interior.
Por dentro estava em ótimo estado após a limpeza. A estrutura é toda feita de aglomerado, e usei alguns parafusos e cola branca para remontá-la enquanto decido o que fazer com ele. Só de manusear, outras partes do revestimento plástico do aglomerado caíram.
Ele liga! O teclado superior toca bem, bem alto, e não há controle de volume para ele em lugar nenhum. O teclado inferior toca muito baixo, o fader de volume está ruim, o pedal direito aumenta o volume um pouco, mas ainda é fraco. Quatro botões no lado direito mudam o som, ótimo! O fader de afinação no lado esquerdo está OK. Todos os outros faders no painel superior estão ruins, todos medem 500k, mas estão instáveis ou não respondem. As abas do órgão à esquerda perderam a capacidade de ficar levantadas, mas já consertei uma reforçando sua mola de plástico com uma mola de metal e um pouco de cola. Isso foi fácil e não alterou a aparência. Assumindo que os pedais da esquerda sejam pedais de baixo, eles não fazem som em nenhuma configuração, mas o fader de volume do baixo está morto, então preciso consertar isso antes de qualquer outra coisa. Na parte traseira, há entradas e saídas, além de um conector misterioso embaixo das teclas.
Removi o teclado superior e a tampa traseira para ter acesso às placas e fios e ficar de olho neles enquanto conectados à energia. Sem ruídos, sem fumaça, sem calor excessivo em lugar algum.
A única informação que encontrei online sobre este modelo foram alguns anúncios em classificados alemães. Um deles tem um similar, em melhor estado, sendo vendido por 29 euros. Então, não é coincidência que este tenha sido deixado na rua. Embora eu não queira gastar dinheiro para colocá-lo funcionando (ainda), tenho muitas peças reaproveitadas ao longo de anos de “mergulhos no lixo” e curiosidade suficiente para querer vê-lo funcionando novamente.
Aqui estão meus planos até agora, e eu apreciaria qualquer sugestão:
Pegar uma placa de circuito universal (stripboard), colocar 6 potenciômetros de 500k que já tenho e conectores de cabo Dupont.
Ligar os cabos Dupont nos fios que vão para os 6 faders do painel frontal e conectá-los à stripboard.
Deixar a stripboard dentro da tampa superior e testá-la com a tampa superior aberta.
Encontrar a placa do amplificador (seguindo os fios do grande alto-falante abaixo do teclado) e identificar seu sinal de entrada. Adicionar outro potenciômetro de 500k lá como atenuador, para poder tocar na garagem sem reclamações.
Consertar as abas do órgão com molas de metal e cola.
Depois, verificar outros botões e interruptores.
Seguir os fios do conector misterioso embaixo das teclas.”
O post no Reddit logo deu resultados, um dos primeiros comentários me perguntava se o pedal da direita não controlava o volume geral do órgão. E isso é algo que eu não tinha percebido! E que aparentemente é comum a todos os órgãos, o pedal da direita é o volume geral. E os pedais da esquerda, que são 13, são notas do baixo.
O organista toca as notas da melodia com a mão direita no teclado manual superior, as notas do acompanhamento/orquestra com a mão esquerda no teclado manual inferior e as notas do ritmo/baixo com o pé esquerdo nos pedais do baixo. O pé direito cuida do volume de tudo isso para harmonizar com um cantor ou coral.
Outra idéia que surgiu nesse processo foi usar um spray de limpeza de contatos nos faders e ver se por acaso isso dá resultados. Poderia poupar instalar potenciômetros e tals.
Dai a cabeça começou a viajar por ai, não vou me transformar num organista. Mesmo. Já imagino esse órgão a se tornar um instrumento experimental. Algo que eu poderia modificar ao longo do tempo. Pensei em colocar uma placa de acrílico transparente no topo de órgão. Um lugar para instalar os potenciômetros, o controle de volume e 13 botões de fliperama para substituir os 13 pedais do baixo. Posso pensar em adicionar um filtro ao órgão, com cutoff e resonância, desses baseados no filtro do MS-20. Isso possibilitaria variações interessantes do som. E até um sequenciador para disparar notas do baixo.
Dai removo as laterais que são super pesadas, faço laterais pequenas de algo bem mais leve, reforço a estrutura superior com uns perfis de alumínio que eu tenho aqui, separo o alto-falante do órgão, torno tudo mais portátil e fácil de guardar/esconder na garagem.
Quem sabe até o topo e a traseira de acrílico, uns leds RGB, um órgão gamer!
Fiz um trilho esses dias ao redor de Gavieira e São Bento do Cando, por todo o percurso se podia olhar para o pico Penameda, com seus 1268 m. Metade do tempo ele estava meio coberto por nuvens, na outra metade estava na sombra delas, como na foto logo abaixo. Acabei dando um pouco mais de atenção às casinhas de pedra nas aldeias e aos campos de pastagem delimitados pelas paredes também em pedra que criam linhas interessantes na paisagem.
