Revelador para alto contraste

Da página 140 do livro The Darkroom Cookbook de Stephen Anchell eu tirei a fórmula do revelador de papel fotográfico Agfa 108. Fazendo a conversão para volume a fórmula fica mais ou menos assim: uma colher e meia de chá de Metol, 5 colheres de chá de Sulfito de Sódio, 2 colheres de chá de Hidroquinona, 2 colheres e meia de sopa de Carbonato de Sódio e 20ml de solução a 10% de Brometo de Potássio para 1 litro de água. Não é necessário diluir para usar, fica forte e rápido.

É uma fórmula de alto contraste para filmes e eu a tenho usado com muita frequência nesses últimos anos, até porque a maioria dos papéis que eu uso estão ligeiramente velados. O brometo ajuda a manter esse véu baixo e nem sempre eu tenho que rebaixar a cópia depois de fixada.

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Durante anos eu acreditei que esse revelador era para papéis e usava ele sem problemas, aparentemente tive muita sorte, até um certo dia. Tive muita dificuldade com alguns papéis e realizei um teste há uns dois anos atrás, foi quando eu constatei o Agfa 108 e o Dektol causavam véu de base similares e comecei a pesquisar melhor. Acabei descobrindo a literatura original da Agfa e ele era listado como revelador de filme de alto contraste.

Desde então venho usando Kodak D-64b e GAF-110 com melhores resultados com os papéis realmente velados.

Editado em Junho de 2015.

O que é fotografia?

Comecei a escrever mais uma coluna e senti falta de uma ajuda em
algumas questões, enviei o texto a um amigo, o fotógrafo e professor
Luish Coelho, em busca de uma discussão. O que se segue é nossa
correspondência:

Isso seria uma coluna para o Fotosite – pretencioso?
O que é fotografia?

Estava preparando uma aula e sai a cata de textos para mostrar aos
alunos, coisas aparentemente simples como os conceitos de fotografia,
jornalismo e fotojornalismo que provocassem discussão em sala. A
Wikipedia é sempre razoável para grandes temas, que acabam sendo
editados e reeditados várias vezes, já com fotojornalismo, por
exemplo, ainda é confusa. Alguém blogou o conceito de Jorge Pedro de
Souza para fotojornalismo e isso salvou o dia, ele é português e
escreveu “Uma História Crítica do Fotojornalismo Ocidental”. O Masao o
citou em uma de suas colunas mais antigas, sobre ética no jornalismo.
De qualquer maneira fiquei insatisfeito com o conceito que eu
encontrei buscando “O que é fotografia”, talvez por ter encontrado um
tão bom para fotojornalismo. Muita etimologia, pouca ontologia na
Wikipedia. Acho o conceito bastante para disparar uma discussão, mas
será bastante para descrever a Fotografia numa enciclopédia?

O conceito apresentado pela Wikipedia para fotografia no dia 31 de
janeiro de 2008 era o seguinte:
“Fotografia é uma técnica de gravação por meios mecânicos e químicos
ou digitais, de uma imagem numa camada de material sensível à
exposição luminosa, designada como o seu suporte.
A palavra deriva das palavras gregas φως [fós] (“luz”), e γραφις
[grafis] (“estilo”, “pincel”) ou γραφη grafê, significando “desenhar
com luz” ou “representação por meio de linhas”, “desenhar”.”

Já imagino Flusser discordando, que dirá o pessoal do MRFR19 ou do
FVD. Vilém Flusser escreveu “A Filosofia da Caixa Preta – Ensaios para
uma futura filosofia da fotografia”. Começa que o conceito proposto
pela Wikipedia explica mais como fazer e fala pouco do resultado, das
tais fotografias. Cismei que na própria etimologia apresentada há a
idéia de representação, mas no conceito da Wikipedia a tal
representação talvez exista implícita dentro da palavra imagem, mas
não está explícita.

Busquei ajuda nos conceitos presentes nesse livro do Flusser. O
primeiro capítulo começa com a seguinte frase: “Imagens são
superfícies que pretendem representar algo”. Sucinto, simples,
abrangente. O segundo capítulo, assim: “A imagem técnica é a imagem
produzida por aparelho”. O terceiro capítulo trata de explicar como é
o tal aparelho fotográfico, que é algo mais abrangente do que câmara
fotográfica. Existem outros aparelhos, como vídeo ou web.

Bolar um conceito básico de fotografia fica fácil partindo desses
textos: Fotografia é um tipo de imagem técnica. Continua abrangente e
para que se torne mais simples talvez pudéssemos adicionar a ele duas
explicações internas: Fotografia é um tipo de superfície, que pretende
representar algo, produzida por aparelho.

Resta uma pergunta dentro desse conceito: que tipo de imagem? Imagino
a fotografia em expansão nesse momento, tentar responder a essa
pergunta apressadamente é tentar limitar o que é fotografia e o que
não é. É bom lembrarmos que vivemos num mundo em que se faz vídeo de
foto e foto de vídeo.

A que Luish Coelho respondeu da seguinte maneira:

“Esta pergunta me parece uma daquelas perguntas mutantes, para a qual
sempre teremos uma resposta diferente de acordo com a época em que a
fizermos.

Hoje, o que é fotografia?
A tentativa de resposta me parece pertinente para uma coluna, um site
enciclopedico e até uma dissertação de mestrado.

Achei a coluna boa, pretensão seria achar que a pergunta já está respondida.

