Um resgate inesperado • Eko Madrigale N.V.

Sexta-feira pela manhã, estava bem friozinho, marcava 2 graus celsius quando sai de casa às 7:35 para caminhar com meu filho até a escola.

Nossa caminhada foi agradável, fria, mas sem vento. O céu estava colorido e ainda nada do Sol. Na rua da escola ele continuou sozinho e eu me virei em direção à universidade onde ocorrem algumas das aulas do mestrado.

Tinha previsto desviar pelo shopping, para usar um caixa eletrônico que aceita depósitos que há ali. Já estava a 100 metros da porta do shopping quando passava numa esquina onde, em geral, deixam objetos diversos para irem para o lixo. Sob algumas placas de fórmica vi uns pedais. Quem deixou esse item ali, teve o cuidado de deitá-lo sobre um pano e protege-lo com essas placas.

Olhei pelo outro lado. Afastei as placas. Ah! Dois teclados, botões e faders. Uau!

Não, definitivamente não caberia na minha mochila. E eu estava a pé. Abri o WhatsApp e olhei aquela tela buscando uma solução. Entrei no grupo da turma de mestrado, disparei uma foto, pedi ajuda. Depois no grupo da orquestra, fiz o mesmo.

Um colega falou que chegava em 5 minutos. Chegou, mas o carro era muito pequeno. Pusemos o órgão de pé e estudamos melhor a situação. Uma outra colega avisou que faltava 10 minutos. Mandei um áudio, falei que ela tivesse calma, que eu estaria ali “de guarda” até ela chegar.

Diana Gil, a salvadora! Na minha cabeça pensamentos diversos enquanto encontrávamos maneiras de colocar o órgão no carro. Pensei até em como contornaria o nome do blog. Em algum momento ficaria óbvio que o som agora é meu vício, minha obsessão, e que a fotografia anda meio esquecida…


Identifiquei o órgão, é da marca italiana Eko, modelo Madrigale N.V., achei uns parecidos à venda em classificados na Alemanha (basta procurar “eko madrigale orgel”). Criei um post no Reddit para pedir ajuda nas reformas nesse orgão, vamos ver o que me dizem. Coloquei lá o seguinte:

“Na última sexta-feira, encontrei este cara na rua, consegui ajuda de alguns amigos e o levei para a minha garagem. Ontem, usei um aspirador de pó e um pincel para limpar as placas e dei uma olhada no interior.

Por dentro estava em ótimo estado após a limpeza. A estrutura é toda feita de aglomerado, e usei alguns parafusos e cola branca para remontá-la enquanto decido o que fazer com ele. Só de manusear, outras partes do revestimento plástico do aglomerado caíram.

Ele liga!
O teclado superior toca bem, bem alto, e não há controle de volume para ele em lugar nenhum.
O teclado inferior toca muito baixo, o fader de volume está ruim, o pedal direito aumenta o volume um pouco, mas ainda é fraco. Quatro botões no lado direito mudam o som, ótimo!
O fader de afinação no lado esquerdo está OK.
Todos os outros faders no painel superior estão ruins, todos medem 500k, mas estão instáveis ou não respondem.
As abas do órgão à esquerda perderam a capacidade de ficar levantadas, mas já consertei uma reforçando sua mola de plástico com uma mola de metal e um pouco de cola. Isso foi fácil e não alterou a aparência.
Assumindo que os pedais da esquerda sejam pedais de baixo, eles não fazem som em nenhuma configuração, mas o fader de volume do baixo está morto, então preciso consertar isso antes de qualquer outra coisa.
Na parte traseira, há entradas e saídas, além de um conector misterioso embaixo das teclas.

Removi o teclado superior e a tampa traseira para ter acesso às placas e fios e ficar de olho neles enquanto conectados à energia. Sem ruídos, sem fumaça, sem calor excessivo em lugar algum.

A única informação que encontrei online sobre este modelo foram alguns anúncios em classificados alemães. Um deles tem um similar, em melhor estado, sendo vendido por 29 euros. Então, não é coincidência que este tenha sido deixado na rua. Embora eu não queira gastar dinheiro para colocá-lo funcionando (ainda), tenho muitas peças reaproveitadas ao longo de anos de “mergulhos no lixo” e curiosidade suficiente para querer vê-lo funcionando novamente.

Aqui estão meus planos até agora, e eu apreciaria qualquer sugestão:

  • Pegar uma placa de circuito universal (stripboard), colocar 6 potenciômetros de 500k que já tenho e conectores de cabo Dupont.
  • Ligar os cabos Dupont nos fios que vão para os 6 faders do painel frontal e conectá-los à stripboard.
  • Deixar a stripboard dentro da tampa superior e testá-la com a tampa superior aberta.
  • Encontrar a placa do amplificador (seguindo os fios do grande alto-falante abaixo do teclado) e identificar seu sinal de entrada. Adicionar outro potenciômetro de 500k lá como atenuador, para poder tocar na garagem sem reclamações.
  • Consertar as abas do órgão com molas de metal e cola.
  • Depois, verificar outros botões e interruptores.
  • Seguir os fios do conector misterioso embaixo das teclas.”

O post no Reddit logo deu resultados, um dos primeiros comentários me perguntava se o pedal da direita não controlava o volume geral do órgão. E isso é algo que eu não tinha percebido! E que aparentemente é comum a todos os órgãos, o pedal da direita é o volume geral. E os pedais da esquerda, que são 13, são notas do baixo.

O organista toca as notas da melodia com a mão direita no teclado manual superior, as notas do acompanhamento/orquestra com a mão esquerda no teclado manual inferior e as notas do ritmo/baixo com o pé esquerdo nos pedais do baixo. O pé direito cuida do volume de tudo isso para harmonizar com um cantor ou coral.

Outra idéia que surgiu nesse processo foi usar um spray de limpeza de contatos nos faders e ver se por acaso isso dá resultados. Poderia poupar instalar potenciômetros e tals.

Dai a cabeça começou a viajar por ai, não vou me transformar num organista. Mesmo. Já imagino esse órgão a se tornar um instrumento experimental. Algo que eu poderia modificar ao longo do tempo. Pensei em colocar uma placa de acrílico transparente no topo de órgão. Um lugar para instalar os potenciômetros, o controle de volume e 13 botões de fliperama para substituir os 13 pedais do baixo. Posso pensar em adicionar um filtro ao órgão, com cutoff e resonância, desses baseados no filtro do MS-20. Isso possibilitaria variações interessantes do som. E até um sequenciador para disparar notas do baixo.

Dai removo as laterais que são super pesadas, faço laterais pequenas de algo bem mais leve, reforço a estrutura superior com uns perfis de alumínio que eu tenho aqui, separo o alto-falante do órgão, torno tudo mais portátil e fácil de guardar/esconder na garagem.

Quem sabe até o topo e a traseira de acrílico, uns leds RGB, um órgão gamer!

São Bento do Cando

Fiz um trilho esses dias ao redor de Gavieira e São Bento do Cando, por todo o percurso se podia olhar para o pico Penameda, com seus 1268 m. Metade do tempo ele estava meio coberto por nuvens, na outra metade estava na sombra delas, como na foto logo abaixo. Acabei dando um pouco mais de atenção às casinhas de pedra nas aldeias e aos campos de pastagem delimitados pelas paredes também em pedra que criam linhas interessantes na paisagem.

Sobre a aldeia, vale ler o artigo da Wikipedia, que apesar de curto tem várias datas e informações significativas.

Já falei aqui sobre outros lugares que fizeram me sentir da mesma maneira. El Chaltén e o Parque Nacional de Itatiaia. Curioso, fiquei pensando em ligações visuais entre esses lugares. Acho que aquela parede de pedra exposta no lado de lá do vale tinha o jeitão das pedras expostas em Itatiaia e guardava uma vaga lembrança de todas as pedras de El Chaltén (ou melhor, eu tenho uma vaga lembrança de El Chaltén…).

Enfim, São Bento do Cando me pareceu mais um lugar interessantemente congelante para se passar dias de frio e vento como esse dia em que fui lá. Um lugar para se estar por trás de paredes grossas, olhando a paisagem por uma janela pequena, ao lado de uma salamandra acesa e com um xícara de chocolate quente nas mãos, tomar coragem e sair para umas fotos, voltar correndo e repetir o chocolate quente. Deve ser um lugar inspirador para umas residência fotográfica de inverno.

Oscillons • Ben Laposky

Recentemente, precisei realizar um trabalho sobre Computer Art no meu mestrado. Esse termo pode ser entendido como arte criada, manipulada ou executada com o auxílio de computadores. No entanto, ele também remete especificamente aos experimentos e obras artísticas realizadas nas décadas de 1950 e 1960, quando os computadores ainda estavam em sua infância tecnológica.

A Computer Art é uma das disciplinas pioneiras que deu origem às Media Arts e foi desenvolvida por indivíduos que, naquela época, tinham acesso a equipamentos e conhecimentos extremamente raros e exclusivos. Entre esses pioneiros, me deparei com o trabalho de Ben Laposky, que criava circuitos eletrônicos fascinantes para conectá-los a um osciloscópio, fotografando em seguida as imagens geradas na tela.

Fiquei assombrado com essa ideia de desenhar um circuito imaginando como as variações de voltagens nesse circuito será representada na tela do osciloscópio – é uma construção complexa.

Na Wikipedia, encontrei um parágrafo extraído de uma revista que descreve os detalhes de seu processo fotográfico, incluindo as câmeras, os tipos de filmes e o método de processamento que utilizava. É um relato técnico e muito interessante para entender melhor sua abordagem criativa.

Vale visitar o site do Victoria and Albert Museum para ver as fotos do Ben por lá.

O descampado no fim da minha rua

Agora que já faz mais de um ano que adotamos a Polenta, uma cadela sem ração definida que tem muitas características de uma raça conhecida como podengo português, comecei a olhar para as fotos que fiz ao longo de incontáveis passeios com ela pelo bairro.

No fim da minha rua há um terreno vazio, um grande descampado com uma vista incrível para o vale do Rio Cávado. No outro lado do vale estão Vila Verde e o Prado, que são menores que Braga. Ao longe uns montes mais altos com turbinas eólicas e se pudéssemos ver além, veríamos a Espanha.

Polenta adora farejar, mas gosta também de sentar e ficar sentindo os diferentes cheiros que vêm no vento. E eu entro na onda e fico observando o tempo passar, os detalhes de cada estação, a forma das nuvens, como a vegetação da época balança ao sabor do vento.

Às vezes as nuvens filtram a luz do Sol, tem vezes que é a fumaça dos incêndios. Tem dias quentes com um vento gelado. E agora nesse início de Outono teve uns dias perfeitos, nem quentes, nem frios, com um vento constante.

Depois de um tempo, vendo sempre a mesma paisagem, várias vezes ao dia, algumas coisas que pareciam tão relevantes e dignas de uma imagem, começam a se tornar corriqueiras. Me pego esperando um dia ainda mais incrível, nuvens com um desenho ainda mais complexo ou intrigante, coisas desse gênero.

Já sei mais ou menos a que horas os postes de iluminação urbana vão acender ou apagar, fico esperando aquele momento em que tudo vai se alinhar para que a exposição automática do smartphone seja capaz de lidar com essa riqueza de tons.

Mas tem vezes que a situação exige abandonar qualquer plano previamente estabelecido e arriscar tudo num frame impensável com o Sol quase ao centro da imagem. A natureza é que manda, boa parte das vezes.

Um dia a Polenta me acordou mais cedo, chegamos no descampado ali pelas 6 das manhã, o Sol ainda não tinha nascido pelas nossas costas, mas uma luz matinal já iluminava essas nuvens sobre o vale do Cávado. A Lua, que ainda não tinha ido dormir, se escondia por trás de umas nuvens fininhas, quase na linha do horizonte. Agradeci a Polenta, pensei em William Turner, fiz uma foto tremida e cheia de ruído.

Novas redes

Participei de um concurso de fotografia interessante essa semana passada. A Câmara Municipal disponibilizou rolos de filme e câmaras descartáveis para os participantes fotografarem nos locais dos vários imóveis que são patrimônio histórico da cidade. A lista completa dos imóveis foi oferecida aos participantes, tinha lugares de simples acesso, no centro da cidade e lugares distante do centro. Era ao gosto do freguês. Fiquei sabendo que uma participante comprou uma frigideira (um salgado tradicional de Braga) e a levou para fotografar junto às rosas do jardim de Santa Bárbara. E com a frigideira e as rosas usou todas suas 24 fotos. A criatividade do ser humano é algo maravilhoso e estou curiosíssimo para ver essas fotos! Foi uma iniciativa interessante para fazer as pessoas olharem para certos prédios e casas da cidade nesse início de Outono. E é sempre bom reencontrar os colegas e ficar sabendo dessas histórias.

Depois, no mesmo dia, foi o Open Day do Nébula, já falei dele aqui e já até atualizei o post sobre ele com imagens que fizemos naquele dia. O oficina de Construção de Câmara Digital Artesanal é algo que eu já faço a tanto tempo, mas a experiência de transformar ela num evento curto foi interessante. Abri a pocket oficina com algumas poucas palavras para explicar o que tínhamos ali diante de nós. Mostrei o CCD de uma câmara digital normal, mostrei o CCD linear de um scanner comum. Expliquei as diferenças, falei de possibilidades. A câmara já estava montada ao laptop, não foi sendo construída ao longo de horas de oficina. Fiz um auto-retrato e convidei os alunos a fazerem o mesmo, cinco minutos depois estava montado um circo ali, uma algazarra maravilhosa.

O divertimento das pessoas ao ver seus corpos e rostos deformados pela varredura incessante do CCD linear é um deleite. A caixa preta tem seu apelo, desconhecer o output, vê-lo magicamente aparecer na tela com formas e cores surpreendentes é um evento fora da rotina – pitoresco e interessante. Ainda bem que o Vuescan permite salvar as imagens automaticamente, assim nenhuma delas se perde na pressa de fazer a próxima!

São dois exemplos da fotografia criando redes ao longo de um final de semana, gostoso isso.

Ruídos eletrônicos

No post anterior eu já anunciei que esse post aqui me obrigou a criar uma nova categoria aqui (“media arts”). Organizei dois posts de 2008 e um de 2010 dentro dessa categoria. São coisas que levam anos para encontrar uma saída.


Pelas minhas andanças na cidade acabei esbarrando num par de caixas de som dinamarquesas e elas ficaram um tempo ali na garagem esperando algo mais aparecer. Não demorou tanto assim, logo achei um estéreo bem simples e antiguinho, um 3 em 1 com CD, tape deck e rádio AM/FM.

Desmontei o estéreo para entender suas partes e saber o que ainda funcionava e como.

A placa do amplificador tinha diversas áreas dedicadas a cada uma das entradas (CD, rádio, AUX e tape decks). Comecei a mapear o que funcionava em AUX para ver como injetar ruídos e sons.

Achei umas ligações que davam uns curtos interessantes, instalei uma nova entrada para microfone. Soldei uns fios para facilitar a brincadeira.


Num experimento paralelo, ao desmontar uma filmadora velha, achei um elemento piezo da TDK ligado como buzzer. Consegui recortar a placa de circuito o suficiente para isolar esse piezo sem danificar nada.

Uma coincidência monstruosa, fui ver a mais recente apresentação da Orquestra de Dispositivos Eletrônicos aqui em Braga e fiquei entusiasmado com os cubos mágicos da Líria, ligados a piezos, sendo usado para os sons mais malucos. No fim do espetáculo o coordenador ainda anunciou que eles iam começar uma nova temporada e que estavam abrindo vagas a voluntários…

Já sabia o que fazer com esse piezo. Com dois fios liguei ele a uma placa estéreo USB.

Tinha um modem DSL antigo, desmontei. O modem era protegido por uma linda gaiola de Faraday. Com metade dela eu já tinha um “campinho” para jogar bola de gude. Colei o piezo nela e logo fiz um “instrumento” que podia também só raspar.

Com cola quente e USB, bem maneiro.


As caixas de som, do início desse post, eram maravilhosas e o eco na garagem é delicioso. No entanto, percebi que aquilo precisava ir mais longe…

Precisava dar saída para esses sons. Queria adicionar reverb a eles. Pesquisei um caminho open source, lembrei do Pure Data. Num vídeo de Youtube descobri que o Valhalla Supermassive (um plugin vst com um reverb lindo) é gratuíto apesar de código fechado. Achei um jeito de ligar VSTs no Pure Data. Num laptop velho instalei o Mac OS 10.13.6, o Pure Data e o Massive.

Levei umas tentativas para perceber como as preferências do sistema de áudio conversavam com adc~ do Pure Data, mas acabei encontrando um ponto comum entre eles e ficou tudo beleza pura.

Para poder usar um plugin com o Pure Data no Mac, acabo não podendo usar a versão mais recente de todas. Não sei se é por isso, mas não consigo ingerir todas as entradas de áudio no Pure Data. Ele acaba só vendo a que se escolhe nos System Preferences.


Nesse meio tempo, escrevi para o email da ODE e me chamaram para participar. Levei a tralha toda, mesmo sem conseguir tocar ambos os “instrumentos” juntos. O primeiro ensaio de que participei foi das experiências mais interessantes que tive recentemente. O músico Rui Souza que coordena a orquestra tem uma vibe perfeita para criar um ambiente amistoso e prolífico, mesmo com tanta gente que não nasceu músico.


Decidi experimentar com Processing, em Linux e ver se consigo aceitar o som do meu “gerador de ruído” e do piezo juntos, mixá-los, dar um delay e um reverb diferente em cada um e devolvê-los num output qualquer. No entanto, numa aula do mestrado, o professor do ateliê de arte sonora me ajudou a encontrar umas mesas de mistura bem econômicas no OLX. E depois de uns dias a escolhida já tinha chegado.

Isso ainda fazia mais sentido depois de uma dica do Rui, de pesquisar reverbs analógicos feitos com molas. Adicionei um outro piezo ao meu “amplificador de ruídos”, pendurado no seu interior por duas molas bem fininhas. O som ficou mais fraco do que quando ele estava colado à superfície da madeira, mas um ligeiro reverb natural se fez presente. Talvez com gain e compressor da mesa seja possível contornar isso bem, ainda carece de teste… Se precisar ainda tem um preamp do AliExpress que pode ser a solução…

Esse post cresce toda vez que o edito, hahahhahaha, vou encerrar aqui e depois conto mais.