Beijos

Como não querer fotografar pessoas se beijando. Né!? É um pequeno acontecimento tão importante do cotidiano. “De certo que as pessoas querem se conhecer, se olham e se beijam numa festa genial…” já cantava o Brylho.

Não lembro bem qual foi o primeiro que fotografei, mas lá nos anos 90 eu comecei a juntar numa caixa alguns prints de fotos de beijos até que percebi que tinha uma coleção razoável. Dai fiquei cada vez mais atento e tive uma fase em que andava sempre com uma câmera preparada para os tais beijos.

No réveillon de 99 para 00 estava no Canadá, chegou a meia-noite numa praça lotada de gente, todo mundo comemorou, mas ninguém se beijou. Os canadenses e sua aversão aos “public displays of affection”.

É fato, o Brasil é o lugar para fotografar beijos.

E nos casamentos que fotografei profissionalmente nos idos de 2010 em diante, estava também sempre atento aos novos casais que se formavam na pista de dança madrugada adentro. Cheguei até a fotografar os casais que não deveriam ter se formado, mas que se formaram. Na dúvida, essas fotos ficarão na gaveta eternamente…

A primeira imagem aqui é na Rua Scipião, em frente ao Senac. Depois na balsa do Rio Grande para Delfinópolis, no Parque do Ipiranga e por fim no Barnaldo Lucrécia.

Lembranças de um tempo antes do smartphone

Era 1999, uma amiga me convidou para me juntar a um grupo de guias de turismo de aventura que planejava um feriado tranquilo numas cachoeiras em Minas Gerais.

Saimos em direção a Franca, SP, depois viramos em direção a Minas. Depois de uma longa espera na fila, atravessamos a represa do Peixoto numa balsa para chegar a Delfinópolis. Já na balsa eu fiz uma das imagens que mais me lembro dessa época: um casal se beijando em meio aos carros durante a travessia. Eu colecionava “beijos”, depois conto melhor essa história.

Chegamos a Delfinópolis já depois da meia-noite e fomos parar num camping que era conhecido deles. Lanterna, barraca, fogareiro, sleeping bag, uma câmera compacta, era o que todo mundo tinha na mochila. E se você precisasse de um parassol para sua câmera compacta, usava a mão.

Eu resolvi levar a minha Leica M3 com 50mm e uma Walz Wide com sua 35mm para algumas imagens mais abertas. Não fiquei por muito tempo com essa câmera Walz, mas eu adorava ela. Essa câmera era ali dos anos 60 ou 70. A maioria das rangefinders vinha com objetiva próxima de 45mm e telêmetro. Alguns outros modelos saiam com objetiva próxima de 35mm e nem sempre com telêmetro. Já tive essa da Walz que era sem telêmetro e também uma Ricoh Wide que tinha telêmetro. São câmeras simples, muito fáceis de usar.

Levei filme ISO 100, mas já não lembro a marca (possivelmente Orwo) e levei também uns rolos de Pan F e HP5 para coisas sérias. Esses rolos de filme ISO 100 não eram exatamente o que eu tinha de melhor na época e minha esperança era que algum probleminha pudesse tornar as fotos ainda mais interessantes (mas ainda não foi dessa vez que uma viagem inteira ficou coberta de fungos).

Cheguei a ampliar algumas imagens na época, mas nunca rolou um reencontro com aquele grupo e aquilo ficou guardado até eu começar a escanear as coisas fotografando os negativos com a Canon 5D Mark II já nos anos 2010 ou 2011. Acabei bem satisfeito com o contraste e os detalhes do filme. Depois de fotografar os negativos, passei pelo Lightroom e usei um preset que construi ao longo dos anos para a finalidade de converter esse tipo de imagem.

Dessa viagem renderam 5 ou 6 rolos de filmes, memórias incríveis tanto de um lugar maravilhoso como de vários banhos de rio. Dessas oportunidades que aparecem num momento de mudança, quando tudo está de pernas para o ar e nos põe a repensar a vida.

Achando novos lixos

No quadro de referências do meu TCC eu sempre lembro que incluí um lindo filme que Agnes Varda fez em 2000, entitulado Les Glaneurs et la Glaneuse. O filme é inspirado no quadro Des glaneuses, de Jean-François Millet, de 1857 que retrata um grupo de respigadeiras. Respigadeiras são pessoas que após a colheita adentram propriedades agrícolas e vasculham o chão em busca de alimentos que não foram colhidos e essa atividade é protegida por lei em boa parte do território francês. Nesse filme Agnes entrevista diversos tipos de pessoas sobre atitudes similares às das respigadeiras.

Uma das entrevistas é com um morador de Lyon que explica como a prefeitura o ajuda fazendo folhetos que informam dia, hora e local onde ele pode ir recolher coisas do lixo. Agnes questiona se o folheto na realidade não foi feito para quem quer se desfazer do lixo e informa onde a prefeitura vai recolher, eles riem e ele concorda.

Segui essa lógica reversa para começar a descobrir para onde vão os eletrônicos obsoletos nesse novo lugar onde estou. Aos poucos fui fazendo um rota que passa por esse locais no meu dia-a-dia e encontrando coisas que podem ser usadas para gerar imagens rudimentares ou para processar imagens também. Scanners mesmo, é difícil, hoje até vi um, mas era porta serial ainda, anterior ao USB, dai fica fora da minha alçada.

Enquanto isso a tinta que falta para a conversão da Epson R3000 está passeando pela Ásia e pelo Leste Europeu, mas um dia ela chega.

A história desse blog

Esse blog nasceu em Junho de 2005 quando eu começava a pensar no TCC do curso de bacharelado em Fotografia. Comecei pela plataforma Blogspot e mantive o endereço apenas para mim, eram notas para o texto.

O texto do nasceu da idéia de consolidar os relatos de processo que eu tinha escrito até então. Esses relatos eram desde colunas que escrevi para o Fotosite até artigos para o portal Fotopro. O assunto de cada um era sempre alguma quebrada ou estragada que eu tinha dado um jeito de usar para criar imagens. Juntei todos, expandi. Depois comecei a escrever sobre o ato de reaproveitar essas coisas fotográficas e procurar referências para ajudar num diálogo.

O texto ficou pronto, o orientador não me colocou nenhum empecilho muito grave, fui para a banca e me tornei bacharel no fim daquele ano.

Um tempo mais tarde, exportei e migrei para WordPress e dai comecei a incluir o endereço do blog em outros lugares. Comecei a publicar notas e fotos dos processos com os quais estava envolvido. Nunca tive compromisso com o blog, nunca tive muito público também. De certa forma o blog continuava sendo um exercício interno de anotar etapas, descobertas e frustrações do caminho.

Em diversos momentos pensei em mudar do português para o inglês. Mas me perguntava o que de bom os page views poderiam trazer também. Dai continuava em português.

Reler o texto do TCC foi se tornando cada vez mais incômodo. Os anos passam e a gente vai entendendo algumas coisas. Cada vez que reli, pensei que seria legal retomar o texto, rescrever diversas passagens, expandir outras, adicionar os artigos que vieram depois. Contas mais histórias.

Em 2019 finalmente me vi numa situação em que a insônia foi de encontro a esse antigo desejo. Comecei juntando tudo que eu já tinha escrito depois que se assemelhava em gênero e depois fui reordenando. Fiz diversas pausas, retomei mais tarde depois que já estava em Portugal. Com as restrições impostas pela pandemia, recentemente cheguei num momento em que posso dizer que reli e revi todo o texto.

Não está nada pronto, mas não me incomoda o texto tão ferozmente quando antes, só um pouco. Ainda existem histórias que estão faltando, mas já consigo imaginar uma nova etapa para tudo isso que contei aqui no blog e nos artigos por ai. Vou começar a desenhar um livro digital que possa ser baixado através das plataformas mais comuns. E torcer para o texto fazer mais e mais sentido.

Tentando entender o papel da fotografia analógica nos dias de hoje

Essa semana eu consegui ir ver algumas das exposições dos Encontros da Imagem de Braga. Muita coisa interessante de ver, mas poucas que realmente tocam meu coração.

Uma exposição em especial me atraiu pela imagem nos banners pela cidade e me chamou atenção com sua delicadeza e simplicidade.

Essa exposição de Carlos James Reeder tem apenas 14 imagens em tamanho A3+ (talvez). A montagem em si é simples, as molduras metálicas contem as fotos sem passe-partout. Finos cabos de aço prendem as molduras a barras no topo de divisórias já cheias de história e marcas de diversas exposições anteriores. O texto é um pouco pequeno, ou meus olhos estão um pouco velhos.

As molduras tem marcas também, isso incomoda um pouco a fruição do trabalho. O trabalho de impressão é preciso e o mesmo tom do fundo ligeiramente off-white está em todas as imagens, isso colabora muito para a sensação de união entre as imagens e fala imenso do trabalho envolvido na produção dessas 14 imagens.

As imagens mostram uma série de objetos em diversas camadas. As camadas por sua vez são criadas tantos pela disposição dos objetos no espaço do estúdio como pelo desfoque da objetiva da câmera. No plano de foto é possível até ver os detalhes da trama offset dos objetos impressos. Essa trama se confunde com o grão das imagens em alguns momentos. O assunto das imagens escolhidas para compor os objetos dentro das imagens contém ciência, tecnologia, trabalhos manuais. As composições são variadas e mantém um ritmo agradável na exposição. Não há um ponto de início e um ponto final, não falta intencionalidade ao trabalho também.

Peço licença para questionar duas frase desse texto. Não acho que as imagens sejam descontextualizadas aqui, mas sim recontextualizadas. Será que os adjetivos “disjointed and disorienting” não são um tanto pejorativos aqui? Será que subestimam a capacidade do observador de perceber o trabalho à sua maneira. Me parece que o artista já coloca suas intenções no texto até aquele ponto, ao chegar a essas duas frase, há um movimento de retração, um questionar o que foi dito.

Esses pequenos detalhes no texto me deixaram bem irritado naquele momento. Senti que aquilo queria estragar a fruição do trabalho, uma força que queria negar que eu tinha percebido do trabalho, começando por negar a intenção do trabalho. Talvez eu esteja pegando pesado demais…

Um inkset colorido para uma R3000 abandonada

Há uns dias apareceu por aqui uma Epson R3000 que estava parada por pelo menos um ano, depois de muito pouco uso ao longo dos seus 10 anos de vida. Ela ligou, o que é bom. Um cartucho (PK) está vazio, então não há muito que se possa testar do seu funcionamento.

A R3000 usa o inkset Ultrachrome K3 com as seguintes cores: Photo Black, Matte Black, Light Black, Light Light Black, Vivid Magenta, Light Vivid Magenta, Cian, Light Cian e Yellow.

Minha idéia para recuperar essa impressora era:
• conseguir uns cartuchos recarregáveis pelo Ali Express
• encontrar tintas pigmentadas na cores Preto, Magenta, Cian e Amarelo
• diluir as tintas como fiz com a diluição do carbono criando assim as faltantes

Consegui com um printer local uma série de cartuchos abandonados, entre eles esses da foto que estavam vencidos desde 2000. Busquei informações em diversos canais sobre eles e descobri que eram mesmo de corante, não de pigmento. Inclusive um colega num fórum sobre impressoras diz que essa tinta eram muito sensível ao ozônio e havia um papel Epson específico para fazer a cópia durar mais. Ou seja, meio complicado de reproduzir hoje em dia.

Os outros cartuchos, parciais dos que são usados na Epson 11880, devem servir para Cian, Magenta e Preto. Ainda falta um amarelo, mas a busca continua.