Câmera Hagersville • continuação

Bom, ainda faltava falar da oficina que oferecemos no Itaú Cultural no dia 2 de outubro de 2005. O mote da oficina era construir a câmera e usá-la com papel fotográfico como material fotossensível.

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A gente optou por manter a câmera ainda bem simples, usar fita isolante para garantir a vedação, ao contrário de deixar o projeto mais complexo e incorporar a vedação no corte da madeira, por exemplo. Usamos um carimbo para identificar as câmeras.

Numa das fotos acima eu estou segurando um exemplar desse lote, muito provavelmente o que eu guardei depois da oficina e que mais tarde viraria a câmera viajante da Simone Wicca.

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Nessa câmera a grande diferença está atrás, uma traseira de uma Speed Graphic possibilita usar chassis de filme 4×5″ e assim fazer mais fotos podendo trocar o filme à luz do dia. Usamos massa plástica Iberê para juntar as duas peças, depois pintamos de preto por cima na parte interna e deixamos a massa plástica aparente na parte externa.

instalando_lente

A gente fez também um orifício ainda menor para a câmera funcionar bem sob o Sol. E usamos um pote de filtros da Kodak, colado na caixa para funcionar como tampa rosqueável/ obturador.

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Uma porca-garra na parte inferior tornou a câmera capaz de ficar presa a um tripé.

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Depois um orifício ainda menor foi necessário.

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Está ai a câmera viajante em ação e um resultado dessa objetiva com personalidade.

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Ficou claro que a traseira com a possibilidade de trocar o filme é essencial para o uso mais distante do laboratório. A possibilidade de compor e focar também é bacana. O obturador poderia ser um pouco mais eficiente, principalmente para ajudar os tempos mais curtos. Bom pelos menos essas são as idéias que estou levando adiante enquanto penso numa nova encarnação dessa câmera.

Câmera Hagersville

Durante o tempo que passei no Canadá trabalhei numa empresa que fazia entre outras coisas muitas caixas de madeira para exportação de autopeças. Em uma das instalações dessa empresa, que habitava um antigo aeroporto militar abandonado em Hagersville, Ontario, havia uma fábrica de caixas que recebia de volta caixas retornáveis e reaproveitava ou reciclava esse material. Ao longo dos anos a pista de pouso de tornou uma enorme pilha de madeira sem fim e as pessoas da cidade podiam vir buscar madeira para as mais diversas finalidades.

hagersville tds plant wood pile

Em geral, depois de alguns dias sob neve e sol a madeira empenava e não servia para outra coisa que não a lareira, mas às vezes você dava sorte de pegar um carregamento de pontas recém colocado no páteo e que ainda estava fresquinho, madeira nova, nunca usada e em tamanhos pequenos e inúteis para a fábrica.

Num dia desses em 2001 eu acabei enchendo a mala do carro ainda sem saber o que seria daquilo. Em casa descarreguei tudo ao lado da serra de mesa e comecei a imaginar uma câmera caixa que pudesse ser feita com esses pedaços e com aquela serra, sem depender de outros cortes ou máquinas mais complexos. A pequena caixa foi batizada com o nome da cidade da fábrica. Fiz alguns desses exemplares e presenteei amigos. Cheguei a fazer uma folha de instruções bilíngue.

Ainda tenho essa última folha guardada num fichário antigo de idéias e projetos fotográficos.

A Fátima Roque foi uma das pessoas que ganhou uma Hagersville de presente e quando nos juntamos no projeto Mezanino do Itaú Cultural, com a Patricia Yamamoto também, a gente conseguiu que os moços de lá nos fizem outras tantas Hagersville adaptadas às madeiras compensado brasileiras. Isso virou a oficina que nós três oferecemos em Outubro de 2005. Essa é a foto que eu fiz da turma da tarde, a Hagersville abandonou o pinhole e passou a ter uma lente de lupa para gente fazer a oficina numa sala.

A história continua e eu conto mais em breve.

