Cinco anos de gaveta

Comprei essa Olympus XA em 2019, ela tinha um defeito que era irreparável na época. Ela armava e disparava, mas sempre na velocidade máxima, ignorando o fotômetro e a abertura. Cheguei a desmontar ela e olhar o circuito, havia um pouco de corrosão, provavelmente algo impedia um eletroimã de segurar o obturador aberto.

Uns dois anos depois achei um figura vendendo pedaços de Olympus XA num fórum e resolvi arriscar investir numa objetiva e circuitos para trocar. Fiz a compra e uns dias depois chegou em casa a caixinha. Eu abri aquilo e encontrei exatamente o que eu tinha pedido. Mas comecei a pensar no trabalho que ia dar, dessoldar tantos fios, sem um espaço apropriado para fazer o reparo. Enfim, bateu uma preguiça enorme.

O tempo passou e acabei esquecendo da XA por um ano e pouco. Dai lembrei e resolvi começar, na época desmontei a câmara e num dado momento não sabia o que fazer para tirar a lente original. Desisti e guardei tudo de novo e esqueci novamente.

Semana passada estava procurando uma ferramenta e acabei encontrando a XA novamente. Resolvi acabar com esse sofrimento e fiz um anúncio num fórum para vender no estado. Dois dias depois nem uma mensagem. Tomei vergonha na cara e decidi encarar a XA mais uma vez.

Bom, segui a risca a maneira correta de desmontar a câmara e tenho ainda frescas na memória as piores partes:

  • a lente que eu comprei é da mesma câmara, mas não da mesma versão (provavelmente a minha câmara é dos primeiros anos de fabricação, a lente que eu comprei é bem mais recente);
  • a lente que eu comprei veio faltando algumas peças da periferia que interagem com o resto do sistema (consegui aproveitar tudo da lente velha, mas não posso te certeza se isso é aceitável para um bom funcionamento);
  • a lente que eu comprei veio com os fios cortados ao invés de dessoldados, logo tive que fazer extensões para todos eles, demorado, tedioso e possivelmente introduz mais pontos problemáticos;
  • por comparação, percebi que o circuito da câmara estava mesmo bem degradado, oxidado, etc.

Decidi eliminar a parte do circuito relacionada ao sincronismo de flash. Eram quatro soldas a menos para fazer e menos alguns pontos problemáticos nas minhas contas.

Posto isso tudo, montei a câmara o suficiente para realizar alguns testes. Conferi as baterias com o multímetro antes disso. O check de baterias da câmara também acusou ok. De cara, alguma dificuldade de disparar, disparador intermitente. Depois alguns clicks perfeitos (com tempos longos de acordo com a iluminação). Voltei a desconectar o beeper (que tinha vindo desconectado originalmente). Ainda o problema intermitente, era só preguiça do técnico anterior, faz sentido.

Percebi que quando a câmara falhava em disparar, a agulha do fotômetro do visor dava um pequeno pulo. Ou seja, o circuito do disparador fechava, mas a corrente escapava em outra direção ao invés de atuar no eletroimã responsável pelo disparo. Deixei tudo de lado enquanto a cabeça volta e meia matutava numa maneira de testar esse problema intermitente.

Pensei em usar esse tempo para modificar a outra lente e usar nas câmaras Sony, mas depois de ver esse site aqui, desisti disso também…

Talvez o melhor seja deixar passar mais uns anos, enquanto as idéias voltam a se alinhar.

“Natureza subversiva do efêmero”

Tenho sempre um caderno que vou usando para tomar notas. Esses dias estava foleando o que estou usando agora e umas das primeiras notas que escrevi nele foi durante uma reunião dos artistas para a organização da Lesma, o Festival de Fotografia Lenta. As libelinhas-chefes da Lesma Paula e Sofia deixaram claro naquele dia que estavam interessadas que o festival promovesse a “natureza subversiva do efêmero”. Anotei isso.

Como o efêmero poderia se manifestar no contexto da Lesma? Estar presente – corpo, mente e alma. Viver o festival, os encontros, os eventos, sujar as mãos um pouquinho, conversar com os colegas, passar o tempo lá, presencialmente, afinal tínhamos sobrevivido ao pior da pandemia.

Então, com essa frase e com essas idéias na cabeça, vou fazer aqui um update sobre o post do início do ano (mais programação e menos redes sociais). Queria falar um pouco dos esforços para apontar a proa numa direção (mas nem sei se consigo). Para onde vamos? A direção da proa não é suficiente para determinar, pelo menos isso eu sei.

