Lona

O alerta era mais ou menos assim: ano 86, único dono, curada, basta retirar. Essa lona já teve muita história. Na década em que todo fotógrafo tinha uma, ela foi fundo de retratos os mais variados, mas caiu em desuso, ficou esquecida, cehgou a cobrir churrasqueira em dia nublado. Agora passava seus dias tomando sol ou chuva amarrotada nos fundos da casa de um amigo. Fui buscar, sairam bichos indescritíveis de dentro dela, o cheiro era renite alérgica pura! Um pacote de sabão de em pó, uma vassoura, uma magueira na garagem do prédio. Ficou cheirosa! Ainda mostra tudo o que passou, rasga fácil já que o tecido perdeu o vigor da juventude, mas está ai.

Placa de lente com massa plástica

Fotos antigas. Fazendo placas de massa plástica para colocar lentes em câmaras de madeira. O molde foi cortado em polietileno, que por sua vez é ótimo para que as coisas não grudem nele. A massa é aplicada no molde, seca um pouco e antes que enrijeça por completo sai e ganha arremates nos buraquinhos que ficaram, nesse momento se pode esculpir a massa plástica com um estilete, por exemplo, bem afiado.

W. H. Auden fala sobre fotografia

Tudo começou porque eu estava ouvindo o CD do Renato Russo chamado: The Stonewall Celebration Concert. No próprio disco há, impressa, uma citação a um poema de W.H. Auden. Quem é esse cara? Que duas linhas mais maravilhosas, por sinal.

Digitada a primeira linha no Google apareceram inúmeros lugares para ler o resto do poema, entre eles esse. Acessei também o Wikiquotes e descobri que é dele o poema da cena do funeral no filme Quatro Casamentos e um Funeral. Coincidência, mas até ai, nada de mais. Fuçando um pouco mais na Wikiquotes encontrei um pequeno achado, uma citação de W.H. Auden falando de fotografia, segue o link e uma transcrição:

“Normally, when one passes someone on the street who is in pain, one either tries to help him, or one simply looks the other way. With a photo there’s no human decision; you’re not there; you can’t turn away; you simply gape. It’s a form of voyeurism.” In Paris Review “Writers at Work” interviews, 4th series (p.247) [entrevista concedida em 1972]

Osasco em Lith

Em 1996 comecei a fotografar algumas pessoas, umas 5 ou 6, que sobreviveram à explosão de um shopping na cidade de Osasco, SP. Segui a vida de 3 desses durante um período bem longo, de 3 anos. Fotografei com os filmes que eu pude comprar, que na época eram preto-e-branco. O trabalho foi sendo construído e eu o apresentava com fotos com uma escala tonal comum (como as que eu comentei num post anterior). Em 2000 eu ganhei um envelope de papel positivo para ser usado na indústria gráfica. Acabei fazendo uma espécie de releitura do meu próprio trabalho, brincando com um contraste mais acentuado, interferências físicas na imagem. As imagens perderam o ar de fotografia documental que elas tinham, o que deixou algumas pessoas incomodadas, mas ganhou outras informações.

A foto de cima é a Gil superando a escada da entrada da casa dela, quando ela finalmente voltou a andar. Já esse beijo foi a última foto que eu fiz dela. Era sinal de que ela tinha superado as 33 cirurgias e o ano e meio presa a uma cama e recomeçado a vida, encontrado um amor.