Sobre a aldeia, vale ler o artigo da Wikipedia, que apesar de curto tem várias datas e informações significativas.
Já falei aqui sobre outros lugares que fizeram me sentir da mesma maneira. El Chaltén e o Parque Nacional de Itatiaia. Curioso, fiquei pensando em ligações visuais entre esses lugares. Acho que aquela parede de pedra exposta no lado de lá do vale tinha o jeitão das pedras expostas em Itatiaia e guardava uma vaga lembrança de todas as pedras de El Chaltén (ou melhor, eu tenho uma vaga lembrança de El Chaltén…).
Enfim, São Bento do Cando me pareceu mais um lugar interessantemente congelante para se passar dias de frio e vento como esse dia em que fui lá. Um lugar para se estar por trás de paredes grossas, olhando a paisagem por uma janela pequena, ao lado de uma salamandra acesa e com um xícara de chocolate quente nas mãos, tomar coragem e sair para umas fotos, voltar correndo e repetir o chocolate quente. Deve ser um lugar inspirador para umas residência fotográfica de inverno.
Recentemente, precisei realizar um trabalho sobre Computer Art no meu mestrado. Esse termo pode ser entendido como arte criada, manipulada ou executada com o auxílio de computadores. No entanto, ele também remete especificamente aos experimentos e obras artísticas realizadas nas décadas de 1950 e 1960, quando os computadores ainda estavam em sua infância tecnológica.
A Computer Art é uma das disciplinas pioneiras que deu origem às Media Arts e foi desenvolvida por indivíduos que, naquela época, tinham acesso a equipamentos e conhecimentos extremamente raros e exclusivos. Entre esses pioneiros, me deparei com o trabalho de Ben Laposky, que criava circuitos eletrônicos fascinantes para conectá-los a um osciloscópio, fotografando em seguida as imagens geradas na tela.
Fiquei assombrado com essa ideia de desenhar um circuito imaginando como as variações de voltagens nesse circuito será representada na tela do osciloscópio – é uma construção complexa.
Na Wikipedia, encontrei um parágrafo extraído de uma revista que descreve os detalhes de seu processo fotográfico, incluindo as câmeras, os tipos de filmes e o método de processamento que utilizava. É um relato técnico e muito interessante para entender melhor sua abordagem criativa.
Agora que já faz mais de um ano que adotamos a Polenta, uma cadela sem ração definida que tem muitas características de uma raça conhecida como podengo português, comecei a olhar para as fotos que fiz ao longo de incontáveis passeios com ela pelo bairro.
No fim da minha rua há um terreno vazio, um grande descampado com uma vista incrível para o vale do Rio Cávado. No outro lado do vale estão Vila Verde e o Prado, que são menores que Braga. Ao longe uns montes mais altos com turbinas eólicas e se pudéssemos ver além, veríamos a Espanha.
Polenta adora farejar, mas gosta também de sentar e ficar sentindo os diferentes cheiros que vêm no vento. E eu entro na onda e fico observando o tempo passar, os detalhes de cada estação, a forma das nuvens, como a vegetação da época balança ao sabor do vento.
Às vezes as nuvens filtram a luz do Sol, tem vezes que é a fumaça dos incêndios. Tem dias quentes com um vento gelado. E agora nesse início de Outono teve uns dias perfeitos, nem quentes, nem frios, com um vento constante.
Depois de um tempo, vendo sempre a mesma paisagem, várias vezes ao dia, algumas coisas que pareciam tão relevantes e dignas de uma imagem, começam a se tornar corriqueiras. Me pego esperando um dia ainda mais incrível, nuvens com um desenho ainda mais complexo ou intrigante, coisas desse gênero.
Já sei mais ou menos a que horas os postes de iluminação urbana vão acender ou apagar, fico esperando aquele momento em que tudo vai se alinhar para que a exposição automática do smartphone seja capaz de lidar com essa riqueza de tons.
Mas tem vezes que a situação exige abandonar qualquer plano previamente estabelecido e arriscar tudo num frame impensável com o Sol quase ao centro da imagem. A natureza é que manda, boa parte das vezes.
Um dia a Polenta me acordou mais cedo, chegamos no descampado ali pelas 6 das manhã, o Sol ainda não tinha nascido pelas nossas costas, mas uma luz matinal já iluminava essas nuvens sobre o vale do Cávado. A Lua, que ainda não tinha ido dormir, se escondia por trás de umas nuvens fininhas, quase na linha do horizonte. Agradeci a Polenta, pensei em William Turner, fiz uma foto tremida e cheia de ruído.