Livrinhos, anos depois…

Em 2021, durante o período de isolamento, comecei a experimentar suportes alternativos para impressão. Na falta de um papel que me interessasse, voltei a atenção para materiais que já tinha à mão: o cartão de uma caixa de cereais e o de uma pasta de documentos. O que me chamou a atenção foi sobretudo a textura e a resistência desses materiais, mas também a possibilidade de que suas características superficiais passassem a fazer parte da própria imagem.

As primeiras impressões revelaram imediatamente tanto as possibilidades quanto as limitações desses suportes. A tinta demorava a ser absorvida, acumulava-se na superfície e produzia uma imagem de resolução irregular, mas, ao mesmo tempo, os pretos eram profundos e a textura do cartão passava a fazer parte da imagem. O resultado estava longe de ser uma impressão convencional, mas justamente por isso pareceu-me interessante continuar experimentando.

Algumas dessas primeiras impressões ficaram guardadas desde então. Agora, alguns anos depois, voltei a elas para transformá-las em um pequeno livro.

Comecei por colar algumas dessas imagens em folhas de um bloco de aquarela. Deixei a folha um pouco mais longa para o lado esquerdo e fiz uma dobra. Assim a folha ocupa a espessura total (folha mais foto) na lombada também.

Furei as folhas com uma furadeira e uma broca para madeira e costurei com linha de costura para pesponto.

Seguindo a ideia original das impressões, encontrei uma caixa de sabão para lavar roupas que tinha a espessura perfeita para essa capa. Aproveitei um pedaço de pano marrom e fiz a lombada a olho. Podia ter ficado um bocadinho mais larga.

Com um pouco de cuidado e carinho, colei o miolo que estava pronto e seco dentro da capa. Usei mais uma folha grande do papel de aquarela para fazer uma grande luva para o miolo.

O tecido da capa não ficou super bem colado, ainda preciso aprender como fazer isso melhor. Infelizmente a cola branca se espalhou um pouquinho demais e colou um pouco mais do que a área da lombada. Ao abrir o livro pela primeira vez, aconteceram uns pequenos descolamentos que ficaram bem visíveis. Acho que vou cobrir essa área com um pedaço de papel branco (que ainda vai ajudar a deixar o livro mais durável).

Apesar desses pequenos problemas, o livrinho está pronto. E acho que isso me deixou com vontade de fazer outros, aproveitando as cópias que tenho guardadas de trabalhos diversos desses anos todos de fotografia. Tem de tudo: cópias analógicas, cópias digitais como essas, diferentes tipos de papel e processos que atravessam quase três décadas, desde os anos 1990.

Já tenho um segundo miolo pronto, com fotos dos carrinhos dos vendedores de doces que circulam pelas ruas de Paraty. Talvez esse seja o começo de uma pequena coleção de livros feitos a partir dessas cópias que foram ficando por aqui ao longo dos anos.

Fotolivros

Papamosca

Passei um reveillon (2005) muito louco com a Raquel Moliterno e fui testemunha de uma luta complexa entre uma mosca e uma papamosca. Quando chegou a hora de ampliar essas imagens eu acabei pensando em um livro com o PhotoTypeSetting paper. O lance era não cortar o papel, ampliar tudo na sequência para depois só dobrar o papel em sanfona e o livreto assim estaria pronto.

Improper Shipment Procedure Record

Quando eu era jovem (1999) e a fotografia digital começava a aparecer nesse mundão sem porteiras, eu me meti a fotografar processos de embalagem numa fábrica e criar procedimentos para que tais processos respeitassem a ISO da vez lá.

Bom, eu era o figura com uma Mavica pendurada no pescoço, uma pilha de disquetes no bolso vagando por um galpão de logística de auto-peças. (Sobrevivi.) Volta e meia chegava algo muito zoado, peças espalhadas, chapas enferrujadas e eu fotografava pros relatórios dos figuras de lá.

Eu habitava uma casinha dentro do galpão, um pequeno isolamento que me dava um mínimo de sossego. Lá me deixaram uma impressora laser e uma máquina xerox que ampliava e reduzia. Eu logo saquei como imprimir as fotos digitais coloridas em um pb reticulado maneiro. Tá bom, eu não pagava nem o toner, nem o papel, isso foi um super apoio que a TDS deu pro meu trabalho! uhu!

Os relatórios para onde iam as fotos das peças danificadas chamavam Improper Shipment Procedure Records, o livro virou o ISPR.