Post sem imagens. Comecei o dia no cartório. Se você é brasileiro, nada adianta, você acaba tendo que ir resolver coisas lá. Depois fui levar minha inscrição no prêmio/concurso. Na esquina da Helvétia com a Barão de Limeira vi um motoqueiro no chão. Vi o homem em pé ao seu lado com um celular em uma mão, na outra uma pistola. Um estalo, o estampido logo antes da esquina era um tiro. O motoqueiro não era acidentado, era baleado, porquê? Imóvel. Entreguei minhas fotos (pensando porquê?). Fui atrás de mídias digitais virgens, discos rígidos, material de trabalho. Em todas as bancas via a foto da capa do jornal, o soldado, o cessar fogo. Descobri a cara que tem um Silicon Graphics, chamam de estação de trabalho, mas não passa de um computador. Vasculhei lojas de sucata (pensando porquê?). Lojas de fotografia. Almoço. Mais sucata. Para encerrar me deixaram ver o ensaio da orquestra, Carmina Burana, o que foi aquilo? Uma alternância de passagens suaves, fortes, contraste impressionante. Em certo momentos alguns instrumentos tem a chance de tocarem sós, para toda a sala, debelando sozinhos o silêncio. É verdade que um ensaio é cheio de pausas, por outro lado você tem a chance de ouvir o mesmo trecho sendo tocado diversas vezes com pequenas diferenças aqui e ali. Bom para aprender (e eu pensando porquê?). O caminho de volta foi pelas mesmas ruas das lojas de sucata, que nesse horário tinham mudado, o contraste tão intenso da peça clássica agora parecia bem pequeno. Esse contraste, da Rua do Triunfo depois das 20h, talvez seja o porquê. Um deles.
Autor: Guilherme Maranhão
Glossário do Flusser
Tem um glossário logo ali, cá em cima, nos tabs desse blog.
E sempre que eu entro ali para adicionar uma palavra, ou mesmo ler o que já escrevi sobre alguma outra, eu penso no glossário para uma futura filosofia da fotografia. Esse é o glossário que está nas edições da Filosofia da Caixa Preta de Vilém Flusser.
O glossário de Flusser tem verbetes sensacionais, curtos e pungentes. Tais como o primeiro de todos:
“Aparelho – brinquedo que simula um tipo de pensamento.” (sic)
E é só isso mesmo, até porque mais não é necessário. Outro:
“Informação – situação pouco-provável.” (sic)
E por ai vai. Curioso é ver que o esqueleto do livro está no glossário, e ao contrário do que se imaginaria, para entender completamente o glossário é necessário ler todo o livro.
Kodabromide peso simples

Em 1998, a exposição do trabalho sobre Osasco ficou assim. O papel fotográfico usado para ampliar as cópias veio de uma pilha de envelopes amarelos antigos que estava sob uma mesa do laboratório do jornal. Eles não ampliavam p&b fazia mais de 10 anos e esses kodabromides passaram toda sua vida no ar condicionado. Foi uma supresa sensacional ver aquilo funcionando, era papel fibra peso simples, tamanho 30x40cm, tom frio.
Protar 1:18 f=14cm

Uma lente que eu curto usar na câmara 8×10″. É uma grande angular do início do séc. XX. A abertura máxima é f/18. É bem pequena, e no entanto funciona bem para uma lente daquela época. É quase uma “rectilinear”, distorce bem pouco as linhas paralelas na imagem.
Rebaixamento de cópias

