Fiz um trilho esses dias ao redor de Gavieira e São Bento do Cando, por todo o percurso se podia olhar para o pico Penameda, com seus 1268 m. Metade do tempo ele estava meio coberto por nuvens, na outra metade estava na sombra delas, como na foto logo abaixo. Acabei dando um pouco mais de atenção às casinhas de pedra nas aldeias e aos campos de pastagem delimitados pelas paredes também em pedra que criam linhas interessantes na paisagem.
Sobre a aldeia, vale ler o artigo da Wikipedia, que apesar de curto tem várias datas e informações significativas.
Já falei aqui sobre outros lugares que fizeram me sentir da mesma maneira. El Chaltén e o Parque Nacional de Itatiaia. Curioso, fiquei pensando em ligações visuais entre esses lugares. Acho que aquela parede de pedra exposta no lado de lá do vale tinha o jeitão das pedras expostas em Itatiaia e guardava uma vaga lembrança de todas as pedras de El Chaltén (ou melhor, eu tenho uma vaga lembrança de El Chaltén…).
Enfim, São Bento do Cando me pareceu mais um lugar interessantemente congelante para se passar dias de frio e vento como esse dia em que fui lá. Um lugar para se estar por trás de paredes grossas, olhando a paisagem por uma janela pequena, ao lado de uma salamandra acesa e com um xícara de chocolate quente nas mãos, tomar coragem e sair para umas fotos, voltar correndo e repetir o chocolate quente. Deve ser um lugar inspirador para umas residência fotográfica de inverno.
Desejei esse pequeno grupo de tatuagens durante muito tempo. São três desenhos e cada um representa uma pessoa. Meus dois filhos e eu. Essas coisas vão ficando para depois e depois. Semana passada imprimi uma folha com a minha idéia e fui a uma loja que tinham me indicado logo depois da pandemia.
A loja estava fechada, foi decepcionante. “Que vacilo, Guilherme!”
Uns dias depois estava reunido com um grupo de artistas aqui da cidade, no jardim de esculturas de um museu. No meio da conversa, uma artista menciona que estava aprendendo a tatuar e que buscava pessoas interessadas em serem seus primeiros objetos, vítimas, cobaias, telas.
Saquei o papel impresso da mochila e o resto é história.
A Juliana Boo aceitou que eu fosse a sua primeira tatuagem e eu dei a sorte que ela fosse a minha primeira tatuadora.
Quando escrevo que essas coisas vão ficando para depois e depois, era sobre isso que queria falar.
Há um tanto de tarefas que aparecem e vão passando à frente, seja porque o mundo demanda, ou porque elas têm seus prazos. Acho que a crise da meia-idade para mim tem sido o momento de rever tudo que foi ficando para trás, as coisas que eu não tive tempo de estudar antes (como a programação, a eletrônica, enfim, o digital mesmo), as coisas que eu não tive organização para fazer (como essas tatuagens, um mestrado).
Tem um artigo interessante no DailyOm sobre isso, lá eles listam 4 maneiras de usar a meia-idade de maneira mais afirmativa e estratégica. Destaco duas que eu considero as mais importantes: repensar como se usa o tempo (coisa que eu já tenho feito bastante desde a construção da ULF, escrevi bastante sobre isso, talvez até demais) e usar sua própria sabedoria já construída ao longo dos anos (perceber seu próprio fluxo de trabalho, repensar suas próprias reações em situações já vividas). Esse tipo de reforço ajuda a mudar o mindset daqui para frente.
Essa semana eu achei um monitor no lixo, um HP de 19 polegadas, nada muito maravilhoso, mas um monitor pequeno e leve. Ao ligar, ele dava apenas uma tela branca, sem nenhuma imagem. Ao longo desses aprendizados eu já sabia que os monitores tem 3 placas: fonte de energia, placa de vídeo e a placa t-con que fica presa ao painel. E já sabia que tela branca em geral é um problema na t-con. Fui lá com meu multímetro e achei um fusível queimado. Um fusível, que simples! Fiz uma ponte ao redor do fúsivel (não é o reparo ideal nem o mais seguro, mas…) e pronto!
Assim já tinha um novo monitor para um dos meus laptops nus. Acho que ainda não falei deles aqui. São vários e fazem parte das coisas que tenho feito no TiroLiroLab. Hummm, essa história vai longe, depois eu conto mais. Por enquanto vou só deixar uma foto aqui:
Quando escrevo “que simples!”, esse é meu novo eu, todo envolto em novos aprendizados e tatuado. E aos 49 anos fui aceito no Mestrado em Media Arts. Mais e mais tenho lido e me interessado pelas artes digitais. Bom, esse assunto ainda é mais longo que o TiroLiroLab, e vou deixar ambos para mais adiante.
