Novas redes

Participei de um concurso de fotografia interessante essa semana passada. A Câmara Municipal disponibilizou rolos de filme e câmaras descartáveis para os participantes fotografarem nos locais dos vários imóveis que são patrimônio histórico da cidade. A lista completa dos imóveis foi oferecida aos participantes, tinha lugares de simples acesso, no centro da cidade e lugares distante do centro. Era ao gosto do freguês. Fiquei sabendo que uma participante comprou uma frigideira (um salgado tradicional de Braga) e a levou para fotografar junto às rosas do jardim de Santa Bárbara. E com a frigideira e as rosas usou todas suas 24 fotos. A criatividade do ser humano é algo maravilhoso e estou curiosíssimo para ver essas fotos! Foi uma iniciativa interessante para fazer as pessoas olharem para certos prédios e casas da cidade nesse início de Outono. E é sempre bom reencontrar os colegas e ficar sabendo dessas histórias.

Depois, no mesmo dia, foi o Open Day do Nébula, já falei dele aqui e já até atualizei o post sobre ele com imagens que fizemos naquele dia. O oficina de Construção de Câmara Digital Artesanal é algo que eu já faço a tanto tempo, mas a experiência de transformar ela num evento curto foi interessante. Abri a pocket oficina com algumas poucas palavras para explicar o que tínhamos ali diante de nós. Mostrei o CCD de uma câmara digital normal, mostrei o CCD linear de um scanner comum. Expliquei as diferenças, falei de possibilidades. A câmara já estava montada ao laptop, não foi sendo construída ao longo de horas de oficina. Fiz um auto-retrato e convidei os alunos a fazerem o mesmo, cinco minutos depois estava montado um circo ali, uma algazarra maravilhosa.

O divertimento das pessoas ao ver seus corpos e rostos deformados pela varredura incessante do CCD linear é um deleite. A caixa preta tem seu apelo, desconhecer o output, vê-lo magicamente aparecer na tela com formas e cores surpreendentes é um evento fora da rotina – pitoresco e interessante. Ainda bem que o Vuescan permite salvar as imagens automaticamente, assim nenhuma delas se perde na pressa de fazer a próxima!

São dois exemplos da fotografia criando redes ao longo de um final de semana, gostoso isso.

Ruídos eletrônicos

No post anterior eu já anunciei que esse post aqui me obrigou a criar uma nova categoria aqui (“media arts”). Organizei dois posts de 2008 e um de 2010 dentro dessa categoria. São coisas que levam anos para encontrar uma saída.


Pelas minhas andanças na cidade acabei esbarrando num par de caixas de som dinamarquesas e elas ficaram um tempo ali na garagem esperando algo mais aparecer. Não demorou tanto assim, logo achei um estéreo bem simples e antiguinho, um 3 em 1 com CD, tape deck e rádio AM/FM.

Desmontei o estéreo para entender suas partes e saber o que ainda funcionava e como.

A placa do amplificador tinha diversas áreas dedicadas a cada uma das entradas (CD, rádio, AUX e tape decks). Comecei a mapear o que funcionava em AUX para ver como injetar ruídos e sons.

Achei umas ligações que davam uns curtos interessantes, instalei uma nova entrada para microfone. Soldei uns fios para facilitar a brincadeira.


Num experimento paralelo, ao desmontar uma filmadora velha, achei um elemento piezo da TDK ligado como buzzer. Consegui recortar a placa de circuito o suficiente para isolar esse piezo sem danificar nada.

Uma coincidência monstruosa, fui ver a mais recente apresentação da Orquestra de Dispositivos Eletrônicos aqui em Braga e fiquei entusiasmado com os cubos mágicos da Líria, ligados a piezos, sendo usado para os sons mais malucos. No fim do espetáculo o coordenador ainda anunciou que eles iam começar uma nova temporada e que estavam abrindo vagas a voluntários…

Já sabia o que fazer com esse piezo. Com dois fios liguei ele a uma placa estéreo USB.

Tinha um modem DSL antigo, desmontei. O modem era protegido por uma linda gaiola de Faraday. Com metade dela eu já tinha um “campinho” para jogar bola de gude. Colei o piezo nela e logo fiz um “instrumento” que podia também só raspar.

Com cola quente e USB, bem maneiro.


As caixas de som, do início desse post, eram maravilhosas e o eco na garagem é delicioso. No entanto, percebi que aquilo precisava ir mais longe…

Precisava dar saída para esses sons. Queria adicionar reverb a eles. Pesquisei um caminho open source, lembrei do Pure Data. Num vídeo de Youtube descobri que o Valhalla Supermassive (um plugin vst com um reverb lindo) é gratuíto apesar de código fechado. Achei um jeito de ligar VSTs no Pure Data. Num laptop velho instalei o Mac OS 10.13.6, o Pure Data e o Massive.

