As Câmeras Renzo

Qual não foi o meu espanto ao ver dois trambolhos muito interessantes na vitrine da loja Angel no centro de São Paulo esses dias. Me aproximei cautelosamente e li os dois cartões, um sobre cada câmera:

“Câmera Renzo – Artesanal
•Formato Panorâmico 24×70
•Filme 35mm
•Lente 35mm f/3.5”

E na outra câmera:

“Câmera Renzo – Artesanal
•Formato Panorâmico 55×184
•Filme 120
•Lente 75mm f/3.5”

Fui até o balcão e pedi informações sobre as câmeras e seu construtor, dono, etc.

O Claudio me contou do Sr. Renzo e se ofereceu para nos colocar em contato. Retornou pelo telefone alguns dias depois e marquei um encontro com ele lá na Angel mesmo onde estavam as câmeras.

O início de nossa conversa foi um pouco tensa, acho que o Sr. Renzo estava muito curioso para saber porque tanto interesse pelas suas câmeras. Comecei então a mostrar algumas imagens no meu celular, fotos de projetos, de coisas construídas e de idéias ainda sendo matutadas.

renzo guerin

Um pouco mais tranquilo, o Sr. Renzo me contou um pouco de sua história. Engenheiro aposentado, filho de uma italiana e um decendente de franceses, Sr. Renzo lembra da sua participação no XI Salão Internacional de Arte Fotográfica na Galeria Prestes Maia em 1952 ao lado de Geraldo de Barros, German Lorca, Eduardo Salvatore, Francisco Azsmann entre outros.

O Sr. Renzo começou cedo a construir coisas, incentivado pelo pai que também foi engenheiro, construiu seu primeiro ampliador aos 15 anos usando uma câmera 6x9cm francesa. Me contou que a grande inspiração sempre foi a falta de dinheiro, diz ele sorrindo. “Não pode comprar, tenta fazer”. Nessa anos todos fez diversas coisas, desde mais ampliadores, uma câmera pinhole em madeira e uma câmera tipo field de formato 6x9cm também.

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Note bem o marginador feito de chapa de metal e imãs. Dá um ótimo aproveitamento do papel para imagens sem margem.

Já as câmeras panorâmicas são projetos bem mais complexos. Instruções de uso de ambas estão em adesivos espalhados pelas superfícies das câmeras, faça ajudar a memória.

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Essa é a vista traseira da câmera 35mm com o takeup spool prateado do lado esquerdo, as guias do filme douradas no centro.

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Esse disco do topo serve para armar o obturador periférico e o botão no centro dele controla o diafragma.

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Pela frente se vê uma fenda e a objetiva escondida ali atrás. A tampa (visível na parte inferior) precisa ser fechada para armar a câmera.

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Esse é o obturador em ação:

A câmera 120 é um pouco maior, tem a frente em couro para a objetiva se movimentar.

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O visor de arame ajuda na composição e também serve como alça.

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As etiquetas continuam lá!

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A traseira.

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Um detalhe da madeira no fundo da câmera que foi usinada para formar o trilho por onde se movimenta a objetiva quando esta gira.

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Com a câmera 120 o Sr. Renzo conseguiu fazer uma ampliação com 2 metros de comprimento. Ele considera o resultado muito bom, a boa nitidez da câmera se deve ao fato da fenda só usar o centro da imagem projetada pela objetiva e das velocidades serem muito altas evitando borrões.

As câmera ficarão por tempo indeterminado na vitrine da Angel na galeria da Rua 7 de abril, 125, a visita vale a pena!

Laborátorio de Bricolagem Fotográfica

Foram 8 encontros e muitas coisas foram construídas. Desde a câmera scanner do Ítalo que começou com uma Nikon 4004s que foi desmontada.

Depois ele desmontou um scanner e juntou tudo!

O André fez uma pinhole com uma caixa de apagador.

A Celina fez o Festa Light Pro, como no PDF que está disponível aqui em cima na página Guloseimas.

A Lorena fez uma câmera com 11 lentes e para isso ela fez um obturador de fenda na frente das objetivas.

A Fernanda fez uma câmera obscura para usar com o celular e esa curtindo as cores e as texturas das coisas desfocadas no papel vegetal.

Traquitana do Claudio • Modificações I

A grande descoberta fuçando na Nikon FE é que quando o obturador abre em Bulb (B) o circuito de sincronismo do flash se fecha por toda a exposição. Acho que isso pode ser aproveitado como circuito de controle do motor ao invés dos cabos disparadores duplos, vou testar um cabo PC deve servir. Para quem não sabe o que significa esse PC, segue o link da wikipedia.

Adicionei um perfil L à base para servir de suporte quando no tripé e para acomodar as baterias. Usei parafusos 4mm cabeça hex reaproveitados do scanner 1045. Agora a câmera para de pé sobre a mesa e ainda tem um quickrelease plate padrão preso na base que permite que ela fique presa a uma cabeça fluída.

O visor da Yashica Electro poderá ajudar em fotografias com mais movimento, já que o visor da câmera fica escuro durante a exposição.

Para manter pressionado o botão que destrava os sprockets e permite rebobinar o filme fiz um clip de alumínio que fica preso por um parafuso com manopla resgatado de uma cabeça de ampliador Durst.

Fazia um tempo que eu queria comprar uma furadeira/parafusadeira, acho que agora é o momento, penso em escolher um modelo 9.6V e assim poderei aproveitar a bateria dela na câmera de vez em quando. Será que é fácil fazer a adaptação?

