Verbete.art #5

A revista eletrônica de arte contemporânea Verbete Art número 5 está no ar! Vale a pena conferir!

VERBETE.art #5 Roberta Dabdab, Rodrigo Zeferino e Rosângela Rennó VERBETE.art #5 Especial Fotografia VERBETE.art #5 Guilherme Maranhão, João Castilho, Klaus Mitteldorf, Leonardo Ramadinha, Marco Antonio Portela, Marcos Bonisson, Paula Trope VERBETE.art #5 Ana Regina Nogueira, Anna Khan, Deborah Engel, Demian Jacob, Eder Chiodetto, Eliana Bordin, Flávio Colker, gUi Mohallem VERBETE.art #5

Lab da Folha

A presença da Colex no meio do estúdio e o cheiro dentro dela me fizeram pensar em alguns eventos e personagens do passado.

Entre 1997 e 2000 eu passei um bom tempo na sala da Fotografia da Folha de S. Paulo. Eu fazia uns frilas e volta e meia me via ali esperando os filmes revelarem, esperando cópias, esse tipo de coisa. O lugar era sempre agitado. Ali conheci dois personagens em especial, o Vailton e a Luciana.

A Luciana operava um pequeno minilab (só impressora) que transformava os negativos 35mm usados pelo pessoal em cópias 15x21cm bem rudimentares. O porta-negativo havia sido recortado com uma lima para mostrar todo o conteúdo do negativo na cópia. Luciana se esmerava controlando densidade, amarelo, magenta e cian das cópias. A lente do minilab não cooperava e as fotos sempre tinham um foco que deixava a desejar, eu me sentia o único a perceber aquilo, então nunca falava nada.

Luciana era conhecida por ali pelo seu linguajar único e peculiar, que enquanto parecia uma barreira para se chegar a ela, logo se mostrava uma maneira diferente de conhecer o mundo. Ela sentada ali na máquina, voltada para a janela do lab que dava para a sala, observava a ida e a vinda de fotógrafos e mais fotógrafos, todos com suas bolsas e egos “com ou sem catupiry”.

Vailton rodava todo o setor, supervisionava tudo. Trazia consigo a experiência de quem já havia visto a passagem do p&b para o cor e por ai vai. Com ele se conseguia filme, ou seja, você trazia 6 filmes usados na pauta e entregava para ele, ele já te dava 6 virgens para a próxima. Sem filme exposto, sem filme virgem.

O lab da Folha tinha uma parte de clara que fazia a forma de um “U”, na sala de entrada Luciana e sua impressora, a saída da processadora de papel em folha, os escaninhos, no meio o estúdio e escondido nos fundos o lab de filmes.

No interior do “U” ficava um lab escuro com dois Leitz Focomat 35mm. De lá saiam pela processadora as cópias mais refinadas que a Folha Press, por exemplo, usava para vender imagens e também todos os contatos em papel 24x30cm que os jornais todos usavam para editar e arquivar suas fotos. Eu ficava de papo com a Luciana olhando o que saia pela processadora e caia na cesta. Seu som era interessante e de vez em quando não saia nada e logo alguém percebia que um papel tinha ficado preso lá no meio. Um contato importante era aguardado com ansiedade. Eram muitos contatos e no fim do dia as caixas de 24×30 vazias se empilhavam. Eu levava as caixas vazias embora e as usava para guardar os meus printfiles com meus filmes p&b revelados em casa.

Um dia, ali mesmo, ao lado do minilab, perguntei ao Vailton o que eram uma série de envelopes amarelos antigos sob a bancada que dava para os scanners do fundo da sala. Eram papéis fibra p&b do passado da Folha, papéis para ampliações 30x40cm que eram feitas ali no lab, envelhecendo ali no chão. Ganhei esses papéis de presente e com eles fiz a exposição de Osasco no CCSP (1998).

CCSPosasco02

Certa vez pedi uma pesquisa no arquivo atrás de todas as pautas que eu tinha feito por lá. Juntei uns filmes escolhidos e parti para aquele mesmo lab cor com uma caixa de papel que comprei no centro, passei uma manhã de domingo tranquilo no lab da Folha ampliando meu próprio portfolio. Vailton me mostrou o básico do lab cor e eu me virei pela primeira vez com o cheiro da processadora e o calor da chapa metálica onde se apoia o papel na hora de colocá-lo lá. As cópias saiam secas e os olhos deles dois serviam de balizas para encontrar o tom correto e as dicas de quantos pontos de magenta deveriam entrar e quantos cian deveriam sair.

carreteiro

zoo

ginasta

Lab cor é uma experiência muito prazeirosa com uma boa processadora fazendo todo o trabalho difícil. Essa vez na Folha foi a primeira, depois tive essa oportunidade uma vez no Canadá, num desses labs que se aluga por hora e depois no Senac algumas vezes nos idos de 2004 e 2005. A Colex de Uberlândia promete momentos de nostalgia num futuro próximo.

Lençóis Maranhenses

Na estrada para Barreirinhas. Um poço de água escura, quatro meninos brincam. Nus. As casas têm massa corrida e tinta só na face que dá para a estrada. O chão virando areia ao longo da estrada. Poucas flores, folhas ainda verdes da chuva que passou, mas há nuvens. Ao longo do dia elas aumentam, depois somem. Casas de pau a pique. Alagados. Buritizais. Cavalinhos. Uma senhora de blusa azul lava uma roupa amarela numa dessas lagoinhas. O fio de eletricidade beira a estrada. Nas casas cadeiras de plástico de frente para televisores. Uma cerca. Uma paineira ainda com folhas e sem frutos. Uma parabólica. O verde e a areia. O povoado de Jaburú (sic). Mandioca brava. Guaraná Jesus. Caninha do Engenho. Quebra-molas. A cerca da casa é o varal. As cores não combinam. O Sol dá brilho a tudo. A ondulação da estrada obriga a ir pela contramão. Vaquinha magrinhas. Cactus. Um riozinho e mais roupa sendo lavada. Dois cavalos. Pequenas flores vermelhas no meio de arbustos. Algodão aqui e ali (afinal um dia boa parte do Maranhão foi plantada com ele).

chaveiro

Mais adiante chegamos a Caburé. A voadeira nos leva até a ponta da areia (onde o Rio Preguiças encontra o Oceano Atlântico). Desço do barco, meu pé encontra algo duro. Um peixe madeira. Um chaveiro de um quarto de pousada. Ninguém sabia dizer qual pousada. Ficou na minha bolsa e voltou comigo.

Para Uberlândia buscar uma Colex

SP-348. SP-330. BR-050.

Ida e volta somaram um pouco mais de 1200Km.

O propósito era recuperar um pouco de história. Fazer uma breve arqueologia da fotográfica analógica.

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No caminho cerrado. Agradável.

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Quem se habilita a dar um novo lar para esse cara ai em cima?

Descanso antes do retorno.

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De volta, idéias e projetos.

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