Tenho sempre um caderno que vou usando para tomar notas. Esses dias estava foleando o que estou usando agora e umas das primeiras notas que escrevi nele foi durante uma reunião dos artistas para a organização da Lesma, o Festival de Fotografia Lenta. As libelinhas-chefes da Lesma Paula e Sofia deixaram claro naquele dia que estavam interessadas que o festival promovesse a “natureza subversiva do efêmero”. Anotei isso.
Como o efêmero poderia se manifestar no contexto da Lesma? Estar presente – corpo, mente e alma. Viver o festival, os encontros, os eventos, sujar as mãos um pouquinho, conversar com os colegas, passar o tempo lá, presencialmente, afinal tínhamos sobrevivido ao pior da pandemia.
Então, com essa frase e com essas idéias na cabeça, vou fazer aqui um update sobre o post do início do ano (mais programação e menos redes sociais). Queria falar um pouco dos esforços para apontar a proa numa direção (mas nem sei se consigo). Para onde vamos? A direção da proa não é suficiente para determinar, pelo menos isso eu sei.
O post de uns dias atrás, com o vídeo Impermanência, me fez pensar nisso também. Nossos esforços para fazer as coisas durarem mais, mesmo que bem sucedidos e nem sempre o são, nunca fazem nada durar o suficiente. E quanto seria suficiente? Vale a pena gastar tempo a pensar nisso?
Melhor perceber quais são as coisas que me acompanham por onde quer que eu vá.
Um esforço tem sido esse: avaliar se vale a pena gastar tempo pensando nisso ou naquilo. Enquanto existem, as coisas sempre mudam. O tempo sempre passa. E as coisas podem mudar antes de se chegar a uma conclusão sobre elas.
Heráclito sabia muito disso: um homem nunca atravessa o mesmo rio duas vezes. O rio muda e o homem muda. E pronto fundou o conceito do devir. Eu suponho que o Christian Marclay quando fez The Clock deve ter tido muito tempo para pensar nisso (e o tempo passou bem ali).
Nós aqui frente ao efêmero. Nós aqui diante do tempo. As coisas seguem mudando ou vindo a ser. Nós seguimos mudando ou vindo a ser. Viver certos momentos pode ser mais importante do que tentar os registrar/guardar – talvez uma das edições mais complicadas que o fotógrafo precisa fazer cotidianamente. Outro esforço é esse: acertar nessa decisão de quando tentar registrar/guardar em imagens.
E o grande esforço é encontrar uma maneira de viver intensamente nosso envelhecimento, o envelhecimento dos nossos trabalhos, das nossas ferramentas, dos nossos aparelhos. E se deixar fluir com o rio. E não estou a falar do Rio de Janeiro, esse da foto, que fiz em 1999.
Achei um vídeo muito bem humorado que eu fiz com o Zé e resolvi compartilhar aqui para lembrar da voz dele e da sua maneira maravilhosa de estruturar o uso da técnica fotográfica.
Foi graças ao Bento Bueno que nos conhecemos. O Bento sempre dava uma canelada na caixa da Toyo GX ao levantar da cama, anos a fio. Ele acabou decidindo vender todo o equipamento de grande formato e me pediu ajuda. Anunciei um monte de coisas do Bento num fórum, era o Esquina da Foto talvez. O José Luis Silva entrou em contato para comprar uma objetiva, talvez.
Sei que foi em 2012 porque o meu filho Felipe era recém nascido. E eu estava passeando com ele, falei que podia parar pelo estúdio e pegar a objetiva, o Zé falou que passava lá rapidinho para vê-la.
O Felipe tinha dormido finalmente quando cheguei ao estúdio. Deixei ele no carrinho e organizei as coisas do Bento sobre a mesa. O Zé chegou e viu o Felipe dormindo. Foi falando bem baixinho para me ajudar a mantê-lo assim.
Ele olhou as coisas que estavam a venda, nós começamos a conversar. O Felipe continou dormindo por mais de uma hora e nós ficamos amigos, ali, durante aquela soneca dele.
Penna Prearo, José Luís Silva, Elisa Bueno e eu. Fotografando em um ferro velho no interior do estado de São Paulo.
Tínhamos muitas das mesmas preocupações: como garantir a qualidade dos nossos trabalhos, como mostrar nossos trabalhos, como ganhar algum dinheiro com nossos trabalhos. Tínhamos visões diferentes na maioria desses assuntos, mas respeito mútuo pelos nossos esforços em seguir esse caminho.
E reconhecíamos o respeito de ambos pela fotografia em si. E nossas maiores dificuldades nesse campo também.
Obviamente o Zé levava as coisas muito mais a sério do que eu. O site e o Instagram deixam isso bem claro e vale uma visita agorinha, enquanto ainda estão lá. Tem um link quebrado no site, é uma pena, uma outra conta de Instagram que não existe mais, talvez.
Saudades das nossas perambulações pela Zona Leste de São Paulo e nossas caminhadas pelo Centro e por Higienópolis. Quando diminuiu meu tempo para sair e fotografar assim pela cidade, nossas ligações telefônicas continuaram. Ano passado, mesmo com a distância, pusemos em dia as fofocas fotográficas e as nossas conversas sempre francas… Porra, Zé, tão cedo!
Agora em Maio vai se fechar um ciclo de dois anos trabalhando com fotografia de e-commerce na Farfetch. O fim dessa história vem através de um despedimento colectivo, parte de uma história bizarra de como a empresa foi conduzida e vendida nos últimos 6 meses, mas isso você pode ler aqui ou aqui.
A minha história aqui começou em 2 de maio de 2022. Meu primeiro dia aqui também foi o dia em que os funcionários foram autorizados a começar a trabalhar sem máscaras, ou seja, após a parte grave da pandemia. O prédio ainda estava meio vazio, muita gente ainda trabalhava de casa, mas aos poucos foi voltando à vida. Pelo sistema de gerenciamento de assets digitais posso ver que estou prestes a completar 90.000 imagens salvas e ainda não completei os dois anos (se o Profoto D2 Industrial daqui tem um flash de 1ms, então ele ficou aceso por 1’30” graças a mim, brutal!). É um trabalho interessantíssimo, um contacto direto com milhares de artigos de vestuário e diversos tipos de acessórios e objetos. Fiz um pequeno portfólio desses tempos nesse link aqui. Aprendi muito sobre moda, tecidos, reflexos, etc.
Produzir uma quantidade tão grande de imagens gera uma série de aprendizados e uma percepção do processo muito afinada. O olho passa a estar alerta para variações de luz da ordem de 1/3 de ponto e estúdios que são calibrados para serem iguais começam a se revelar diferentes ao longo do tempo, tudo nos pequenos detalhes.
Para dezenas de fotógrafos produzirem essa quantidade de imagens diariamente, a empresa criou e atualizou ao longo do tempo uma série de procedimentos e tutoriais. Ou seja, é um trabalho a ser executado dentro de regras muito rígidas, num estúdio imutável, onde tudo tenta ser altamente reprodutível. É um desafio interessantíssimo tentar ser criativo nesse ambiente, achar pequenos elementos que podem ser flexibilizados. E ainda ao mesmo tempo, repensar a lógica da coisa e propor soluções diferentes para simplificar a estrutura.
E em vários momentos, a quantidade de trabalho é tão grande que mais vale colocar os fones, deixar a mente se inundar de música e pensamentos aleatórios e seguir mecanicamente e meticulosamente as regras. O que ajuda? Os sets do Cercle em alto volume, Radiohead, Jan Blomquvst, essas coisas que movem o corpo. E depois HVOB, Still Corners e London Grammar para acalmar.
Mas às vezes o que sobrava era o tempo, principalmente na baixa temporada.
Educar o corpo ao ritmo de fotografar 115 artigos diferentes por cada turno é também um desafio. Cheguei aqui logo depois de 2 anos e meio trabalhando como suporte técnico. Passava o dia inteiro sentado à frente de um computador. Passar 8 horas de pé por dia foi doloroso nos primeiros meses. Ainda hoje os dedos sofrem se os botôes das camisas ainda estão muito justos e/ou se são muitas camisas num dia só. E não vamos falar nem de idade, nem que quilometragem…
Foto: Inês Ferreira
Quando tudo que eu podia fazer era me esticar no chão do estúdio, tentar relaxar as costas, podia sempre contar com o olhar atento do departamento de QC.
Foi graças ao acesso ilimitado ao Udemy (que a Farfetch dá a seus empregados) que foi possível finalmente mergulhar no mundo do software e descobrir tanta coisa interessante e rever coisas do passado (HTML e CSS). Chega a sair fumaça da cabeça em alguns momentos, aprendendo Python, Flutter, Ethical Hacking e SQL em cursos simultâneos, loucuras que a gente escolhe para si mesmo. Acabei deixando de lado as coisas do meu passado (Processing, etc), mas ainda pretendo retomar o Matlab.
Dai os momentos de baixa temporada acabaram ganhando outro propósito. Cursos atrás de cursos. Há quem diga que achei mais um pedaço do meu ikigai.
Quando veio a notícia do despedimento colectivo, uma colega muito experiente se prontificou a ajudar outros colegas a reescrever seus currículos. A Isabel me ajudou com o meu e ficou assim:
É isso que tenho para mostrar hoje, se você não sabia o que o cara por trás desse blog fazia para ganhar o pão, agora sabe das partes mais glamourosas, né? ;-)
E vamos em busca de novos desafios (é assim que fala?).