Fiquei atento ao parágrafo em que você diz:
>>>Bolar um conceito básico de fotografia fica fácil…

Nele, creio que dizer que é um tipo de imagem técnica é bastante
simples e quase suficiente (se o leitor se embarafustar pelo conceito
de imagem técnica adentro). No entanto, dizer que é um tipo de
superfície… humm, não sei não, muito preso ao papel, não acha?
Flusser diz que é uma superfície e ponto. Um tipo de superfície me
parece mais complicado que um tipo de imagem técnica.

A idéia de que imagens pretendem representar algo tambem é polêmica, não acha?
Ajudei?”

Devolvi assim:

> não sei não, muito preso ao papel, nao acha?

Pelo contrário, a palavra superfície ao meu ver consegue juntar tanto
o papel quando o tubo de raios catódicos em um único conceito e isso
eu acho que é sensacional no Flusser. Porque graças a isso quase todos
os aparelhos que surgiram depois do livro continuavam sendo incluídos
nele, porque de um modo ou de outro eles eram superfícies, a TV, o
LCD, a parede, uma cortina de fumaça onde se projeta algo, não
importa, são superfícies para a física porque refletem a luz e isso as
inclui nesse conceito.

> parece mais complicado que um tipo de imagem tecnica.

Pretendia usar a palavra tipo para dizer que existem outros tipos de
imagem técnica, dentre eles o vídeo.

> a ideia de que imagens pretendem representar algo tambem e’ polemica, não acha?

Acho que pode haver muita discussão se os autores chegaram às suas
imagens através do acaso ou da pretensão. No entanto, o resultado
final, a imagem, para mim, sempre tenta representar algo,
independentemente da intenção do autor. Seja apenas uma superfície
branca, pode gerar uma boa discussão sobre a crise de conteúdo, assim
comprovando que ela representou algo para algum ser humano em um dado
momento, loucura minha?

Foto-Montagem e Arte

Da série Livros Obscuros da Fotografia Brasileira – Essa é a capa do livro de Francisco Azsmann, onde figura a fotografia entitulada “Hipnose”. O livro é composto de uma série de memoriais descritivos das produções fotográficas do autor, muito interessante no que diz respeito à fotografia, técnicas de laboratório, estrepulias no ampliador.

No entanto, às vezes é difícil entender de onve vem a intenção de certos comentários, coisa que não se espera de um livro fotográfico. Por exemplo, no trecho sobre a fotografia entitulada “Três Vícios”, o autor escreve o seguinte: “Certa vez. u`a moça cheia de bôa vontade, quiz colaborar com a arte e ofereceu-se para posar, como modêlo.” (sic) E mais adiante o autor continua: “Por uma questão de cortezia não pudemos dizer que não iríamos fotografar. Era bonitinha, porém, quando se despiu, verificamos que, para um nú artístico, não serviria, por deficiência física. Escondemos, de seu corpo, tudo aquilo que era possível…” (sic).

Já a explicação de como o rebaixador num pincel semi-seco foi usado para encurtar as pernas da moça é boa, apesar de tudo. Sobre uma chapa de vidro, Azsmann coloca os dois negativos em registro (como devem estar na montagem final) ambos com a emulsão para cima. Sendo o negativo a ser rebaixado o que fica exposto. Assim, ele vê onde há conflito nas imagens e com o pincel remove densidade do negativo a ser rebaixado nas áreas que escolhe.

Azsmann usa a fotomontagem essencialmente para recriar imagens feitas com uma grande angular imaginária ou com profundidade de foco infinita, mas o livro também ensina a transformar dia em noite em uma foto p&b e lembra que não está com pressa, não corre e não cai.

Foto-montagem e Arte

Jardim de Procureur

No século XIX a mãe do meu bisavô veio morar no interior de Minas Gerais. Leocadie Procureur, Vovó Leocádia como era conhecida, largou a facilidades de Bruxelas, pegou muita estrada de terra no interior do Brasil e chegou a Itabirito, que mal existia. Seu marido brasileiro fundou a Usina Esperança que tinha uma produção importante e quase única no Brasil daquela época: ferro-gusa. O irmão mais novo da Vovó Leocádia, Charles Procureur ficou na Bélgica e teve um filho, Jean, amante de flores, fotógrafo amador, engenheiro fascinado por um produto tão novo na Europa do século XX como o gusa no Brasil do XIX, o plástico.

Na década de 1930 Charles morreu. A situação na Europa não era das melhores e Jean iniciou correspondência com sua tia Leocadie, decidindo mudar para o Brasil com mulher e dois filhos, um menino e uma menina. Vovó Leocádia chegou a oferecer pouso em Itabirito, mas Jean preferiu ir em direção ao pólo industrial brasileiro da época, São Paulo, com seus conhecimentos em plástico e formação de engenheiro.

Jean se estabeleceu na zona oeste da cidade, próximo ao Parque da Água Branca e só finalmente em 1955 consquistou cidadania brasileira. Nesse meio tempo construiu uma pequena manufatura de brinquedos de plástico e se divertiu com a fotografia no seu tempo vago, chegando a fazer alguns trabalhos.

Sua técnica e sua composição eram apuradas. Suas paixões foram sempre os cisnes e as orquídeas, mas seus assuntos giravam em torno de tudo que havia a sua volta. Seu arquivo (que conheci agora em Belo Horizonte) guarda uma enormidade de experimentos fotográficos, estéticos e eróticos. Sua câmara apontava com desejo em várias direções: a cidade que crescia a sua volta, as mocas bonitas do Brasil, os filhos brincando no parque.

Para Jean, com suas próprias fotos, eu fiz um jardim.

Jean Procureur