Agfa Ansco 8×10″

Foi na época quando eu morava no Canadá que a Alt Camera Exchange fechou as portas quando foi comprada pelo Henry’s. Os caras organizaram um bota fora que era para acontecer num sábado às 9h00. Eu vinha de outra cidade e com medo de atrasar acabei chegando umas 8h15 na porta da loja e assim sendo virei o terceiro da fila que já se formava.

Às 9h00 a porta se abriu e os primeiros 5 puderam entrar. Eu fui direto ao segundo andar onde tinham as coisas de laboratório e lá eles tinham posto outras coisas pelo chão, entre elas essa 8×10″ da Agfa Ansco em pedaço dentro de uma caixa. Ainda cacei outras coisas, mas não podia carregar muito mais.

Na verdade a câmera estava coberta de fórmica preta e tinha cantoneiras de alumínio, queriam esconder a idade dela, mas estava mal feito e comprometia o funcionamento das coisas. Tinha um back deslizante para fazer retratos e um obturador Packard entuchado dentro do fole que não estava legal. Passei o resto do fim-de-semana tirando esses excesso e tentando entender quais eram os problemas.

Fiz um artigo na época contando a primeira reforma:

“Pesquisei e descobri que a câmera era uma Agfa-Ansco Commercial, mas para ser capaz de identificá-la foi preciso muita paciência para descolar os inúmeros pedaços de fórmica preta que recobriam a corpo de madeira. Os cantos haviam sido arrematados com perfil de alumínio, muitos parafusos tinham sido usados para manter tudo isso no lugar, deixando vários furos na madeira do corpo. A câmera havia sido preparada para trabalho em um estúdio de retrato, imagino, ao invés de usar chapas de 8×10”, tinha uma traseira redutora para 4×5” que era capaz de girar oferecendo possibilidade de composição vertical e horizontal rapidamente. Sóo vidro despolido que estava montado nessa traseira da câmera superava o valor pago em todo a compra daquela manhã, era um despolido da Sinar. Dentro do fole, escondido atrás do lensboard havia um obturador Packard dos grandes (operado a ar) cuja mangueira passava pelo fole e saia pela lateral da traseira. O fole, por sinal, estava novo.

Percebi que o mecanismo do shift frontal estava rachado, toda a frente estava abalada. Percebi também que uma peça importante estava faltando, parte do mecanismo que mantia a câmera aberta, em posição de uso. Usei um pouco de cera para devolver vida àmadeira e comecei a pensar como solucionar os dois problemas principais. Com dois blocos de madeira – que infelizmente não eram de uma cor apropriada mas eram os que estavam disponíveis – reforcei a frente da câmera e isso bastou para que pudesse extender todo o fole sem que a frente se torcesse para trás tirando a imagem de foco. Cortei os blocos em uma forma apropriada para encaixar no canto entre as peças soltas e colei o bloco no lugar. Em seguida coloquei uns parafusos para garantir a firmeza dessa montagem. Para o mecanismo de shift usei cola para juntar os pedaços da madeira que haviam se quebrado e com dois sargentos deixei secar sob pressão.

Para manter a câmera aberta pensei em várias saídas, mas quase todas dependiam de metais pré-moldados de formas que não seriam de fácil obtenção. Resolvi que a cabeça do tripé faria essa função, já que teria que providenciar uma cabeça para essa câmera de qualquer forma. Consegui numa sucata um suporte para computador touchscreen que nada mais era que uma enorme dobradiça. Prendi uma barra de polietileno nesse suporte e fiz dois furos possibilitando que dois parafusos se prendessem às duas pontas da câmera. Com a câmera presa assim ela ficaria aberta e firme para a usar.

A câmera funcionava na teoria. Não havia lente, não havia traseira para filme de 8×10 polegadas. É verdade que a era digital facilitou a busca pelas lentes e logo eu havia conseguido algumas que serviam para cobrir esse formato de filme. Cortei compensado para os lensboards (dessa vez sem massa plástica) e comecei a montar as lentes. Descartei o lensboard que veio com a câmera porque este tinha muitos furos.

Para traseira cheguei a fazer algumas buscas por sites de leilões, mas acessórios para esse tipo de câmera são muito raros e nada achei. Juntei alguns pedaços de madeira e comecei a cortar. Achei alguns retalhos de acrílico fosco em uma caçamba nos fundos de uma loja de plásticos, o tamanho dos retalhos não era suficiente, um amigo me emprestou uma cola e juntei dois retalhos para conseguir fazer o despolido da traseira. Achei molas em uma loja de sucata. Consegui construir uma traseira que aceitasse o porta-filmes padrão para o formato 8×10”. A câmera funcionou.”

Nos anos seguintes troquei as molas do back 8×10″, consegui um back 5×7″ num fórum norte-americano de fotografia em grande formato e pensei muito numa solução para não usar mais os lensboard de madeira que eram muito grandes.

Em 2005 minha mãe me ajudou a fazer um case em lona crua e EVA para levar a câmera para lá e para cá. Com esse case e um carrinho de bagagem eu fiz retratos em Paranapiacaba, fotografei em Ubatuba, ainda tem areia dentro dele.

