Olhando para trás brevemente

olha… eu fico pensando o que essa história de lixo já me fez fazer. às vezes acho engraçado quando repito pela milésima vez que meu cartão de visita é um pedaço reaproveitado de foto em papel fibra com um carimbo no verso. as pessoas olham, e ficam em dúvida. será isso bom?
eu não sei ao certo. às vezes penso que sacrifico minha carreira profissional com essas besteiras. pelo menos não sacrifico o papel, que iria para o lixo.

A procura

noite de insônia. e o vizinho do 303 tem companhia. dai já viu, dormir fica bem difícil. meu! o cara ainda não aprendeu a colocar uma toalha entre a cabeceira da cama e a parede. mas falando de lixo, e do papo com a mocinha de santo andré: lixo, ou o que quer que seja, enfim, comecei a juntar imagens que já existem disso, e acho até que descobri que talvez já haja um trabalho de fotografia de lixo e de lugares onde ele pode ser encontrado. já disse que meu é lixo?
achei um bilhete escrito para a menina do 203 em fevereiro, da onde extraio a seguinte passagem que se refere à uma imagem da série das cadeiras:
“para mim ela é lixo de todas as formas. as cadeiras ficavam ali abandonadas nesse galpão, cobertas de poeira, sem ninguém para sentar nelas. eu até levei umas para casa, e elas me acompanham até hoje. (…) e acho que no fundo fiz isso porque na hora, as cadeiras não eram tão importantes para mim. ingenuidade a minha. e sorte. eu diria.
eu fico maravilhado com esse tipo de possibilidade: reconstituir a vida em um monte de coisas quase mortas.”
coisas quase mortas? será assim que vou chamá-las?

A tese

falei com meu chará. perguntei se ele achava que a minha tese era legal. a minha tese? nossa condição não nos permite produzir em quantidade sem depender de um fluxo de dinheiro grande, a apropriação (lá vou eu usando essa palavra) nos permite produzir mais com menos. a nossa situação produtiva melhora com o uso dos materiais velhos, abandonados, achados, procurados no lixo, etc e tal. enfim, apenas uma tese. eis que acho também que essa facilidade financeira gerada pela inserção desses materiais no processo produtivo alivia a mente do artista das questões mais palpáveis, dá uma tranquilidade que o artista consegue traduzir em criatividade mais ampla. enfim, apenas uma tese. é verdade que penso que o acaso tem um papel importante, e nos força a aceitar uma série de coisas que não aceitaríamos caso estivéssemos pagando, e caro, por cada filme e cada cópia em papel. mas a tranquilidade é de ouro.

Ponta pé inicial

tô começando cedo a pensar em TCC. mas ontem, no café, discutia a palavra “apropriação”. de fato, a palavra seria quase ideal para falar do que eu faço com aquilo que chamo de lixo. mas a palavra vem carregada de rennóismos, e isso é um fator complicante.
procuro uma palavra que possa descrever o ato de aceitar uma doação de um material fotográfico, ali abandonado nos fundos de uma loja de fotografia, e na sequência, utilizar o material para criar um trabalho fotográfico. o material é adquirido de uma forma especial, de pessoal nenhuma, e não é aceito pela comunidade fotográfica comercial, dai o fato de estar abandonado. como classificar essa situação?