O post de uns dias atrás, com o vídeo Impermanência, me fez pensar nisso também. Nossos esforços para fazer as coisas durarem mais, mesmo que bem sucedidos e nem sempre o são, nunca fazem nada durar o suficiente. E quanto seria suficiente? Vale a pena gastar tempo a pensar nisso?

Melhor perceber quais são as coisas que me acompanham por onde quer que eu vá.

Um esforço tem sido esse: avaliar se vale a pena gastar tempo pensando nisso ou naquilo. Enquanto existem, as coisas sempre mudam. O tempo sempre passa. E as coisas podem mudar antes de se chegar a uma conclusão sobre elas.

Heráclito sabia muito disso: um homem nunca atravessa o mesmo rio duas vezes. O rio muda e o homem muda. E pronto fundou o conceito do devir. Eu suponho que o Christian Marclay quando fez The Clock deve ter tido muito tempo para pensar nisso (e o tempo passou bem ali).

Nós aqui frente ao efêmero. Nós aqui diante do tempo. As coisas seguem mudando ou vindo a ser. Nós seguimos mudando ou vindo a ser. Viver certos momentos pode ser mais importante do que tentar os registrar/guardar – talvez uma das edições mais complicadas que o fotógrafo precisa fazer cotidianamente. Outro esforço é esse: acertar nessa decisão de quando tentar registrar/guardar em imagens.

E o grande esforço é encontrar uma maneira de viver intensamente nosso envelhecimento, o envelhecimento dos nossos trabalhos, das nossas ferramentas, dos nossos aparelhos. E se deixar fluir com o rio. E não estou a falar do Rio de Janeiro, esse da foto, que fiz em 1999.

Carl Zeiss Jena Tessar 2,8/50 T

Há muitos anos que eu fiz uma troca por correio com um outro fotógrafo de um fórum, não lembro bem o que eu enviei, mas recebi essa Tessar 50mm produzida pela CZJ. Depois descobri que esse foi o primeiro modelo da 50mm Tessar produzido após a Segunda Guerra Mundial. Foi produzida entre 1950 e 1954.

O encaixe dessa objetiva que eu tenho é M42, mas não serve numa câmara Pentax M42, por exemplo. A objetiva tem uma protuberância na parte traseira e nem cabe na maioria dos adaptadores de M42 para outras baionetas. A objetiva foi produzida para a câmara Contax D e tem um sistema preset para aberturas.

Quando eu recebi essa objetiva estava contruindo as primeiras câmaras-scanner e ela acabou sendo usada para a maioria das imagens da série Pluracidades nessa câmara aqui:

Recentemente eu comprei alguns adaptadores novos no AliExpress para usar nas câmaras Sony. Quando chegou um de M42 para Sony E eu percebi que ele era diferente dos adaptadores anteriores que eu já tive. A rosca M42 não tinha uma beirada no fim. Vi que a protuberância da Tessar não seria problema. E a objetiva é bem leve, seria uma ótima companhia, então levei ela para um passeio pelo bairro.

A lente é pequena, não ocupa muito espaço. O primeiro elemento é bem recuado e bem protegido, nem precisa de parassol. Aberta em f/2.8 ela é suave demais, mas em f/3.5 já começa a ficar bem agradável o visual clássico dela.

Visual clássico é um eufemismo para ausência de foco/recorte/etc, as coisas que sobram nas objetivas modernas. Para uma objetiva com pelo menos 70 anos de idade, usada num sensor de 42MP, os resultados foram excelentes! Tem muita gente online reclamando do bokeh dela, não é o ponto forte mesmo. O ponto forte é o conjunto.

Mas depois de olhar essas fotos do encontro do Art Group em Braga, acho mesmo que o bokeh é bem divertido e aceitável (mas não me coloco como especialista em bokeh).

Uma 10D que vai fazer timelapses até morrer

Depois da minha aventura com a Nikon D100, apareceu aqui uma Canon 10D ainda com aparência de nova. Também em 6MP e até seria possível tirar o filtro infravermelho, como na D100, mas não me apetecia fazer a mesma coisa nessa. E ela tinha um problema, talvez até pelo pouco uso: o espelho levava uns milissegundos a mais para subir. Então às vezes ela dava erro ao fotografar normalmente. Mas em mirror lockup não dava erro nunca.

Resolvi explorar algum outro aspecto dessa câmara e pensei na conexão com o disparador a cabo. Assim eu faria algo com a câmara estacionária e poderia usar o mirror lockup.

