De volta a Sampa, esbarrando em coisas cotidianas.

guilhermeMaranhão • refotografia
câmeras, scanners, filmes… quebrados, obsoletos, vencidos, mofados, estragados…
De volta a Sampa, esbarrando em coisas cotidianas.

O depoimento de Tonho Ceará foi maravilhoso. Com certeza havia quem esperasse dele um discurso de quem ganhou o Prêmio Porto Seguro Brasil 2008, mas o que saiu teve tom de desabafo.
Tonho passou a vida inteira fazendo fotografias do mesmo tipo com a mesma câmara. Isso por si só é algo que eu acho difícil de conceber. Retratos, todo dia, todo ano, no mesmo lugar, mas não foi isso que motivou o desabafo.
Veja bem, ninguém pode achar que a vida dele tenha sido monótona, longe disso, não acho que exista sequer um fotógrafo no Brasil que leve uma vida sem brilho ou sem contrastes. Os desafios da prática diária de Tonho parecem ter sido suficientes para manter a agitação constante.
O desabafo foi motivado por essa luta incessante que já dura uma vida. Tomara que o prêmio sirva de alívio, restauro e descanso, além de recompensa. Quem sabe suas histórias não viram um livro ou um vídeo.
Outro fato inconcebível para os que começam hoje é que a câmara de Tonho ainda o acompanha, a primeira, a única.
Na falta de inspiração, um copy-paste, ou dois.
A fotografia é uma linguagem que foi explorada desde a sua criação há mais de 160 anos e para a qual foi desenvolvido um extenso corpo de conhecimento técnico. A indústria participou dessa exploração criando tecnologia ligada à produção de ferramentas para a execução de fotografias. Não que estas inovadoras ferramentas fossem absolutamente necessárias para que as imagens continuassem sendo feitas, mas foram muito úteis, de fato.
Ao longo dos anos essa pesquisa foi sendo direcionada à solução dos problemas mais comuns na realização de fotografias visando a valorização comercial da ferramenta e a padronização da qualidade técnica das imagens.
Na verdade, quando o próprio Niepce decidiu buscar uma maneira de gerar uma nova matriz a partir de uma gravura impressa e orfã, ele também queria valorizar a sua ferramenta comercialmente.
Na época da invenção do daguerreótipo a exposição à luz era exageradamente longa e a cada mês ou mesmo semana avanços nas pesquisas tornavam possíveis exposições cada vez mais curtas. Nos anúncios dos comerciantes da fotografia esse tempo de exposição (cada vez mais curto) figurava sempre em destaque. Assim se media o avanço da técnica, assim se dava sua valorização comercial. Hoje é o megapixel que mede o avanço tecnológico da fotografia e que faz os preços subirem.
Qual a real importância do equipamento fotográfico? Tem sempre um aluno que vem perguntar que câmara ele compra, a resposta sai sempre difícil, tento explicar que o lance é testar a máquina antes, experimentá-la, saber se resolve seus problemas, esse tipo de coisa. Não é uma compra tranquila, a gente abre mão de alguma coisa para não abrir de outra. Tem o fator dinheiro, que nem sempre é fácil de contornar. Vale a pena investir tanto dinheiro em equipamento assim?
Por conta de um post no Gizmodo fui ver uma área do site do Vicent Laforet, onde ele explica como foi fazer as malas para a Olimpíada de Beijing. Lá pela foto número 15 ele fala dessa mala que só leva as lentes que ele menos usa, mas que segundo ele podem fazer a diferença. Primeira coisa que me veio a mente foi: o que ele vai fazer com uma lente TS nos jogos olímpicos??? A resposta não tardou. É uma foto sensacional do mergulho de um chinês. As lentes TS são equivalentes às lensbabies, mas muito mais caras e feitas com controles que permitem mais precisão. Na legenda dessa foto 15, Vicent fala de lentes que podem fazer a diferença, fazer fotos que serão diferentes das demais, das dos outros fotógrafos. Numa conta rápida imagino que Vicent levou para a China cerca de 100 mil dólares em equipamento fotográfico.
Mais tarde nos meus passeios cheguei ao Photo.net. Tava rolando um post no forum muito interessante, onde um dos membros perguntou aos demais o que de mais importante eles haviam aprendido ali. As respostas eram sensacionais, uma comunidade muito unida, bem bacana. Tinha sempre um bem humorado que falava que o mais importante que ele aprendeu era que Nikon era melhor que Canon, tipo de coisa que rola bastante no Photo.net também. Até porque todo mundo sabe que o contrário é que é verdadeiro. O que metade dos que responderam lembrou é que equipamento fotográfico é o que menos importa para fazer boas fotografias, será? Teve um que disse inclusive que só depois de gastar milhares e milhares de dinheiros em câmaras foi que descobriu que isso não impedia ele de continuar fazendo fotos medíocres (que auto-crítica!). De todos as respostas a esse post, a do Matt Laur foi a melhor de todas, no quesito equipamento, nos itens 4 e 5 ele matou a questão: 4) Equipment doesn’t matter… 5) …except when it sure as hell does.

Às vezes não preciso de lixo lixo mesmo para fazer uma fotografia, pode ser só lixo reciclável.
Juntei uma série de imagens que me fizeram pensar em readymades ou em objet trouvê. Não pensei na indústria com a qual Duchamp se relacionava, mas sim com instalações que podem ser vistas na rua e que foram feitas por um desconhecido.


