Foto-Montagem e Arte

Da série Livros Obscuros da Fotografia Brasileira – Essa é a capa do livro de Francisco Azsmann, onde figura a fotografia entitulada “Hipnose”. O livro é composto de uma série de memoriais descritivos das produções fotográficas do autor, muito interessante no que diz respeito à fotografia, técnicas de laboratório, estrepulias no ampliador.

No entanto, às vezes é difícil entender de onve vem a intenção de certos comentários, coisa que não se espera de um livro fotográfico. Por exemplo, no trecho sobre a fotografia entitulada “Três Vícios”, o autor escreve o seguinte: “Certa vez. u`a moça cheia de bôa vontade, quiz colaborar com a arte e ofereceu-se para posar, como modêlo.” (sic) E mais adiante o autor continua: “Por uma questão de cortezia não pudemos dizer que não iríamos fotografar. Era bonitinha, porém, quando se despiu, verificamos que, para um nú artístico, não serviria, por deficiência física. Escondemos, de seu corpo, tudo aquilo que era possível…” (sic).

Já a explicação de como o rebaixador num pincel semi-seco foi usado para encurtar as pernas da moça é boa, apesar de tudo. Sobre uma chapa de vidro, Azsmann coloca os dois negativos em registro (como devem estar na montagem final) ambos com a emulsão para cima. Sendo o negativo a ser rebaixado o que fica exposto. Assim, ele vê onde há conflito nas imagens e com o pincel remove densidade do negativo a ser rebaixado nas áreas que escolhe.

Azsmann usa a fotomontagem essencialmente para recriar imagens feitas com uma grande angular imaginária ou com profundidade de foco infinita, mas o livro também ensina a transformar dia em noite em uma foto p&b e lembra que não está com pressa, não corre e não cai.

Foto-montagem e Arte

Jardim de Procureur

No século XIX a mãe do meu bisavô veio morar no interior de Minas Gerais. Leocadie Procureur, Vovó Leocádia como era conhecida, largou a facilidades de Bruxelas, pegou muita estrada de terra no interior do Brasil e chegou a Itabirito, que mal existia. Seu marido brasileiro fundou a Usina Esperança que tinha uma produção importante e quase única no Brasil daquela época: ferro-gusa. O irmão mais novo da Vovó Leocádia, Charles Procureur ficou na Bélgica e teve um filho, Jean, amante de flores, fotógrafo amador, engenheiro fascinado por um produto tão novo na Europa do século XX como o gusa no Brasil do XIX, o plástico.

Na década de 1930 Charles morreu. A situação na Europa não era das melhores e Jean iniciou correspondência com sua tia Leocadie, decidindo mudar para o Brasil com mulher e dois filhos, um menino e uma menina. Vovó Leocádia chegou a oferecer pouso em Itabirito, mas Jean preferiu ir em direção ao pólo industrial brasileiro da época, São Paulo, com seus conhecimentos em plástico e formação de engenheiro.

Jean se estabeleceu na zona oeste da cidade, próximo ao Parque da Água Branca e só finalmente em 1955 consquistou cidadania brasileira. Nesse meio tempo construiu uma pequena manufatura de brinquedos de plástico e se divertiu com a fotografia no seu tempo vago, chegando a fazer alguns trabalhos.

Sua técnica e sua composição eram apuradas. Suas paixões foram sempre os cisnes e as orquídeas, mas seus assuntos giravam em torno de tudo que havia a sua volta. Seu arquivo (que conheci agora em Belo Horizonte) guarda uma enormidade de experimentos fotográficos, estéticos e eróticos. Sua câmara apontava com desejo em várias direções: a cidade que crescia a sua volta, as mocas bonitas do Brasil, os filhos brincando no parque.

Para Jean, com suas próprias fotos, eu fiz um jardim.

Jean Procureur

Gitzo Reporter com as pernas frouxas

Apareceu um tripé Gitzo Reporter antigo por aqui, as pernas não ficavam no lugar, falta um parafuso para fixar a câmara, essas coisas. Depois de um bom banho, com muito detergente e esponja para tirar restos de areia, graxa e sabe-se lá o que mais, comecei a montar o tripé de novo. A maioria dos anéis de retenção das pernas voltou a funcionar depois da limpeza, com exceção de um. O anel de pressão plástico deve ter ficado pequeno devido ao atrito constante. No lixo seco de casa encontrei um pote de requeijão (Poços de Calda Light), removi o fundo e a boca do pote, as partes onde o plástico é mais grosso. Com uma gilhotina de papel cortei um pedaço retangular do material do pote (como o pedaço translúcido que aparece na foto) alguns milímetros mais alto do que o anel original. Acertei o comprimento do pedaço no próprio tripé e pronto. Troquei a cortiça e providenciei um parafuso para tripé da Atek (R$9).

Tripé Gitzo

Um PS rápido: mais coisas na página Pegue Um Deixe Um. Agradeço aos que resolveram engrossar essa lista.

A série dos livros obscuros • em breve

Há um ano atrás publiquei um post lá no Temporal, do qual reproduzo um trecho:

“… em homenagem ao Francisco Azsmann, fotógrafo húngaro que passou a habitar a cidade do Rio de Janeiro após a Segunda Guerra Mundial. Azsmann se dedicou e muito a conseguir medalhas em salões de fotografia e se intitulava o expositor mais premiado do mundo fotográfico. No mundo dos fotoclubes isso era grande coisa. Deixando de lado todos os pressupostos do tempo em que Azsmann viveu e fotografou, seu trabalho era bem resolvido tecnicamente. Em 1961 ele publicou o livro “Foto-montagem e Arte” abrindo as portas para seu ambiente criativo e técnico. O livro trás detalhes e dicas que podem ser úteis para quem curte experimentar no laboratório fotográfico. É um livro raro.”

Nesse último final de ano acabei me deparando com mais livros raros e interessantes que pontuam a fotografia, livros técnicos que falam de coisas esquecidas. As tais técnicas-lixo que tanto menciono aqui. Livros de certa forma obscuros hoje em dia e que merecem resenhas mesmo que póstumas.