Nostalgia com os labs

O primeiro foi num quartinho dos fundos na casa da minha mãe. Acho que essa é a única foto que ainda tenho dele. Detalhe para o corte que fiz no tampo da mesa para poder fechar a porta do lab.

Depois cheguei a ter um por uns tempos na minha casa, ele foi desmontado e montado novamente quando voltei do ateliê com o lab. É confuso, mas mostro esse depois.

O seguinte foi quando morei no Canadá, ele era num canto da cozinha. Um tecido bege cobre as coisas nas prateleiras, mas não esconde a bagunça. Gosto de como a coluna do Elwood quase bate no teto.

Depois veio o ateliê na Tabapuã, esse foi o mais espaçoso e sensacional que eu já tive, uma pena que durou tão pouco. Mas foi bem aproveitado, fiz algumas cópias grandes lá e consegui padronizar a revelação de filmes, juntei mais tranqueiras e deixei ele bem cheio.

As fotos acima eram com ele arrumadinho (para mandar para uma revista), abaixo dois flagrantes do dia-a-dia. Detalhe para as duas copiadoras que faziam; a chave cair e para a câmera pinhole grandinha que eu descolei. As caixas de madeiras grandes eram resto de uma mudança e coloquei rodinhas para poder mudar as coisas de lugar mais facilmente no lab, dependendo da necessidade.

Mas já na Tabapuã, tinha um outro espaço que ia ganhando importância, veja a pilha de scanners esperando serem desmontados nessa imagem. Detalhe para esse monstro que rodava Windows 98 e para o parassol que eu instalei no monitor.

Mais tarde, no outro ateliê na Rua Tabapuã, esse espaço de experimentação digital mais crescer um pouquinho mais.

O laboratório da Itacema aparece nesse vídeozinho aqui, é bem apertado o espaço, mas dá para ter uma idéia.

Alinhamentos

Há previsão de alinhamento quase perfeito entre Júpiter e Saturno amanhã.

Pensando nisso visitei as imagens de uma viagem à Belém para cobrir o Círio de Nazaré que fiz em 1998. De novo fui buscar as imagens que fiz entre as imagens “oficiais” da cobertura. No meio daquele caos, acho que consegui alinhar algumas coisas.

Inesquecível o fato de que na hora de revelar esses rolos de Neopan 400 eu acabei optando por um tanque grande, daqueles para 8 rolos de 35mm. Enchi o tanque demais e não sobrou espaço para ar. Mesmo fazendo as inversões, o revelador agitou muito pouco e as bordas dos frames ao longo da perfuração do filme receberão mais revelação que o miolo do frame. Quanta asneira. Só resolvi isso razoavelmente quando fiz esses scans e criei um preset do Lightroom com degradês que deram uma maneirada no problema.

Maresias, 25 anos atrás

Acho que foi logo depois que meu pai morreu, dois amigos me convidaram para ir acampar, eles eram do Rio e tinham essa fissura com Maresias. Era verão, mas calhou de ser uma semana de chuva e mosquitos.

Resolvi levar uma Pentax Spotmatic com umas lentes diversas e Fomapan F21 vencido para usar em ISO 25. Eu tinha começado a trabalhar no jornal, então pensei em um conjunto de fotos como uma matéria, pensei em entrevistar pessoas, um monte de idéias. No meio desses coisas, fui fotografando algumas anotações sobre esses dias que passei lá e hoje penso que isso fala um tanto do meu estado de espírito.

Lembro de aprender com os amigos a fazer Miojo dentro da sopa Knorr. Lembro que tinha um casalzinho na barraca ao lado que gastava um pote de repelente todo fim de tarde após o banho e o cheiro deles deixava a gente protegido ali ao lado. Lembro de conhecer um figura que fazia pranchas de surf por lá e aprender com ele como era a sequência das camadas e dos polimentos.

A chuva inundou a barraca uma noite, encurtou o acampamento, na manhã seguinte embalei minhas coisas e vim voltando sozinho para casa. Curtindo a viagem.

Pela BR-101 (Piaçaguera) passando por Cubatão vi o céu plúmbeo, nuvens baixas, a vegetação molhada, um pouco de chuva. Que lugar lindo! Não tenho uma foto sequer, nunca consegui passar numa velocidade adequada, uma pena.

Como conheci o Botequim do Hugo

Era 1994 e eu estava participando desses encontros no MIS-SP, era uma coisa chamada Projeto Foto-de-Autor. Quinzenalmente nós sentávamos ao redor de uma mesa e mostrávamos o que vínhamos produzindo. Mas quando comecei eu não estava fazendo nada em especial, trazia cada semana uma coisa diferente, um experimento, uma tentativa. Resolvi então explorar um assunto e produzir uma série de imagens para poder aproveitar melhor essa oportunidade.

Do altos dos meus 19 anos, achei por bem explorar os botecos do meu bairro. Lentamente fui descobrindo um a um e levava as fotos para a reunião seguinte. Lá pelas tantas descobri o Botequim do Hugo ali na Rua Pedro Alvarenga, 1014.

Na época usava um papel Talbot que vinha do Uruguai, era 9x14cm e o acabamento era “seda”. Era usado pelos fotógrafos de jardim. Fiz cópias dos retratos como abaixo e levei lá de presente. Esse do Hugo aqui ainda estava lá em 2019.

Quantos amigos levei nesse lugar? Quantos jogos de Copa do Mundo assisti lá? Bah, nem dá para saber.

Em geral fotografava em Kodak Tri-X com objetivas 50mm f/1.4 ou 28mm f/2.8 na minha fiel Nikon FM2. Filme era puxado boa parte das vezes, para 1600 eu arriscaria dizer. Afinal eram os anos 90 e puxar era essencial nessas situações de luz.

Já falei antes do Projeto Foto-de-Autor, foi aqui nesse post.

Continuei morando ali perto e frequentando o botequim. O Hugo tinha o hábito de conversar com os carroceiros da região e fazer algumas trocas com eles. Aos poucos o Hugo juntou uma enorme coleção de slides 35mm que foram postos no lixo por diversos paulistanos e filtrados até chegar às mãos dele. De vez em quando, quando o bar não estava cheio demais, o Hugo puxada uma caixa e fazia uma projeção impromptu. Quando ele comprou uma TV nova para a Copa do Mundo, convenci ele a me emprestar os slides da últimas caixa, levei ao estúdio, fotografei uns 400 deles e montei um DVD para ele deixar rolando na TV.

Beijos

Como não querer fotografar pessoas se beijando. Né!? É um pequeno acontecimento tão importante do cotidiano. “De certo que as pessoas querem se conhecer, se olham e se beijam numa festa genial…” já cantava o Brylho.

Não lembro bem qual foi o primeiro que fotografei, mas lá nos anos 90 eu comecei a juntar numa caixa alguns prints de fotos de beijos até que percebi que tinha uma coleção razoável. Dai fiquei cada vez mais atento e tive uma fase em que andava sempre com uma câmera preparada para os tais beijos.

No réveillon de 99 para 00 estava no Canadá, chegou a meia-noite numa praça lotada de gente, todo mundo comemorou, mas ninguém se beijou. Os canadenses e sua aversão aos “public displays of affection”.

É fato, o Brasil é o lugar para fotografar beijos.

E nos casamentos que fotografei profissionalmente nos idos de 2010 em diante, estava também sempre atento aos novos casais que se formavam na pista de dança madrugada adentro. Cheguei até a fotografar os casais que não deveriam ter se formado, mas que se formaram. Na dúvida, essas fotos ficarão na gaveta eternamente…

A primeira imagem aqui é na Rua Scipião, em frente ao Senac. Depois na balsa do Rio Grande para Delfinópolis, no Parque do Ipiranga e por fim no Barnaldo Lucrécia.

Lembranças de um tempo antes do smartphone

Era 1999, uma amiga me convidou para me juntar a um grupo de guias de turismo de aventura que planejava um feriado tranquilo numas cachoeiras em Minas Gerais.

Saimos em direção a Franca, SP, depois viramos em direção a Minas. Depois de uma longa espera na fila, atravessamos a represa do Peixoto numa balsa para chegar a Delfinópolis. Já na balsa eu fiz uma das imagens que mais me lembro dessa época: um casal se beijando em meio aos carros durante a travessia. Eu colecionava “beijos”, depois conto melhor essa história.

Chegamos a Delfinópolis já depois da meia-noite e fomos parar num camping que era conhecido deles. Lanterna, barraca, fogareiro, sleeping bag, uma câmera compacta, era o que todo mundo tinha na mochila. E se você precisasse de um parassol para sua câmera compacta, usava a mão.

Eu resolvi levar a minha Leica M3 com 50mm e uma Walz Wide com sua 35mm para algumas imagens mais abertas. Não fiquei por muito tempo com essa câmera Walz, mas eu adorava ela. Essa câmera era ali dos anos 60 ou 70. A maioria das rangefinders vinha com objetiva próxima de 45mm e telêmetro. Alguns outros modelos saiam com objetiva próxima de 35mm e nem sempre com telêmetro. Já tive essa da Walz que era sem telêmetro e também uma Ricoh Wide que tinha telêmetro. São câmeras simples, muito fáceis de usar.

Levei filme ISO 100, mas já não lembro a marca (possivelmente Orwo) e levei também uns rolos de Pan F e HP5 para coisas sérias. Esses rolos de filme ISO 100 não eram exatamente o que eu tinha de melhor na época e minha esperança era que algum probleminha pudesse tornar as fotos ainda mais interessantes (mas ainda não foi dessa vez que uma viagem inteira ficou coberta de fungos).

Cheguei a ampliar algumas imagens na época, mas nunca rolou um reencontro com aquele grupo e aquilo ficou guardado até eu começar a escanear as coisas fotografando os negativos com a Canon 5D Mark II já nos anos 2010 ou 2011. Acabei bem satisfeito com o contraste e os detalhes do filme. Depois de fotografar os negativos, passei pelo Lightroom e usei um preset que construi ao longo dos anos para a finalidade de converter esse tipo de imagem.

Dessa viagem renderam 5 ou 6 rolos de filmes, memórias incríveis tanto de um lugar maravilhoso como de vários banhos de rio. Dessas oportunidades que aparecem num momento de mudança, quando tudo está de pernas para o ar e nos põe a repensar a vida.