Sobre fotografia • histórias de Fátima Roque

A Fátima Roque era chegada no barquinho que todo ano parte de Belém para explorar o Pará levando diversos tipos de pesquisadores, cientistas e artistas. Ela compartilhou comigo algumas pequenas histórias dessas viagens que me fazem pensar para que serve a fotografia e o que serve para fazer fotografia.

Em Cametá ela encontrou um fotógrafo local especializado em retratos. Lima mostrou para ela como fazia as fotos e onde revelava esses filmes e fotos coloridos. Seu equipamento era apenas uma Olympus Pen de meio quadro, seu laboratório consistia em alguns pedaços de cano que funcionavam como tanques verticais dentro de uma caixa. O processamento em C-41 se dava a temperatura ambiente (de Cametá). A cada cliente o Lima cortava o pedaço exposto do filme colorido numa caixa escura e já revelava a ponta direto nos tanques. Dali para um ampliadorzinho e a cópia era revelada nos mesmo tanques. E o negativo acabava arremessado sobre a laje do laboratório para mofar e apodrecer.

Numa outra parada ela ofereceria uma oficina de cianótipo e marron van dyke, terminada a oficina os pedaços de tecido com cianótipos ainda estavam molhados, ela pediu ao alunos que voltassem de tarde para buscar as fotos. Eles voltaram e encontraram ela onde os pesquisadores se reuniam. De lá começaram a caminhar até o barco para buscar as imagens em tecido secas. No meio do caminho tinha uma loja com colchas e redes, ela pediu para os alunos escolherem uma colcha e ainda comprou uma caixa de alfinetes. Chegando ao barco pediu que a colcha fosse pendurada no convés e cada aluno pendurou sua imagem na colcha com os alfinetes. Então ela pediu que cada um buscasse seus amigos, sua família e que eles voltassem ao pôr-do-Sol para a abertura da primeira exposição deles. Apareceu todo mundo de banho tomado. O Sol ainda iluminava a colcha amarela, aos poucos cada um que ia embora foi retirando suas imagens e a colcha voltou a ficar vazia. E o Sol se pôs.

Testes com a Yashica A

Talvez a Yashica A seja a maneira mais prática e em conta de se obter um triplet de grande abertura (80mm f/3.5 Yashimar) para uma câmera de formato pequeno (6x6cm) e que ofereça o tal do swirly bokeh (nenhuma da imagens desse post dão conta de demonstrar esse bokeh super bem, a terceira imagem apenas parcialmente, mas é viável e bonito).

Com os preços que as Trioplan estão agora e tudo mais que tenha apenas 3 elementos, não consigo imaginar outra câmera e lente que ainda esteja tão barato e que ofereça esse tipo de desfoque tão desejado recentemente.

Me dei conta disso outro dia num post de uma outra pessoa num grupo no Facebook. A imagem tinha os círculos no fundo e eu imediatamente lembrei que tinha uma A lá no Celso, carente de uma limpeza e de um carinho. Dei o trato, limpei o melhor que pude e ainda dei uma garibada no couro do case.

Para o teste usei um rolo de um NPL e um rolo de Superia 100. O NPL ficou esquisito como tinha que ser e o Superia lidou bem com a super exposição massiva que recebeu. A Yashica A tem apenas 4 velocidades diferentes (25, 50, 100 e 300) e para aproveitar o que a lente oferece de melhor só usando ela em f/3.5.

Usar 1/300 e f/3.5 num dia de Sol é luz demais para um ISO 100, mas é o que temos então melhor optar por negativo cor e torcer para dar certo.

Olympus XA • para o andarilho

Tenho curtido muito as caminhadas até o centro da cidade. Nos dias em que vou para a oficina do Celso eu tenho optado por ir à pé do Itaim Bibi à Rua São Bento no centro da cidade. Dá em torno de 1h20 de caminhada relativamente plana com direito a cruzar o túnel da Av 9 de Julho sob a Av Paulista.

Uma câmera compacta como a Olympus XA é muito útil, boa parte do tempo ela cabe na palma da mão e ali fica escondida.

Eu deixo a câmera em f/2.8 a maior parte do tempo, só cuido para não deixar a velocidade subir muito, porque como não passa de 1/500, a câmera pode acabar superexpondo o filme. E não tem apito, nem bandeira vermelha, a câmera não te faz perder a foto.

E alguns momentos usei a chave do contraluz, a chave que faz a câmera superexpor 1,5 pontos a partir do fotômetro interno, mas em geral fiquei com a fotometria automática e não acho que perdi muita coisa.

Usei diversos tipos de filme: Agfa APX100, Ilford FP4, Ilford Pan F; procurei ficar nos ISO mais baixos e manter a lente mais aberta (de modo que em algumas imagens, como acima, dá para perceber as laterais mais suaves da lente toda aberta).

Inclusive, a objetiva da XA é interessante, uma 35mm desenhada como teleobjetiva para precisar menos espaço entre objetiva e filme e assim a câmera poder ser ainda mais compacta. Segue aqui um link para a história desse design.

Testes com a Canon Pellix

Há uns meses eu fiz alguns testes com uma Canon Pellix e uma objetiva FL 58mm f/1.2. A Pellix é uma câmera da Canon que tem o espelho fixo, na verdade um semi-espelho. Para entender melhor segue o link da Wikipedia.

Usei um filme Fomapan 400, exposto a 400 mesmo, revelado em Parodinal 1+50. Deveria chamar Fomapan 200, mas enfim os filmes são o que são.

Depois do filme revelado escaneei o resultado num scanner Pakon e são essas imagens que temos aqui.

Com a objetiva ligeiramente fechada a imagem começa a mudar, os detalhes passam a aparecer mais no canto.

E por fim uma imagem em f/11 para ver como a objetiva se comporta.

Mais um rolo de Fomapan, talvez o último

Outro dia o Clemente me presenteou com um achado maravilhoso, um Fomapan 120 vencido daqueles que vendiam na Cinótica em 1992. Naquela época o filme já estava esquisito e a tinta dos números no backing paper já marcava a emulsão, um desastre adorável.

E das sucatas do Celso Eberhardt que eu tenho ressucitado para colocar à venda veio uma Rolleiflex com uma Planar f/2.8 muito interessante. A câmera parece ter uma história bem animada e ainda vai longe.

Me pareceu uma combinação interessante testá-la com esse filme. Abrir o papel alumínio do Fomapan me levou de volta 25 anos, o cheiro peculiar desse filme é inesquecível. Ainda não tive coragem de jogar fora a caixinha e a bula do filme…

Celso e eu saindo do almoço, eu ofereço a câmera: “Quer fazer uma foto?” Ele diz: Não, faz você, esses topos do prédios aqui.” e aponta. Pronto.

Saimos do Largo do Café, andando em direção à Sé e mais uma no caminho.

E de volta à oficina uma última imagem.