Traquitana do Claudio Machado

Foi nos idos de 1993 que o Claudio Machado construiu esse negócio que transforma uma Nikon em uma câmera de fenda. A idéia é fotografar com a câmera em B, uma fenda sobre o buraco do obturador e um motor rebobinando o filme. Essa foto é do Adi Leite, no Sambódromo em 93. Aqui tem algumas imagens que ele fez nesse dia.

claudio machado strip slit camera
A sequência do funcionamento é mais ou menos assim: com a lente tampada, todo o filme é avançado disparando as 36 fotos (1). Um cabo disparador (2) é usando então para manter pressionado o botão que permite o rebobinamento do filme. A câmera é colocada em velocidade B. A lente é destampada. Um cabo disparador duplo (3) aciona o disparador da câmera abrindo o obturador em B, ou outro cabo aciona um microswitch (4) que liga o motor à corrente da bateria presa no cinto do fotógrafo. O motor com o auxílio de uma caixa redutora, uma correia e uma engrenagem, começa a rebobinar o filme, fazendo-o passar pela fenda no interior da câmera.

strip slit camera

Em 2000 eu provavelmente li um artigo do prof. Andrew Davidhazy e comecei a pensar no assunto. Um segundo artigo dele até sugere um sistema, mas nada tão portátil com o do Claudio que recentemente eu herdei. Então agora eu finalmente poderei explorar a fotografia de fenda com filme além das fotos digitais que eu já vinha fazendo.

Conversei com ele sobre algumas mudanças que quero fazer, elas foram aprovadas, então aos poucos eu vou contando por aqui. O vídeo acima é um breve teste, com apenas 5V para fazer o motor andar bem devagar. Imagino que ele vai andar um pouco mais rápido quando for para valer, mas quero ver o que é possível usando apenas pilhas para operar a traquitana.

Estou usando uma Nikon FE, que cabe no mesmo espaço da Nikon FA do Claudio. Instalei a engrenagem sem problemas. Quero trocar o cabo (2) por um clipe e trocar o cabo (3) por um microswitch sobre o disparador da câmera, adicionar um grip e espaço na parte de baixo para 8 pilhas, divididas em dois grupos de 4 pilhas que podem ser acionadas em série ou paralelo dependendo da necessidade.

Oficina • Câmera Oca, segunda turma

Ano passado o Roger Sassaki e eu oferecemos a oficina da Câmera Oca, a idéia é que o participante pudesse construir sua própria câmera de grande formato (13x18cm) para processos químicos (a câmera foi projetada por nós para expor tanto filme quanto vidro emulsionado). A oficina foi um sucesso e terminou com cinco Ocas construídas, testadas e aprovadas. Olha essa foto do Roger!

câmera oca roger sassaki guilherme maranhão

Então para 2016 resolvemos oferecer uma segunda turma da Câmera Oca começando do dia 28/03 (segunda-feira) ao dia 02/04 (sábado), das 8h30 às 12h30.

Mais detalhes e informações no —>>> site do Imagineiro.

Processos Fotográficos • percurso

Hoje é domingo e o programa foi fazer junto com o Roger Sassaki e o Lucio Libanori a minha primeira emulsão de gelatina seca para cobrir chapas de vidro. A receita seguida foi a do Mark Osterman carinhosamente batizada por ele de MO-1880, um apanhado das receitas dessa década que ele destilou num processo simples e controlado, fácil de ser seguido passo-a-passo.


Comecei na fotografia antes do Natal de 1991, ou seja, já são 24 anos de laboratório P&B, mas ainda assim hoje foi um dia emocionante. Deixa eu explicar: a emulsão em gelatina, como a maioria das emulsões combina ingredientes que não são sensíveis a luz, mas que quando reagem entre si produzem outros compostos que são. Logo se deduz a primeira coisa, fazer emulsões é algo que acontece no escuro ou com luz de segurança. A emulsão que fizemos hoje aceita ser manipulada sob a luz vermelha e graças a isso pude ver o momento em que dois líquidos cristalinos se encontram e formam uma nuvem branca no béquer. Parece besteira, mas é algo tão fundamental e que eu nunca tinha compreendido completamente, até ver acontecer. Mesmo no colódio, o mesmo processo ocorre na chapa imersa no tanque de prata, mas não é visível assim. O nascimento da fotossensibilidade.

Isso me pôs a pensar nessa idéia de percurso, da pesquisa ao longo do tempo. Logo lembrei do primeiro semestre de 2011, a Simone Wicca e eu fizemos alguns testes nessa direção, mas num plano muito mais simples, aproveitando produtos prontos que estavam disponíveis, como o Liquid Light, garrafas velhas, vidros de scanners quebrados. Na época nós líamos muitos as experiências da Denise Ross no site The Light Farm, cujo link está aqui ao lado. O approach dela é diferente do Mark Osterman, ela é menos meticulosa, mais interessada em obter uma imagem; o Mark tem uma preocupação maior com a qualidade da imagem e com a obtenção de ISO mais alto, nada insano, mas há uma diferença.

Em 2011, conseguimos imagens interessantes e demos com a cara na parede algumas vezes, perfeito. Nosso projeto não foi muito para frente, uma pena. Às vezes falta tempo, às vezes outros projetos ganham prioridade, foram alguns anos para poder chegar nessa nova etapa de pensar em emulsões fotográficas. Aonde vai dar é incerto e não é importante. Importante é continuar fuçando aqui e ali, desvendar coisas e construir um percurso de pesquisas e experimentações, retomar pesquisas antigas quando aparece uma nova chance e mais que tudo, continuar a produzir imagens.