Oficina de Construção de Câmera Digital Artesanal • Sesc Campinas

Foi ontem e rolaram fotos interessantes. O espaço oferecido pelo Sesc foi perfeito, um quiosque no meio do jardim, muita luz e contraste para poder escanear tranquilamente.

grupo

Desmontamos um scanner antigo com portas paralelas só para entender as peças e seu funcionamente, depois tentamos fazer a câmera com um HP 2400, por incrível que pareça deu certo. Eu usei um laptop do Sesc dessa vez, era um PC Dell, então foi um pouco diferente e esse scanner que não funciona em Macs, não deu problema com o PC. Usamos o Vuescan em modo trial, por isso os escritinhos sobre a foto.

A Ligia Minami me fez uma visita e mandou umas fotos lindas! Olha só:




Foi uma prova de conceito interessante, afinal a proposta é que qualquer um possa fazer isso em qualquer computador (ainda não encontrei uma solucão para o Linux que evite usar o driver SANE que não permite essa nossa brincadeira até onde eu sei).

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As Câmeras Renzo

Qual não foi o meu espanto ao ver dois trambolhos muito interessantes na vitrine da loja Angel no centro de São Paulo esses dias. Me aproximei cautelosamente e li os dois cartões, um sobre cada câmera:

“Câmera Renzo – Artesanal
•Formato Panorâmico 24×70
•Filme 35mm
•Lente 35mm f/3.5”

E na outra câmera:

“Câmera Renzo – Artesanal
•Formato Panorâmico 55×184
•Filme 120
•Lente 75mm f/3.5”

Fui até o balcão e pedi informações sobre as câmeras e seu construtor, dono, etc.

O Claudio me contou do Sr. Renzo e se ofereceu para nos colocar em contato. Retornou pelo telefone alguns dias depois e marquei um encontro com ele lá na Angel mesmo onde estavam as câmeras.

O início de nossa conversa foi um pouco tensa, acho que o Sr. Renzo estava muito curioso para saber porque tanto interesse pelas suas câmeras. Comecei então a mostrar algumas imagens no meu celular, fotos de projetos, de coisas construídas e de idéias ainda sendo matutadas.

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Um pouco mais tranquilo, o Sr. Renzo me contou um pouco de sua história. Engenheiro aposentado, filho de uma italiana e um decendente de franceses, Sr. Renzo lembra da sua participação no XI Salão Internacional de Arte Fotográfica na Galeria Prestes Maia em 1952 ao lado de Geraldo de Barros, German Lorca, Eduardo Salvatore, Francisco Azsmann entre outros.

O Sr. Renzo começou cedo a construir coisas, incentivado pelo pai que também foi engenheiro, construiu seu primeiro ampliador aos 15 anos usando uma câmera 6x9cm francesa. Me contou que a grande inspiração sempre foi a falta de dinheiro, diz ele sorrindo. “Não pode comprar, tenta fazer”. Nessa anos todos fez diversas coisas, desde mais ampliadores, uma câmera pinhole em madeira e uma câmera tipo field de formato 6x9cm também.

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Note bem o marginador feito de chapa de metal e imãs. Dá um ótimo aproveitamento do papel para imagens sem margem.

Já as câmeras panorâmicas são projetos bem mais complexos. Instruções de uso de ambas estão em adesivos espalhados pelas superfícies das câmeras, faça ajudar a memória.

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Essa é a vista traseira da câmera 35mm com o takeup spool prateado do lado esquerdo, as guias do filme douradas no centro.

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Esse disco do topo serve para armar o obturador periférico e o botão no centro dele controla o diafragma.

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Pela frente se vê uma fenda e a objetiva escondida ali atrás. A tampa (visível na parte inferior) precisa ser fechada para armar a câmera.

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Esse é o obturador em ação:

A câmera 120 é um pouco maior, tem a frente em couro para a objetiva se movimentar.

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O visor de arame ajuda na composição e também serve como alça.

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As etiquetas continuam lá!

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A traseira.

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Um detalhe da madeira no fundo da câmera que foi usinada para formar o trilho por onde se movimenta a objetiva quando esta gira.

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Com a câmera 120 o Sr. Renzo conseguiu fazer uma ampliação com 2 metros de comprimento. Ele considera o resultado muito bom, a boa nitidez da câmera se deve ao fato da fenda só usar o centro da imagem projetada pela objetiva e das velocidades serem muito altas evitando borrões.

As câmera ficarão por tempo indeterminado na vitrine da Angel na galeria da Rua 7 de abril, 125, a visita vale a pena!