Juntei uns fios aos pinos e com cola epóxi deixei aquilo bem firme.

Fui ao AliExpress e encontrei uns boards Wemos D1 mini (esp8266) bem em conta. Já tinha resistores, encomendei também os optocouplers para nenhum circuito queimar o outro.

Cola quente, muita cola quente, sempre. E estava pronto. Num tripé na varanda, tanto a câmara como o Wemos ligados à eletricidade, resolvi deixar um dia fotografando para ver se corria bem.

Escolhi a resolucão M (que é ligeiramente maior que 1080p) para o cartão de 4Gb ser mais que suficiente. Coloquei um delay para fazer uma imagem a cada 30 segundos. Assim, com 60 fps, consigo uma hora em 2 segundos de vídeo, das 10h às 20h em 20 segundos, para começar. Coloquei em prioridade abertura (f/8), ISO 100.

Li no manual que na 10D ao habilitar o mirror lockup são necessários dois contatos no disparador (um sobe o espelho e o outro faz a foto). Se o self-timer em for habilitado em conjunto, toda vez que o disparador é acionado o espelho sobe, a câmara espera dois segundos e dispara automaticamente. Isso é bom para evitar uma série de problemas e tem a vantagem de introduzir o som do self-timer durante esses dois segundos. Bastava chegar à varanda e esperar um bocadinho até ouvir esse som e saber que tudo ainda funcionava.

Deu tudo certo e consegui mais de 1200 arquivos nesse dia. Usei o Time Lapse Assembler em OS X Snow Leopard para montar tudo rapidinho em 30 fps, com o FFMPEG aumentei a velocidade para chegar ao equivalente aos 60 fps e cá está. Depois fui descobrir que dá para fazer tudo com o FFMPEG, num sistema mais moderno e num computador mais novo. o FFMPEG é gratuito e instala em quase qualquer OS. Refiz o vídeo inteiro usando apenas o FFMPEG e vou deixar aqui como referência os comandos que eu usei. Esse primeiro serve para varrer a pasta com os Jpegs e montar o vídeo no tamanho original das images:

ffmpeg -framerate 30 -pattern_type glob -i "Capturas 01/*.JPG" -s:v 2048x1360 -c:v libx264 -crf 17 -pix_fmt yuv420p saida.mp4

Depois usei esse comando para dobrar a velocidade:

ffmpeg -i saida.mp4 -r 30 -vf "setpts=(PTS-STARTPTS)/2" -crf 17 saida_FF.mp4

Então diminui o tamanho geral do vídeo:

ffmpeg -i saida_FF.mp4 -filter:v "scale=w=1280:h=850" saida_FF_scale.mp4

E por fim, dei um crop para deixar na proporção 16:9

ffmpeg -i saida_FF_scale.mp4 -filter:v "crop=1280:720:0:110" saida_FF_crop.mp4

E pronto!

Mais tarde resolvi fazer um segundo timelapse. Calculei que com um cartão de 8Gb poderia deixar a 10D fotografar por 72 horas. Então fiz um pequeno “guarda-sol” para controlar a temperatura durante as manhãs.

Depois de aproximadamente 4450 fotos (umas 60 horas), a câmara desligou sozinha e acusava bateria fraca. Foi bem estranho. Não foi no horário de Sol mais forte, nem nada do gênero. Desliguei tudo, com um multímetro medi a fonte e estava tudo normal. Voltei a ligar tudo e ela continuou como se nada tivesse acontecido. A sorte foi descobrir uma sujeira enorme sobre o sensor e encaixar uma limpeza nesses 15 minutos que ela ficou desligada. Também pude bisbilhotar as fotos do meio da madrugada para avaliar os resultados.

Aqui uma imagem do início do amanhecer. Coloquei umas setinhas para mostrar a sujeira enorme no céu e diversos pixels mortos pela imagem toda. Ainda não tinha visto as imagens da madrugada e da noite. Elas acabam ficando ligeiramente subexpostas, já que o automático só vai até 30 segundos. Tenho usado ISO 100 e f/8 com velocidade automática, que acaba variando entre 1/500 e 30 segundos ao longo das 24 horas. Os dias seguintes correram assim:

Bom, nesses testes iniciais a câmara fez aproximadamente umas 11.000 fotos. O beep da confirmação do autofocus e do selftimer já parou de funcionar. Noites inteiras fotografando em 30 segundos de exposição atraem muita sujeira para o sensor. Situações limite! Hahahahhahahahahhahahaha

Com uma ajudinha do Python

Recentemente a empresa onde eu hospedava meu site/portfólio resolveu acabar com os planos como os meus e eu resolvi não continuar lá. Aquelas chatices, seu site está por todo lado, mas teria que ser uma outra solução.

Fui olhar as coisas que eu tinha prontas de uns anos atrás e acabei achando uma galeria em Java Script que eu usei num portfolio meu e também no site do RXDCC. Com meus conhecimentos dos anos mais recentes mergulhei novamente naquele projeto para fazer inúmeros ajustes e deixa a coisa um pouquinho mais agradável.

Essa galeria funciona bem na maioria dos navegadores, mas ela requer um HTML que cresce bastante com o número de fotos. Eu queria começar novamente com 93 imagens (antes tinha apenas 20). Então teria que escrever um monte de links repetitivos, como esse exemplo abaixo:

Isso é apenas uma parte do arquivo HTML, mas como tem várias partes que se repetem, escrevi um script simples de Python para automatizar isso:

Depois foi só abrir links.txt, copiar e colar no HTML, feito.

Depois me coloquei um outro desafio, reestruturar o site do zero e pensar numa maneira interessante para dar acesso diretamente a cada um dos ensaios que estão ali, ao invés de forçar o “visitante” a olhar tudo.

Um index.html, um styles.css e um script.js bem simples. Simplesmente copiei a pasta de imagens de um para outro, mas não fiquei satisfeito com as informações aparecendo no abre de cada ensaio, modifiquei para dar um pouco mais de vida a eles.

Uma pasta com 105 imagens. Nesse caso usei o Python para gerar a lista de imagens que está no script.js da mesma maneira que eu fiz no outro caso. E esse resultado está aqui.

A conversa com o artista

O ano era 2015, a exposição Travessia estava aberta na Casa da Imagem e dentro da programação, que fazia parte do projeto apresentado ao Prêmio Marc Ferrez, havia uma conversa com o artista (eu).

Eu cheguei carregando uma caixa pesada, cheia de livros que eu pretendia distribuir. Coloquei a caixa no chão, perto da janela e da porta para a varanda. Fiquei ali conversando com umas pessoas e quando deu a hora acertada convidei todo mundo para sentar no chão. Acho que isso ajudou bastante a manter a coisa bem simples e quebrar o gelo suavemente.

Eu pretendia fazer um pequeno histórico do projeto, talvez fosse interessante para as pessoas saberem todas as etapas que levam até uma exposição como aquela. Comecei do início, da simplicidade de como começaram as fotos, e fui falando sobre tudo que eu lembrava. Me emocionei algumas vezes, lembrando de quando parecia que ia dar tudo errado. Ainda lembro do aperto ao redor na boca para falar de certos momentos. E também falei de como a Ana Silvia Forgiarini da Frida Cultural me ajudou, desde de antes daquilo ser um projeto até a entrega dos últimos relatórios – é provável que tudo ter acontecido e ter dado certo seja mais responsabilidade dela, do que minha.

Foi um dos melhores momentos desde sempre, tinha motivos de sobra para estar orgulhoso , desde as imagens até os detalhes mais minuciosos do projeto. Estava tudo entregue como tinha sido proposto e ainda tinha o livro para todos os presentes.

O jeito como o edital do Marc Ferrez era pensado era muito interessante para poder gerar esses momentos dentro da programação. E acho que momentos desses junto a uma exposição faz a coisa se tornar muito mais interessante para expectadores que não conhecem tão bem o trabalho do artista. E para os artistas, que mergulham nesse modo de se apresentar para o mundo, uau, foi lindo!

Achei essas duas fotos num backup e elas fizeram brotar essas palavras.

Acho que olhar o arquivo tem esses dois disparadores de emoções em paralelo. Um dispara a ter idéias a partir das coisas boas que a gente vai achando no arquivo, das lembranças bacanas e etc – emoções pungentes, uma delícia. O outro fica ligado nas coisas que a gente perdeu, nas pessoas que se afastaram, alguns arrependimentos e coisas que podiam ter continuado ou sido mais bem aproveitadas, mas não foram ou não vingaram – esse é um disparador chato. Enfim, faz parte das crises de meia idade, desse momento da vida – vejo os posts dos últimos anos nesse blog e tem uma tendência óbvia de fazer um balanço do que rolou até aqui. É um momento para se aproveitar, para se viver, para pensar nos passos daqui para a frente.