Qual que é a sua memória mais antiga consertando câmeras?
CE: Eu tinha 13 anos, estava começando. Uma máquina pequena, 35mm, de fole, talvez fosse Zeiss, com a mola do obturador quebrada, tinha que desmontar tudo e eu não sabia como fazer. Ai eu comecei a desmontar e desmontei toda a máquina. Tinha um funcionário do meu pai falou: não é assim! Tirou, trocou a mola para mim, montou para mim. Mas isso ficou gravado na memória, era um obturador Compur.
Celso Eberhardt na oficina da Rua São Bento, 279.
Qual foi sua câmera predileta?
CE: Eu nunca tive uma câmera predileta. Eu usava uma Petri Color, porque eu viajava e nem focava. Ela tinha um automatismo arcaico, ela tinha tudo pronto. O fotômetro funcionava mil maravilhas e era foco fixo. Eu viajava de carro e colocava a câmera no para-brisa e fica clicando as coisa que eu achava bonito, sem olhar e sem parar.
E Leica quando começou a consertar?
CE: Me pai sempre fazia Leica e eu estava acostumado a ver as Leicas antigas de rosca, as primeiras M3. Foi um processo normal de aprendizado e de conserto, com a supervisão dele, no final da década de 1960, início dos 1970.
A gente conversou recentemente e você me contou que já tinha feito 19 fornadas de gelatina seca. Quais caminhos te motivaram a produzir seu próprio material fotossensível?
WL: Foram vários pontos somados: Independência, diversão no processo de fazer, custo mais baixo que o de filmes comprados e possibilidade de usar algumas câmeras que foram feitas para vidro.
A gelatina seca apesar de ser vidro como o colódio, é um pouco mais prática no manuseio. Em geral, quanto tempo leva entre a produção das chapas e o processamento? Já levou suas chapas numa viagem?
WL: Ainda não tive o problema de chapas “vencidas”. Já usei até dois meses após a fabricação e processei semanas após a exposição. Sim, já levei em viagens e muitas vezes saio para fotografar apenas com placas secas. Não vejo muita graça em fazer o mesmo assunto com placa e filme, normalmente ou é um ou outro.
O negativo é uma placa de vidro de 6,5 x 9 cm a a câmera uma alemã da década de 30 chamada Patent Etui. Clique na imagem para conhecer mais trabalhos do Wagner!
Você fez diversas variações lote a lote, qual foi o aprendizado mais interessante a partir dessas mudanças? Qual foi a dificuldade mais complexa de superar?
WL: Depois de fazer o curso do Roger Sassaki, no Sesc, comecei no meu laboratório com uma fórmula muito simples que tem no livro do Josef Maria Eder. Depois li muito sobre o que cada reagente faz e como cada parte do processo afeta o resultado final. Construí vários aparelhos para eliminar interferências manuais e poder repetir algo exatamente igual da última vez. Daí comecei a fazer variações, uma coisa por vez, nunca duas ao mesmo tempo, observando o resultado e ajustando a dose. Mas são tantas variáveis que mesmo na 19ª fornada ainda faltam muitas coisas a testar. Mas já passei a fase de frustração, isto é, da emulsão ficar imprestável. Isso aconteceu umas quatro vezes, mas hoje confio que vou conseguir usar e a dúvida está se vai ficar razoável, boa , ótima… Tenho feito fotografias sem tripé em fotos externas, já usei até 1/250s f/5.6. Já dá para pensar como ‘fotografia’ e não apenas como ‘tentando fotografar’.
A maior dificuldade foi acertar a viscosidade da emulsão para dar uma cobertura uniforme e sem falhas. Isso depende da gelatina, da concentração e da temperatura basicamente. O aprendizado mais interessante foi desenvolver uma forma de lavar a gelatina mantendo o controle de quanta água ela irá absorver. São coisas bem técnicas, mas o processo é mesmo técnico. Acho que não dá para ficar na tentativa e erro sem tentar antecipar na teoria qual é a validade de cada nova hipótese.
O MIS-SP organizou o material da pesquisa de Márcio Mazza de 1973 e colocou na exposição Lambe-lambe: The Street Photographers in São Paulo in 1970s que está disponível na plataforma Google Arts & Culture. Uma pena que seja só em inglês até onde eu pude ver, mas os depoimentos em vídeo são originais, captados por Márcio no centro de São Paulo com os fotógrafos que ainda atuavam ali:
“Este ano o Projeto Janela Mágica vai resgatar a memória dos fotógrafos de praça. Vamos voltar no tempo para relembrar a importância e a magia da fotografia Lambe-lambe, em um evento que receberá fotógrafos de diversas regiões para dois dias de muita história e, claro, muitas fotos! Durante os dois dias do evento, estaremos à disposição do público para trocar experiências e informações sobre a história e o funcionamento das câmeras Lambe-lambe. Os participantes ainda terão a oportunidade de tirar uma foto como antigamente! O evento é gratuito e aberto a todos os apaixonados, interessados e curiosos por fotografia dos 0 aos 100 anos!” https://www.facebook.com/events/380892352558908/
“Esse ano o FotoClube Lambe-lambe estará em Poços de Caldas – MG junto com o projeto Janela Mágica. Mais detalhes 2º Encontro do FotoClube Lambe-Lambe. Serão 12 fotógrafos de 5 estados. Estaremos na praça demostrando o processo fotográfico com a câmera laboratório. Essa ação também faz parte do 3º Lambe-lambe Day – Dia Internacional com a câmera Lambe-lambe.” https://www.facebook.com/FotoClube-Lambe-lambe-479373575864616/
No dia 24 de agosto próximo, sábado, às 8h30 começa a próxima maratona, vai até a hora do almoço, no lugar de sempre, a Praça Alexandre de Gusmão que fica colada no Parque Trianon, na região da Av Paulista, próximo ao MASP. Para ver o evento no Facebook, clique aqui.
Aqui um mapinha para ajudar a vocês a se localizarem:
Recentemente descobri um canal no Youtube de dois caras dedicados à explorar o mundo em câmera lenta, olha só esse vídeo e perceba a força as pancadas do espelho no corpo e do obturador no fim do seu curso, veja as peças flexionando no impacto: