W. H. Auden fala sobre fotografia

Tudo começou porque eu estava ouvindo o CD do Renato Russo chamado: The Stonewall Celebration Concert. No próprio disco há, impressa, uma citação a um poema de W.H. Auden. Quem é esse cara? Que duas linhas mais maravilhosas, por sinal.

Digitada a primeira linha no Google apareceram inúmeros lugares para ler o resto do poema, entre eles esse. Acessei também o Wikiquotes e descobri que é dele o poema da cena do funeral no filme Quatro Casamentos e um Funeral. Coincidência, mas até ai, nada de mais. Fuçando um pouco mais na Wikiquotes encontrei um pequeno achado, uma citação de W.H. Auden falando de fotografia, segue o link e uma transcrição:

“Normally, when one passes someone on the street who is in pain, one either tries to help him, or one simply looks the other way. With a photo there’s no human decision; you’re not there; you can’t turn away; you simply gape. It’s a form of voyeurism.” In Paris Review “Writers at Work” interviews, 4th series (p.247) [entrevista concedida em 1972]

Osasco em Lith

Em 1996 comecei a fotografar algumas pessoas, umas 5 ou 6, que sobreviveram à explosão de um shopping na cidade de Osasco, SP. Segui a vida de 3 desses durante um período bem longo, de 3 anos. Fotografei com os filmes que eu pude comprar, que na época eram preto-e-branco. O trabalho foi sendo construído e eu o apresentava com fotos com uma escala tonal comum (como as que eu comentei num post anterior). Em 2000 eu ganhei um envelope de papel positivo para ser usado na indústria gráfica. Acabei fazendo uma espécie de releitura do meu próprio trabalho, brincando com um contraste mais acentuado, interferências físicas na imagem. As imagens perderam o ar de fotografia documental que elas tinham, o que deixou algumas pessoas incomodadas, mas ganhou outras informações.

A foto de cima é a Gil superando a escada da entrada da casa dela, quando ela finalmente voltou a andar. Já esse beijo foi a última foto que eu fiz dela. Era sinal de que ela tinha superado as 33 cirurgias e o ano e meio presa a uma cama e recomeçado a vida, encontrado um amor.

Rede de coordenadas

Uma amiga mandou o link pro making of do clipe da música House of Cards do Radiohead. Sensacional. Fui atrás de pesquisar conexões em cima disso, dá técnica usada, achei o site do figura, Aaron Koblin, que deu o apoio técnico/artístico para a história, e um site de outro figura, Roger Mueller, que ensina como fazer isso em casa, bacana. Scanner a laser, rede de coordenadas, onde a geração de imagens vai parar?

Pelo centro

Post sem imagens. Comecei o dia no cartório. Se você é brasileiro, nada adianta, você acaba tendo que ir resolver coisas lá. Depois fui levar minha inscrição no prêmio/concurso. Na esquina da Helvétia com a Barão de Limeira vi um motoqueiro no chão. Vi o homem em pé ao seu lado com um celular em uma mão, na outra uma pistola. Um estalo, o estampido logo antes da esquina era um tiro. O motoqueiro não era acidentado, era baleado, porquê? Imóvel. Entreguei minhas fotos (pensando porquê?). Fui atrás de mídias digitais virgens, discos rígidos, material de trabalho. Em todas as bancas via a foto da capa do jornal, o soldado, o cessar fogo. Descobri a cara que tem um Silicon Graphics, chamam de estação de trabalho, mas não passa de um computador. Vasculhei lojas de sucata (pensando porquê?). Lojas de fotografia. Almoço. Mais sucata. Para encerrar me deixaram ver o ensaio da orquestra, Carmina Burana, o que foi aquilo? Uma alternância de passagens suaves, fortes, contraste impressionante. Em certo momentos alguns instrumentos tem a chance de tocarem sós, para toda a sala, debelando sozinhos o silêncio. É verdade que um ensaio é cheio de pausas, por outro lado você tem a chance de ouvir o mesmo trecho sendo tocado diversas vezes com pequenas diferenças aqui e ali. Bom para aprender (e eu pensando porquê?). O caminho de volta foi pelas mesmas ruas das lojas de sucata, que nesse horário tinham mudado, o contraste tão intenso da peça clássica agora parecia bem pequeno. Esse contraste, da Rua do Triunfo depois das 20h, talvez seja o porquê. Um deles.

Glossário do Flusser

Tem um glossário logo ali, cá em cima, nos tabs desse blog.

E sempre que eu entro ali para adicionar uma palavra, ou mesmo ler o que já escrevi sobre alguma outra, eu penso no glossário para uma futura filosofia da fotografia. Esse é o glossário que está nas edições da Filosofia da Caixa Preta de Vilém Flusser.

O glossário de Flusser tem verbetes sensacionais, curtos e pungentes. Tais como o primeiro de todos:

“Aparelho – brinquedo que simula um tipo de pensamento.” (sic)

E é só isso mesmo, até porque mais não é necessário. Outro:

“Informação – situação pouco-provável.” (sic)

E por ai vai. Curioso é ver que o esqueleto do livro está no glossário, e ao contrário do que se imaginaria, para entender completamente o glossário é necessário ler todo o livro.