Tudo começou com um suporte para o BlueSCSI que instalei no Performa 450 (já falei desse Mac aqui, quando estava tentando recuperar o conteúdo do disco rígido usando o Linux). Eu tinha encontrado o modelo pronto na internet, um arquivo 3MF disponibilizado através do site do BlueSCSI, e precisava de uma impressora para transformá-lo em objeto.
Acabei conseguindo uma Creality Ender 3 Max usada, por um preço bom, e com ela veio a primeira lição: impressora muito barata raramente chega pronta para imprimir. No transporte, a estrutura da impressora saiu toda do lugar, foi preciso afrouxar os parafusos e com um esquadro colocar tudo no lugar. Depois os fios de um dos motores foram esmigalhados também, tive que encurtar e fazer um remendo com solda.

O anúncio falava que era uma Ender 3 Neo, a etiqueta na máquina confirmava, testei todos os firmwares que a Creality oferece para a Neo, mas nada fazia ela inicializar corretamente. Toca a desmontar a impressora toda de novo para olhar a placa-mão. Versão 2.4.7, as Neo não usam essa versão. Cruzando informações de firmwares possíveis, descobri que o sensor que mede a altura da mesa não poderia ser um CR Touch, teria que ser um BL Touch – o único que se junta a esse tipo de placa-mãe. Bom, são as Max que têm essa combinação, sabe-se lá como a etiqueta e a placa-mãe se uniram. Vinte e sete firmwares depois, ela ligava e completava um ciclo de Auto Home.
Ainda assim, a extrusão não se comportava. O tubo Bowden não assentava direito, o bico estava suspeito, e por um momento a pergunta foi se valia a pena consertar. A conclusão foi que sim. Peças novas custam pouco, e em troca eu ganhava uma máquina com uma área de impressão razoável e, de quebra, um projeto para aprender junto com meu filho como aquela coisa funciona por dentro.

No AliExpress encontramos um kit para trocar tudo de uma vez só num preço que não nos assustou. Assunto resolvido.
Há algo de apropriado nisso. A primeira experiência com impressão 3D não foi apertar um botão e ver a peça sair, e sim encontrar uma máquina que não funcionava direito e descobrir por quê. É meio o equivalente, no mundo da impressão 3D, a garimpar coisas na caçamba.
O caminho até a primeira peça ficou claro depois de algumas tentativas: abrir o modelo no Cura, escolher o perfil da Ender 3 Max, fatiar, salvar o G-code no cartão SD, nivelar a mesa, acertar a altura do bico e assistir à primeira camada. Foi aí que descobrimos que o Z Offset é muito mais importante do que parece. Fizemos umas tantas tentativas até que a primeira camada ficou perfeita e já tinha a forma da peça que queríamos.
E aí veio a primeira peça pronta, colada no vidro. A dúvida seguinte foi como tirá-la de lá sem quebrar nada. A resposta foi paciência: esperar a mesa esfriar completamente e deixar o próprio vidro soltar a peça.

A impressora continua funcionando, e desde então ela não parou. Vieram alguns ganchos para organizar os cabos de áudio, que viviam embolados, e uma moldura para um interruptor num amplificador improvisado, que deixou o projeto com cara de coisa acabada em vez de gambiarra (ou, pelo menos, de gambiarra bem-vestida). Também imprimi uma manivela de rebobinar (rewind crank) para uma câmera compacta Olympus, daquelas peças pequenas que ninguém vende avulsas e que fazem toda a diferença, e algumas placas de engate rápido no padrão Arca-Swiss para o tripé. Essas foram uma surpresa: peça funcional, que aguenta peso, com encaixe preciso, saída de uma impressora que semanas antes nem extrudava direito.
Tudo isso foi impresso com o mesmo carretel de PLA azul. Não foi uma decisão estética, foi simplesmente o filamento que eu tinha ganhado meses atrás, antes de ter impressora. Que até serviu de empurrãozinho para esse projeto andar.

E o título se escreveu sozinho. Para nós, brasileiros, ‘tudo azul’ quer dizer que está tudo bem. Uma impressora que chegou meio quebrada, foi consertada aos poucos e agora produz peças úteis para a casa merece a expressão. Por enquanto está tudo azul. Literalmente.