Levei umas tentativas para perceber como as preferências do sistema de áudio conversavam com adc~ do Pure Data, mas acabei encontrando um ponto comum entre eles e ficou tudo beleza pura.

Para poder usar um plugin com o Pure Data no Mac, acabo não podendo usar a versão mais recente de todas. Não sei se é por isso, mas não consigo ingerir todas as entradas de áudio no Pure Data. Ele acaba só vendo a que se escolhe nos System Preferences.


Nesse meio tempo, escrevi para o email da ODE e me chamaram para participar. Levei a tralha toda, mesmo sem conseguir tocar ambos os “instrumentos” juntos. O primeiro ensaio de que participei foi das experiências mais interessantes que tive recentemente. O músico Rui Souza que coordena a orquestra tem uma vibe perfeita para criar um ambiente amistoso e prolífico, mesmo com tanta gente que não nasceu músico.


Decidi experimentar com Processing, em Linux e ver se consigo aceitar o som do meu “gerador de ruído” e do piezo juntos, mixá-los, dar um delay e um reverb diferente em cada um e devolvê-los num output qualquer. No entanto, numa aula do mestrado, o professor do ateliê de arte sonora me ajudou a encontrar umas mesas de mistura bem econômicas no OLX. E depois de uns dias a escolhida já tinha chegado.

Isso ainda fazia mais sentido depois de uma dica do Rui, de pesquisar reverbs analógicos feitos com molas. Adicionei um outro piezo ao meu “amplificador de ruídos”, pendurado no seu interior por duas molas bem fininhas. O som ficou mais fraco do que quando ele estava colado à superfície da madeira, mas um ligeiro reverb natural se fez presente. Talvez com gain e compressor da mesa seja possível contornar isso bem, ainda carece de teste… Se precisar ainda tem um preamp do AliExpress que pode ser a solução…

Esse post cresce toda vez que o edito, hahahhahaha, vou encerrar aqui e depois conto mais.

Réveillons

Tem um projeto nasceu praticamente ao mesmo tempo em que comecei a praticar à fotografia. Isso foi lá no início dos anos 1990, mais precisamente no dia 1 de Janeiro de 1993. E fiz fotos para esse mesmo projeto até os primeiros dias de 2018.

Esse grupo de imagens reflete diversos detalhes do meu processo criativo: a ausência, o silêncio, os recipientes (que guardam materiais como fronteiras entre o seco e o molhado) e os lampejos (que simbolizam eventos irreprodutíveis). Acredito que o foco central é a ideia de ciclos que se encadeiam, já que retrato a fronteira entre eles: o réveillon.

1994

Meus réveillons sempre foram momentos de vazio. Faltava alguma coisa. Meu estado de espírito não acompanhava a alegria ao redor. Assim, essas ocasiões tornaram-se momentos de reflexão e introspecção, em vez de festa e celebração. Desde a adolescência, minhas caminhadas tornaram-se minha atividade preferida durante a semana do evento, afastando-me da festa que se fazia onipresente.

2016

No Natal de 1992, ganhei uma câmera. Trouxe-a para dentro desse ritual. Ao longo dos 25 réveillons seguintes àquele Natal. Fotografei, pensei sobre tudo que vivi e ainda desejava viver. Com a câmera, encontrei nuances diferentes nestes dias do ano: um compasso de espera, quase uma angústia, um sofrimento, um toque de ironia e um rompimento com o que passou. Esses detalhes estavam presentes nas celebrações de alguma forma; faltava apenas reconhecê-los.


Já faz uns anos que eu penso nesse projeto, escrevo e reescrevo sobre ele. Já fiz algumas candidaturas para prêmios, na tentativa de organizar uma exposição ou um pequeno livro com ele. Nada vingou ainda, mas eu não esqueço dele e continuo tentando. Esse post inclusive nasceu porque fiz uma candidatura recentemente e fiquei pensando nessas imagens mais uma vez. Provisoriamente esse trabalho ou que quer que nasça dele se chamará Réquiem. Junto a Travessia e a Lampejos, outros dois grupos de imagens, esses trabalhos são os mais representativos da categoria Fotografia no que eu fiz até hoje.

O próximo post nesse blog me obrigou a criar uma nova categoria aqui. Que serve também para organizar algumas coisas que eu já fiz, mas que andavam por ai descategorizadas. A nova categoria ganha dois posts de 2008 e um de 2010. Ah! Os projetos que levam anos para encontrar uma saída, é bom finalmente ver certas coisas acontecerem.

