Recortes antigos • Fotojornalismo

Desencavei um monte de scans de recortes antigos. Esses recortes iam para o lixo em 2016. Minha mãe gentilmente se ofereceu para escanear todos. E isso ficou guardado até recentemente. Tive que encontrar umas informações sobre as fotos que eu fiz sobre a história da explosão do Osasco Plaza Shopping em 1996. Acabei gastando um tempo vasculhando aquilo tudo. Acho que fiquei surpreso de ver as coisas que eu fazia há quase 30 anos.

Entre 1995 e 1997 estive como freelancer para o jornal O Estado de São Paulo e para o Jornal da Tarde. Coisas do dia a dia da cidade, nada muito sério ou grave, ou seja features, no hard news. Operação Magia Negra diz a legenda da imagem, esse foi um dia interessante: circulei com uma patrulha da polícia pelos cemitérios da cidade a procura de pessoas praticando rituais religiosos não autorizados.

Usava mais a 50mm e as teleobjectivas, raramente apelava para a grande angular.

Ainda em 1997 passei a trabalhar para o jornal A Folha de São Paulo. Tentei incorporar uma linguagem um pouco mais dinâmica, comecei a usar mais a 24mm e me aproximar de tudo. Também comecei a ver mais imagens impressas em cores. O ano era 1998 e tinha gente a descobrir a internet. E, aparentemente, eu já estava lá para fotografar (em filme). Acredito que usei a 24mm e virei a câmara na diagonal because all cool kids were doing it. E como não notar aquele Brad Pitt ali na parede da ginasta, ele ajuda a datar essa imagem.

Sobre a 24mm, no início usava a da Nikon, depois achei uma Tokina 24-40mm/2.8 que andou comigo bastante. Ainda tenho saudades daquela lente, era bem prática como lente única. E foi com ela que eu fiz a foto a seguir.

Um dia em especial estava contratado para trabalhar como assistente de uma fotógrafa de estúdio. Quando chego ao estúdio, descubro que ela faria ali a foto oficial da campanha Lula/Brizola. Negociei com o assessor para fazer um making of em exclusivo e já liguei para o jornal para negociar a pauta (nessa época eu era freelancer avulso). Minha primeira capa pela Folha.

O departamento de fotografia da Folha de São Paulo tinha naquela época uma estrutura de trabalho mais horizontal. Dentro disso duas coisas eram importantes: um procedimento claro e objetivo de como submeter pautas novas pelos próprios fotógrafos (em geral os fotógrafos cumprem as pautas ditadas pela redação, mas na rua algo pode saltar aos olhos e nós tínhamos como sugerir ou submeter isso facilmente) e uma pesquisa diária com leitores que chegava ao departamento contendo informações de como os leitores tinham percebido as fotografias do jornal do dia anterior.

Chegando de volta de uma pauta, numa tarde, vi essa cena num posto de gasolina abandonado ali na Vila Buarque. Conversei com aquele homem, pedi sua autorização para fotografar, colhi uns dados, anotei uma frase dele. No dia seguinte essa imagem me rendeu número 1 em recall (sem o jornal na mão, era a fotografia que mais leitores se lembravam de ter visto).

Depois de alguns anos fotografando essas pautas em jornal, a evolução natural era procurar as revistas. Era a possibilidades de ganhar um pouquinho mais e ter uma pouquinho mais de tempo livre.

Repensando as pinholes

Tudo começou com a tal Super8 que eu consertei. Falei dela aqui no post do dia 23 de fevereiro de 2023. A sério? Sim! 23/02/2023.

Estava com um deadline do Festival de Avintes na cabeça, algo relacionado ao Dia Mundial da Fotografia Estenopéica. E comecei a pensar em câmaras para construir. Essa ideia deu origem a uma conversa, mas isso talvez vire algo mais um dia. Mas decidi não construir nada agora.

Há muitos anos que eu não fazia uma fotografia estenopéica, ou pelo menos eu pensava assim. Tinha esquecido a solargrafia do ano passado. Fui olhar a câmara que eu usei, não era o que eu queria.

Queria usar filme raio-x, porque o revelador estava pronto. Lembrei da câmara 13x18cm inspirada na do Bill Brandt.

Quando percebi já tinha preparado o furo, colado numa placa orfã para dessa minha point-and-shoot de 13x18cm. Num ímpeto, fui para a garagem. Tem esse scanner que eu peguei no lixo, estou tentando fazê-lo voltar a funcionar, a luz já acende quando ligo na eletricidade. Com a luz ligada, fiquei dançando com ele sobre minha mesa de trabalho, por uns 15 minutos.

Pronto, a chapa foi exposta.

Medi a temperatura da água, era 13,6C. Dobrei a quantidade de Rodinal, dobrei o tempo de revelação. Já está.

Fiz outras imagens além dessa, escolhi uma para mandar.

Passo tanto tempo sem considerar o pinhole, mas quando o faço, tudo vem tão fácil. É dessas coisas que vem de tanto tempo atrás, que ainda estão comigo e, com sorte, sempre estarão.