Maresias, 25 anos atrás

Acho que foi logo depois que meu pai morreu, dois amigos me convidaram para ir acampar, eles eram do Rio e tinham essa fissura com Maresias. Era verão, mas calhou de ser uma semana de chuva e mosquitos.

Resolvi levar uma Pentax Spotmatic com umas lentes diversas e Fomapan F21 vencido para usar em ISO 25. Eu tinha começado a trabalhar no jornal, então pensei em um conjunto de fotos como uma matéria, pensei em entrevistar pessoas, um monte de idéias. No meio desses coisas, fui fotografando algumas anotações sobre esses dias que passei lá e hoje penso que isso fala um tanto do meu estado de espírito.

Lembro de aprender com os amigos a fazer Miojo dentro da sopa Knorr. Lembro que tinha um casalzinho na barraca ao lado que gastava um pote de repelente todo fim de tarde após o banho e o cheiro deles deixava a gente protegido ali ao lado. Lembro de conhecer um figura que fazia pranchas de surf por lá e aprender com ele como era a sequência das camadas e dos polimentos.

A chuva inundou a barraca uma noite, encurtou o acampamento, na manhã seguinte embalei minhas coisas e vim voltando sozinho para casa. Curtindo a viagem.

Pela BR-101 (Piaçaguera) passando por Cubatão vi o céu plúmbeo, nuvens baixas, a vegetação molhada, um pouco de chuva. Que lugar lindo! Não tenho uma foto sequer, nunca consegui passar numa velocidade adequada, uma pena.

Como conheci o Botequim do Hugo

Era 1994 e eu estava participando desses encontros no MIS-SP, era uma coisa chamada Projeto Foto-de-Autor. Quinzenalmente nós sentávamos ao redor de uma mesa e mostrávamos o que vínhamos produzindo. Mas quando comecei eu não estava fazendo nada em especial, trazia cada semana uma coisa diferente, um experimento, uma tentativa. Resolvi então explorar um assunto e produzir uma série de imagens para poder aproveitar melhor essa oportunidade.

Do altos dos meus 19 anos, achei por bem explorar os botecos do meu bairro. Lentamente fui descobrindo um a um e levava as fotos para a reunião seguinte. Lá pelas tantas descobri o Botequim do Hugo ali na Rua Pedro Alvarenga, 1014.

Na época usava um papel Talbot que vinha do Uruguai, era 9x14cm e o acabamento era “seda”. Era usado pelos fotógrafos de jardim. Fiz cópias dos retratos como abaixo e levei lá de presente. Esse do Hugo aqui ainda estava lá em 2019.

Quantos amigos levei nesse lugar? Quantos jogos de Copa do Mundo assisti lá? Bah, nem dá para saber.

Em geral fotografava em Kodak Tri-X com objetivas 50mm f/1.4 ou 28mm f/2.8 na minha fiel Nikon FM2. Filme era puxado boa parte das vezes, para 1600 eu arriscaria dizer. Afinal eram os anos 90 e puxar era essencial nessas situações de luz.

Já falei antes do Projeto Foto-de-Autor, foi aqui nesse post.

Continuei morando ali perto e frequentando o botequim. O Hugo tinha o hábito de conversar com os carroceiros da região e fazer algumas trocas com eles. Aos poucos o Hugo juntou uma enorme coleção de slides 35mm que foram postos no lixo por diversos paulistanos e filtrados até chegar às mãos dele. De vez em quando, quando o bar não estava cheio demais, o Hugo puxada uma caixa e fazia uma projeção impromptu. Quando ele comprou uma TV nova para a Copa do Mundo, convenci ele a me emprestar os slides da últimas caixa, levei ao estúdio, fotografei uns 400 deles e montei um DVD para ele deixar rolando na TV.

Beijos

Como não querer fotografar pessoas se beijando. Né!? É um pequeno acontecimento tão importante do cotidiano. “De certo que as pessoas querem se conhecer, se olham e se beijam numa festa genial…” já cantava o Brylho.

Não lembro bem qual foi o primeiro que fotografei, mas lá nos anos 90 eu comecei a juntar numa caixa alguns prints de fotos de beijos até que percebi que tinha uma coleção razoável. Dai fiquei cada vez mais atento e tive uma fase em que andava sempre com uma câmera preparada para os tais beijos.

No réveillon de 99 para 00 estava no Canadá, chegou a meia-noite numa praça lotada de gente, todo mundo comemorou, mas ninguém se beijou. Os canadenses e sua aversão aos “public displays of affection”.