Crise de meia-idade

Desejei esse pequeno grupo de tatuagens durante muito tempo. São três desenhos e cada um representa uma pessoa. Meus dois filhos e eu. Essas coisas vão ficando para depois e depois. Semana passada imprimi uma folha com a minha idéia e fui a uma loja que tinham me indicado logo depois da pandemia.

A loja estava fechada, foi decepcionante. “Que vacilo, Guilherme!”

Uns dias depois estava reunido com um grupo de artistas aqui da cidade, no jardim de esculturas de um museu. No meio da conversa, uma artista menciona que estava aprendendo a tatuar e que buscava pessoas interessadas em serem seus primeiros objetos, vítimas, cobaias, telas.

Saquei o papel impresso da mochila e o resto é história.

A Juliana Boo aceitou que eu fosse a sua primeira tatuagem e eu dei a sorte que ela fosse a minha primeira tatuadora.


Quando escrevo que essas coisas vão ficando para depois e depois, era sobre isso que queria falar.

Há um tanto de tarefas que aparecem e vão passando à frente, seja porque o mundo demanda, ou porque elas têm seus prazos. Acho que a crise da meia-idade para mim tem sido o momento de rever tudo que foi ficando para trás, as coisas que eu não tive tempo de estudar antes (como a programação, a eletrônica, enfim, o digital mesmo), as coisas que eu não tive organização para fazer (como essas tatuagens, um mestrado).

Tem um artigo interessante no DailyOm sobre isso, lá eles listam 4 maneiras de usar a meia-idade de maneira mais afirmativa e estratégica. Destaco duas que eu considero as mais importantes: repensar como se usa o tempo (coisa que eu já tenho feito bastante desde a construção da ULF, escrevi bastante sobre isso, talvez até demais) e usar sua própria sabedoria já construída ao longo dos anos (perceber seu próprio fluxo de trabalho, repensar suas próprias reações em situações já vividas). Esse tipo de reforço ajuda a mudar o mindset daqui para frente.


Essa semana eu achei um monitor no lixo, um HP de 19 polegadas, nada muito maravilhoso, mas um monitor pequeno e leve. Ao ligar, ele dava apenas uma tela branca, sem nenhuma imagem. Ao longo desses aprendizados eu já sabia que os monitores tem 3 placas: fonte de energia, placa de vídeo e a placa t-con que fica presa ao painel. E já sabia que tela branca em geral é um problema na t-con. Fui lá com meu multímetro e achei um fusível queimado. Um fusível, que simples! Fiz uma ponte ao redor do fúsivel (não é o reparo ideal nem o mais seguro, mas…) e pronto!

Assim já tinha um novo monitor para um dos meus laptops nus. Acho que ainda não falei deles aqui. São vários e fazem parte das coisas que tenho feito no TiroLiroLab. Hummm, essa história vai longe, depois eu conto mais. Por enquanto vou só deixar uma foto aqui:

Quando escrevo “que simples!”, esse é meu novo eu, todo envolto em novos aprendizados e tatuado. E aos 49 anos fui aceito no Mestrado em Media Arts. Mais e mais tenho lido e me interessado pelas artes digitais. Bom, esse assunto ainda é mais longo que o TiroLiroLab, e vou deixar ambos para mais adiante.

Ignorar uma placa gráfica

Recentemente cruzou meu caminho um MacBook Pro Early 2011 com processador i7, uma tela de 15 polegadas e o problema comum da placa de vídeo AMD Radeon HD 6490M que impede que ele ligue. Um sonho antigo, tirando a parte do problema da placa gráfica.

Lá pelos idos de 2015 a Apple até trocava as placas-mães gratuitamente desse modelo, mas o problema voltava com o tempo. Se supõe que a placa gráfica roda tão quente que aos poucos alguns dos pontos de solda entre ela e a placa-mãe perdem o contato, ou seja, se supõe que fosse um problema de design irremediável.

Durante um bom tempo uma solução que havia era usar uma estação de solda para tentar refluir a solda da placa e reestabelecer os contatos. Alguns técnicos ficaram muito experientes em aplicar essa técnica, mas para pessoas com menos experiência nisso, como eu, podia ser arriscado demais.

A questão do calor gerado pela gráfica incomodava muita gente também. E como essa placa não era algo espetacular de usar, alguns usuários foram atrás de criar uma maneira de desabilitá-la. É importante lembrar que esses laptops possuiam duas placas de vídeo. Além da AMD, tinham também uma mais simples incorporada ao i7, a Intel HD Graphics 3000. E tinham um sistema que trocava automaticamente de placa gráfica dependendo da tarefa a ser executada e da quantidade de energia disponível na bateria.