Dai um dia lendo o mesmo fórum, vi um post sobre uma Korona 8×20″ que tinha ganho uma frente de uma outra câmera e vislumbrei a reforma com a frente da Toyo que eu mostro aqui: https://refotografia.wordpress.com/2013/03/16/agfa-ansco-8×10-%E2%80%A2-reforma/ Essa reforma resolveu o grande problema da câmera que era a frente, que veio quebrada e que mesmo consertada nunca tinha funcionado muito bem, às vezes o painel frontal escorregava e a imagem saia de enquadramento.

guilherme maranhão fotografando em 8x10"

Câmera Hagersville • continuação

Bom, ainda faltava falar da oficina que oferecemos no Itaú Cultural no dia 2 de outubro de 2005. O mote da oficina era construir a câmera e usá-la com papel fotográfico como material fotossensível.

oficinaItauCultural_00

oficinaItauCultural_01

A gente optou por manter a câmera ainda bem simples, usar fita isolante para garantir a vedação, ao contrário de deixar o projeto mais complexo e incorporar a vedação no corte da madeira, por exemplo. Usamos um carimbo para identificar as câmeras.

Numa das fotos acima eu estou segurando um exemplar desse lote, muito provavelmente o que eu guardei depois da oficina e que mais tarde viraria a câmera viajante da Simone Wicca.

viajante_back

Nessa câmera a grande diferença está atrás, uma traseira de uma Speed Graphic possibilita usar chassis de filme 4×5″ e assim fazer mais fotos podendo trocar o filme à luz do dia. Usamos massa plástica Iberê para juntar as duas peças, depois pintamos de preto por cima na parte interna e deixamos a massa plástica aparente na parte externa.

instalando_lente

A gente fez também um orifício ainda menor para a câmera funcionar bem sob o Sol. E usamos um pote de filtros da Kodak, colado na caixa para funcionar como tampa rosqueável/ obturador.

viajante_socket

Uma porca-garra na parte inferior tornou a câmera capaz de ficar presa a um tripé.

viajante_kit

Depois um orifício ainda menor foi necessário.

usando_viajante

Está ai a câmera viajante em ação e um resultado dessa objetiva com personalidade.

cam_viaj_005

Ficou claro que a traseira com a possibilidade de trocar o filme é essencial para o uso mais distante do laboratório. A possibilidade de compor e focar também é bacana. O obturador poderia ser um pouco mais eficiente, principalmente para ajudar os tempos mais curtos. Bom pelos menos essas são as idéias que estou levando adiante enquanto penso numa nova encarnação dessa câmera.

Câmera Hagersville

Durante o tempo que passei no Canadá trabalhei numa empresa que fazia entre outras coisas muitas caixas de madeira para exportação de autopeças. Em uma das instalações dessa empresa, que habitava um antigo aeroporto militar abandonado em Hagersville, Ontario, havia uma fábrica de caixas que recebia de volta caixas retornáveis e reaproveitava ou reciclava esse material. Ao longo dos anos a pista de pouso de tornou uma enorme pilha de madeira sem fim e as pessoas da cidade podiam vir buscar madeira para as mais diversas finalidades.

hagersville tds plant wood pile

Em geral, depois de alguns dias sob neve e sol a madeira empenava e não servia para outra coisa que não a lareira, mas às vezes você dava sorte de pegar um carregamento de pontas recém colocado no páteo e que ainda estava fresquinho, madeira nova, nunca usada e em tamanhos pequenos e inúteis para a fábrica.

Num dia desses em 2001 eu acabei enchendo a mala do carro ainda sem saber o que seria daquilo. Em casa descarreguei tudo ao lado da serra de mesa e comecei a imaginar uma câmera caixa que pudesse ser feita com esses pedaços e com aquela serra, sem depender de outros cortes ou máquinas mais complexos. A pequena caixa foi batizada com o nome da cidade da fábrica. Fiz alguns desses exemplares e presenteei amigos. Cheguei a fazer uma folha de instruções bilíngue.

Ainda tenho essa última folha guardada num fichário antigo de idéias e projetos fotográficos.

A Fátima Roque foi uma das pessoas que ganhou uma Hagersville de presente e quando nos juntamos no projeto Mezanino do Itaú Cultural, com a Patricia Yamamoto também, a gente conseguiu que os moços de lá nos fizem outras tantas Hagersville adaptadas às madeiras compensado brasileiras. Isso virou a oficina que nós três oferecemos em Outubro de 2005. Essa é a foto que eu fiz da turma da tarde, a Hagersville abandonou o pinhole e passou a ter uma lente de lupa para gente fazer a oficina numa sala.

A história continua e eu conto mais em breve.

Oficina de Construção de Câmera Digital Artesanal • Sesc Campinas

Foi ontem e rolaram fotos interessantes. O espaço oferecido pelo Sesc foi perfeito, um quiosque no meio do jardim, muita luz e contraste para poder escanear tranquilamente.

grupo

Desmontamos um scanner antigo com portas paralelas só para entender as peças e seu funcionamente, depois tentamos fazer a câmera com um HP 2400, por incrível que pareça deu certo. Eu usei um laptop do Sesc dessa vez, era um PC Dell, então foi um pouco diferente e esse scanner que não funciona em Macs, não deu problema com o PC. Usamos o Vuescan em modo trial, por isso os escritinhos sobre a foto.

A Ligia Minami me fez uma visita e mandou umas fotos lindas! Olha só:




Foi uma prova de conceito interessante, afinal a proposta é que qualquer um possa fazer isso em qualquer computador (ainda não encontrei uma solucão para o Linux que evite usar o driver SANE que não permite essa nossa brincadeira até onde eu sei).

foto01