Essa foto de Eugene Smith, inspecionando uma cópia sendo rebaixada veio do livro de Joe Demaio sobre construção de laboratórios. Não há crédito no livro, presumo que seja do próprio Joe, que visitou inúmeros laboratórios de fotógrafos pelo mundo. Me corrijam se eu estiver errado. O fato é que o Eugene Smith usava muito a técnica do rebaixamento, fazia cópias mais escuras que o normal e depois ia clareando as imagens na luz até encontrar o que procurava.
Essa última semana eu também rebaixei algumas fotos com a fórmula básica do Farmer’s. O papel era o Ektalure e o resultado não podia ser pior. Pela primeira vez as fotos ficaram todas manchadas ao entrar no banho rebaixador. O incrível é que as fotos mostravam claramente o formato da tela de nylon onde elas tinham ficado secando. Ou seja, muito provavelmente a minha lavagem não foi suficiente para retirar os restos de fixador e isso provocou uma reação mais intensa do rebaixador em alguns locais, reproduzindo a superfície quadriculada da tela.
Segue um copy-paste de um artigo velho que escrevi sobre o assunto:
“No passado, fotógrafos como Eugene Smith e William Klein não tinham o
Photoshop para os ajudar a conseguir os efeitos desejados no
laboratório. Aos poucos cada um desenvolveu uma série de recursos,
técnicas e truques, para fazer o que fizeram sem a ajuda de
computadores.
Provavelmente ninguém tinha mesmo era paciência com Eugene Smith.
Existem boatos que seus negativos eram horríveis, mal expostos,
bloqueados. Só mesmo ele entraria no laboratório para às vezes levar 5
dias para copiar um negativo. Para isso ele contava com a ajuda de uma
vitrola e uma coleção de mais de 25 mil vinis. Outros boatos dão conta
de uma televisão com filtro vermelho na frente da tela dentro do
laboratório de Smith.
O fato é que para ampliar negativos horríveis existiam algumas
técnicas preciosas e Eugene as conhecia: o rebaixamento e a difusão. O
rebaixamento (feito com ferricianeto e tissulfato) cria brilhos
inexistentes no negativo, dá vida a imagem. A difusão ele usava para
apagar o grão de imagens muito ampliadas, já que volta e meia ele
tinha que recompor a imagem no ampliador.
Klein por sua vez usou a difusão para outro fim, ele inventou um jeito
de transformar as baixas luzes das suas cópias com difusão seletiva em
papéis de grão de contraste variável. Ampliando as fotos em duas
exposições, com dois filtros de contraste diferentes e aplicando um
difusor sobre o filtro de contraste mais alto, Klein conseguia que
suas baixas luzes viessem fantasmagóricas!
É isso, existem momentos em que mesmo o Photoshop deixa a desejar. E
às vezes você tem aquele papel fotográfico no laboratório que está
meio velho, esquecido no fundo da gaveta (ou comprou um Ektalure
vencidaço, desses que apareceram no balcão da Fotoplan na época em que
andou faltando papel fotográfico em Sampa). Para dar um brilho
especial a uma fotografia, gerar efeitos diferentes, bastam umas
químicas diferentes para misturar ao seu revelador fotográfico ou até
um filtro empoeirado.
A adição de brometo de potássio ao revelador do papel por si só pode
conter o véu de base formado pelo envelhecimento do papel, se isso não
for suficiente, o branqueamento do papel após a revelação pode ser a
solução. Dai a base do papel volta a ser branca, sem presença de prata
por ali.
A utilização de reveladores potentes e muito alcalinos, típicos de
processos gráficos, pode dar resultados inesperados com papéis
fotográficos comuns, grandes diluições e tempos de revelação
diferentes, um processo conhecido por ai como Lith Printing. Vale a
pena experimentar: dilua revelador de chapa gráfica para 1:20 e
experimente revelar o papel fotográfico por 30 ou mais minutos, no
escuro total (sem luz de segurança) e sem agitação.
Usando papel de contraste variável, calcule tempos para ampliação
usando duas exposições: uma para o filtro 1 e outra para o filtro 5.
Na hora de expor com o filtro 5 insira um filtro difusor, ou mesmo um
filtro UV bem empoeirado (deixe ele do lado de fora da sua janela
durante uma semana) no feixe de luz do ampliador. As baixas luzes
ficam borradas, as altas não. É um efeito que pode fortalecer bem uma
imagem.”
Solarização
Nas minhas buscas sobre a invenção do ampliador fotográfico, procurando por histórias de um cara chamado Draper, que foi quem primeiro descreveu a ampliação de uma fotografia, segundo um website sobre a história da fotografia, acabei esbarrando em uma preciosidade. Um livro sobre solarização disponível na rede: Solarization Desmystified, de William Jolly. Um artigo interessante de Ed Buffaloe.