Alguns nerds mais experientes ligaram os pontos e começou a circular por ai um pouco de código que desabilitava a placa gráfica Radeon. Bastava ligar o Mac em Single User Mode e digitar:

sudo nvram fa4ce28d-b62f-4c99-9cc3-6815686e30f9:gpu-power-prefs=%01%00%00%00

E depois reiniciar o Mac. Assim, esse comando estabelecia que apenas a primeira placa gráfica do sistema deve receber energia (a que está incorporada ao processador). No entanto, bastava um reset de NVRAM ou mesmo um update, para o comando perder o efeito.

Usei esse comando com o MBP para saber se o problema dele era mesmo com a placa gráfica Radeon. E assim consegui confirmar o problema, já que após usar esse comando ele funcionou perfeitamente.

Fui pesquisar como fazer a mesma coisa com alguma distro Linux nesse MBP. Acabei encontrando um blog com várias respostas às minhas questões, do programador Sarang Baheti. Bastava customizar o Grub tanto para a instalação do Linux, como para o sistema definitivo. Eu optei por continuar usando o MX Linux, que é uma distro baseada em Debian e que tem me deixado satisfeito. Bastava adicionar essas quatro linhas às configurações do Grub:

echo "          outb 0x728 1" | sed "s/^/$submenu_indentation/"
echo "          outb 0x710 2" | sed "s/^/$submenu_indentation/"
echo "          outb 0x740 2" | sed "s/^/$submenu_indentation/"
echo "          outb 0x750 0" | sed "s/^/$submenu_indentation/"

Essas linhas no Grub tinham o efeito semelhante ao comando anterior usado em single user mode, cortavam o suprimento de energia da placa gráfica Radeon. E como há um arquivo nas distros linux que confirma o conteúdo do Grub, era fácil mantê-lo sempre atualizado com essas quatro linhas, tornando a solução mais permanente e protegida.

E assim cheguei até aqui. Chamando de placa gráfica e placa de vídeo para agradar os dois lados do Atlântico. Depois foi só instalar uns apps e estava tudo pronto!

sudo apt-get install gimp kdenlive pycharm-community git ffmpeg chrome darktable curl default-jre qttools-dev-tools python3-tk

Nébula • Open Day

A Plataforma do Pandemônio organiza alguns grupos de estudo que correm durante um ano inteiro, essa atividade é chamada Nébula e tinha dois núcleos até então: um que é um coro comunitário que se chama Todos os Cantos e um que trata da fala performativa que se chama Fala Solta, que ocorrem alternadamente às 6ª feiras. 

Dia 28 (próximo sábado) a Plataforma vai organizar um Open Day na Junta da Freguesia da Sé: Karla, Bia e Elaine que coordenam as atividades de Todos os Cantos e Fala Solta estarão entre às 11h e às 13h a fazer uma demonstração do trabalho que desenvolvem com esses grupos. Na parte da tarde, vão apresentar um novo núcleo: o de Artes Visuais & Plásticas!

Segundo Marta Moreira, directora artística da Plataforma do Pandemónio: ‘A lógica é partilhar a oportunidade, antes de fecharmos inscrições e começarmos o trabalho propriamente dito. Nestas palavras do imortal Zeca Afonso, “seja bem-vindo quem vier por bem/se alguém houver que não queira/trá-lo contigo também”! Queremos muito que a palavra se espalhe e que este grupo possa crescer de forma sustentada, devagarinho mas com muita substância… um bocadinho diferente daquilo que parece ser a lógica dos tempos modernos, mas é aquela em que acreditamos.’

Então 4 dos 5 professores desse novo núcleo vão apresentar “pocket oficinas” de 50 minutos para cativar os presentes. Ficam aqui os horários da tarde: 

* 15h30 – “Fios que Contam Histórias” c/ Joana Magalhães (Sew Cool Studio) – bordado

* 16h30 – “Xilogravura” c/ Isabelle Neri

* 17h30 – “Fotografia Experimental” c/ Guilherme Maranhão (Sim! Sou eu!)

* 18h30 – “Expressão em Cores” c/ Suzana Marchiori – aguarela

E você me pergunta: como funciona o Nébula? As mensalidades continuarão a ser 5€/mês por cada núcleo. E este ano vão optar por apenas 2 modalidades de pagamento:  45€ em uma única vez (descontinho para quem opta por esta) ou pagamento trimestral de 15€, mais detalhes direto com a Plataforma, vale seguir o link acima e estudar o formulário de inscrição.


São 20h26, do dia 28 e vou fazer um update agora já com as fotos do Open Day: