Revelei uns filmes preto-e-branco (alguns que aguardavam há meses no laboratório, outros mais recentes, de Paranapiacaba). Eram rolos de Fortepan 100. Várias experiências com esse lote de filme que estava bem vencido. O revelador escolhido foi o FX1, uma fórmula do Crawley, algo semelhante ao Beutler. O resultado foi interessante, típico de um filme nessa velocidade com um revelador que promove tanta acutância.

Passei no centro atrás de mais scanners. Quero modificar um para uma tarefa mais específica. Achei dois HP2200C que aceitam bem as modificações. A idéia é aproximar o foco da lente, restringindo campo de visão e diminuir a distância que o carro se movimenta. Visando com isso aumentar a “densidade” da resolução: escanear com mais dpis uma área menor, tal como a de um negativo de médio formato.

Achei outra imagem que se por um lado não é nada muito importante esteticamente, por outro guarda um momento onde muita coisa mudou de rumo dentro da minha cabeça. Essa caçamba de lixo fica nos fundos de uma lojinha de equipamento fotográfico em Houston. Eu fiz a foto quando visitava a cidade para o Fotofest de 2000. Essa foi a primeira caçamba na qual eu entrei, a primeira de muitas (faltou uma foto de dentro, só lembrei depois que atravessei a rua). A caçamba era bem limpinha, facilitou. E eu sabia mais ou menos o que procurar dentro dela. Enchi um saco com tele-converters velhos, filtros para flashes e outras tranqueiras que o pessoal da loja não conseguia mais vender. Voltei de viagem e distribui presentes para os amigos. Entrar mesmo na caçamba, só no primeiro mundo, lá as caçambas são altas e exigem esse esforço, aqui as caçambas são baixas e você só precisa estender o braço e se espantar com as coisas que as pessoas jogam fora.

Repescagem é uma palavra muito associada ao futebol. E não é algo glorioso passar de fase num campeonato através da repescagem.
Às vezes olhamos nossos negativos e contatos com muita pressa. Uma foto ou outra fica para trás. Não basta ter percebido o ângulo ou a cena. Não basta ter tido o tempo ou a habilidade de fazer a foto. Ainda tem que lembrar que o negativo está ali e fazer com que ele vá para o papel.
E assim muita coisa nunca deixa de ser apenas um negativo.
Repescagem para mim é olhar caixas e caixas de negativos, em busca daqueles esquecidos. Aqui um que eu encontrei ontem, de 1999. Me pergunto como não me empolguei com a composição simétrica, nem devo ter visto o negativo direito, senão, teria ampliado a imagem.

Nem tive muito tempo de ficar chateado com um engravatado que cancelou um trabalho grande que eu estava fazendo. Um amigo me ligou pedindo ajuda. Ontem seu pai teve o mesmo fim da Francesca Woodman. E eu entendo tão bem porque fotografar nesses momentos, usar a fotografia para entender melhor esses processos, uma vida que se vai. E nessas horas, é engraçado como recorremos ao que nos é mais familiar, àquilo que usamos desde que aprendemos a fotografar. Meu amigo me pediu ajuda para comprar filmes preto-e-branco, iso 400, e me perguntou como tinha sido fotografar a doença de meu pai.
Fotografar não foi nada. Olhar as fotos depois é que foi e é intenso.
Lembrar da fotógrafa que viveu até os 22 anos de idade não é coincidência. Seus olhos claros sempre contrastados nas cópias em preto-e-branco e os olhos do pai do meu amigo: escuros, sempre distantes, densos. Pensei muito nela em Paranapiacaba, recentemente. Me despi em um galpão abandonado, feito de telhas de zinco, com chão de terra, em autoretratos. Lembrei das também ruínas onde ela posava para si mesma, me coloquei um pouco em seu lugar, agora só penso em voltar lá.