Traquitana do Claudio • Av Paulista 

Em março mesmo eu finalmente levei a câmera para uma volta pela Av Paulista em busca de coisas que se movessem de um jeito caótico interessante, na cabeça a idéia de um transe, na bolsa Kodak Tri-X velho e bem mofado.

Eu tinha feito vários testes com a finalidade de calcular o tamanho dos negativos em função do tempo de exposição, queria negativos com um tamanho de 12cm de comprimento para ampliar usando um ampliador 4×5″. Na hora das fotos a coisa foi de outro jeito. Fotografei o que eu via se mexer sem me preocupar muito com o tempo e o comprimento do filme. Depois dos filmes revelados, com uma janela de papelão de 24x54mm (optei por uma imagem muito mais “curta”) eu escolhi as imagens que eu queria ampliar direto na mesa de luz.

Usei papel Polycontrast (fibra, peso duplo) em tamanho 20x25cm e usei o filtro no. 5 para conseguir uma boa separação de tons do negativo. Não fiz nada para evitar o véu de base violento e irregular, deixei ele competir com as texturas dos fungos no filme. O véu irregular tem uma grande vantagem sobre o mais regular que aparece apenas como um cinza sobre a imagem, o véu irregular e ruidoso aparece como um problema do papel e não da imagem e isso pode ser interessante.

ICE e filmes preto-e-branco 

A tecnologia ICE no escaneamento consiste em escanear o original com uma luz infravermelha e utilizar essa imagem para determinar o que é imagem e o que é sujeira nos arquivos obtidos com luz branca de originais  tais negativos coloridos e positivos coloridos.  O software processa as duas imagens e faz comparações entre as duas para localizar a sujeira.

Com filmes preto-e-branco a coisa não funciona tão bem, já que a prata reflete luz infravermelha tanto quanto a sujeira. Bom, isso provoca uma certa confusão por parte do algoritmo que faz a “limpeza”, que pode ser bem interessante como essa solarização localizada que ocorreu em um negativo de Tri-X escaneado no Pakon F135 Plus com o ICE ligado.

LED RGB no ampliador 8×10″

Descobri que as fitas de LEDs RGB vm acompanhadas de controles remotos que fazem eles mudarem de cor e que mesmo quando a corrente elétrica é cortada e volta, eles possuem memória e mantem a cor selecionada anteriormente, ou seja, são perfeitos para uma cabeça colorida ou multicontraste de ampliador.


Nesse primeiro teste a luz não ficou uniforme, mas já mudei o caminho dos fios e consegui melhorar a situação. Luz verde deve dar baixo contraste com os papéis de contraste variável e luz azul faz o alto contraste.

 


Ainda aguardo encontrar um pedaço de isopor para rebater os cantos e uniformizar a luz nas beiradas do negativo.

As Câmeras Renzo

Qual não foi o meu espanto ao ver dois trambolhos muito interessantes na vitrine da loja Angel no centro de São Paulo esses dias. Me aproximei cautelosamente e li os dois cartões, um sobre cada câmera:

“Câmera Renzo – Artesanal
•Formato Panorâmico 24×70
•Filme 35mm
•Lente 35mm f/3.5”

E na outra câmera:

“Câmera Renzo – Artesanal
•Formato Panorâmico 55×184
•Filme 120
•Lente 75mm f/3.5”

Fui até o balcão e pedi informações sobre as câmeras e seu construtor, dono, etc.

O Claudio me contou do Sr. Renzo e se ofereceu para nos colocar em contato. Retornou pelo telefone alguns dias depois e marquei um encontro com ele lá na Angel mesmo onde estavam as câmeras.

O início de nossa conversa foi um pouco tensa, acho que o Sr. Renzo estava muito curioso para saber porque tanto interesse pelas suas câmeras. Comecei então a mostrar algumas imagens no meu celular, fotos de projetos, de coisas construídas e de idéias ainda sendo matutadas.

renzo guerin

Um pouco mais tranquilo, o Sr. Renzo me contou um pouco de sua história. Engenheiro aposentado, filho de uma italiana e um decendente de franceses, Sr. Renzo lembra da sua participação no XI Salão Internacional de Arte Fotográfica na Galeria Prestes Maia em 1952 ao lado de Geraldo de Barros, German Lorca, Eduardo Salvatore, Francisco Azsmann entre outros.

O Sr. Renzo começou cedo a construir coisas, incentivado pelo pai que também foi engenheiro, construiu seu primeiro ampliador aos 15 anos usando uma câmera 6x9cm francesa. Me contou que a grande inspiração sempre foi a falta de dinheiro, diz ele sorrindo. “Não pode comprar, tenta fazer”. Nessa anos todos fez diversas coisas, desde mais ampliadores, uma câmera pinhole em madeira e uma câmera tipo field de formato 6x9cm também.

IMG_9430

Note bem o marginador feito de chapa de metal e imãs. Dá um ótimo aproveitamento do papel para imagens sem margem.

Já as câmeras panorâmicas são projetos bem mais complexos. Instruções de uso de ambas estão em adesivos espalhados pelas superfícies das câmeras, faça ajudar a memória.

IMG_9443

Essa é a vista traseira da câmera 35mm com o takeup spool prateado do lado esquerdo, as guias do filme douradas no centro.

IMG_9434

Esse disco do topo serve para armar o obturador periférico e o botão no centro dele controla o diafragma.

IMG_9437

Pela frente se vê uma fenda e a objetiva escondida ali atrás. A tampa (visível na parte inferior) precisa ser fechada para armar a câmera.

IMG_9439

Esse é o obturador em ação:

A câmera 120 é um pouco maior, tem a frente em couro para a objetiva se movimentar.

IMG_9445

O visor de arame ajuda na composição e também serve como alça.

IMG_9447

As etiquetas continuam lá!

IMG_9450

A traseira.

IMG_9448

Um detalhe da madeira no fundo da câmera que foi usinada para formar o trilho por onde se movimenta a objetiva quando esta gira.

IMG_9449

Com a câmera 120 o Sr. Renzo conseguiu fazer uma ampliação com 2 metros de comprimento. Ele considera o resultado muito bom, a boa nitidez da câmera se deve ao fato da fenda só usar o centro da imagem projetada pela objetiva e das velocidades serem muito altas evitando borrões.

As câmera ficarão por tempo indeterminado na vitrine da Angel na galeria da Rua 7 de abril, 125, a visita vale a pena!