É fato, o Brasil é o lugar para fotografar beijos.

E nos casamentos que fotografei profissionalmente nos idos de 2010 em diante, estava também sempre atento aos novos casais que se formavam na pista de dança madrugada adentro. Cheguei até a fotografar os casais que não deveriam ter se formado, mas que se formaram. Na dúvida, essas fotos ficarão na gaveta eternamente…

A primeira imagem aqui é na Rua Scipião, em frente ao Senac. Depois na balsa do Rio Grande para Delfinópolis, no Parque do Ipiranga e por fim no Barnaldo Lucrécia.

Lembranças de um tempo antes do smartphone

Era 1999, uma amiga me convidou para me juntar a um grupo de guias de turismo de aventura que planejava um feriado tranquilo numas cachoeiras em Minas Gerais.

Saimos em direção a Franca, SP, depois viramos em direção a Minas. Depois de uma longa espera na fila, atravessamos a represa do Peixoto numa balsa para chegar a Delfinópolis. Já na balsa eu fiz uma das imagens que mais me lembro dessa época: um casal se beijando em meio aos carros durante a travessia. Eu colecionava “beijos”, depois conto melhor essa história.

Chegamos a Delfinópolis já depois da meia-noite e fomos parar num camping que era conhecido deles. Lanterna, barraca, fogareiro, sleeping bag, uma câmera compacta, era o que todo mundo tinha na mochila. E se você precisasse de um parassol para sua câmera compacta, usava a mão.

Eu resolvi levar a minha Leica M3 com 50mm e uma Walz Wide com sua 35mm para algumas imagens mais abertas. Não fiquei por muito tempo com essa câmera Walz, mas eu adorava ela. Essa câmera era ali dos anos 60 ou 70. A maioria das rangefinders vinha com objetiva próxima de 45mm e telêmetro. Alguns outros modelos saiam com objetiva próxima de 35mm e nem sempre com telêmetro. Já tive essa da Walz que era sem telêmetro e também uma Ricoh Wide que tinha telêmetro. São câmeras simples, muito fáceis de usar.

Levei filme ISO 100, mas já não lembro a marca (possivelmente Orwo) e levei também uns rolos de Pan F e HP5 para coisas sérias. Esses rolos de filme ISO 100 não eram exatamente o que eu tinha de melhor na época e minha esperança era que algum probleminha pudesse tornar as fotos ainda mais interessantes (mas ainda não foi dessa vez que uma viagem inteira ficou coberta de fungos).

Cheguei a ampliar algumas imagens na época, mas nunca rolou um reencontro com aquele grupo e aquilo ficou guardado até eu começar a escanear as coisas fotografando os negativos com a Canon 5D Mark II já nos anos 2010 ou 2011. Acabei bem satisfeito com o contraste e os detalhes do filme. Depois de fotografar os negativos, passei pelo Lightroom e usei um preset que construi ao longo dos anos para a finalidade de converter esse tipo de imagem.

Dessa viagem renderam 5 ou 6 rolos de filmes, memórias incríveis tanto de um lugar maravilhoso como de vários banhos de rio. Dessas oportunidades que aparecem num momento de mudança, quando tudo está de pernas para o ar e nos põe a repensar a vida.

Achando novos lixos

No quadro de referências do meu TCC eu sempre lembro que incluí um lindo filme que Agnes Varda fez em 2000, entitulado Les Glaneurs et la Glaneuse. O filme é inspirado no quadro Des glaneuses, de Jean-François Millet, de 1857 que retrata um grupo de respigadeiras. Respigadeiras são pessoas que após a colheita adentram propriedades agrícolas e vasculham o chão em busca de alimentos que não foram colhidos e essa atividade é protegida por lei em boa parte do território francês. Nesse filme Agnes entrevista diversos tipos de pessoas sobre atitudes similares às das respigadeiras.

Uma das entrevistas é com um morador de Lyon que explica como a prefeitura o ajuda fazendo folhetos que informam dia, hora e local onde ele pode ir recolher coisas do lixo. Agnes questiona se o folheto na realidade não foi feito para quem quer se desfazer do lixo e informa onde a prefeitura vai recolher, eles riem e ele concorda.

Segui essa lógica reversa para começar a descobrir para onde vão os eletrônicos obsoletos nesse novo lugar onde estou. Aos poucos fui fazendo um rota que passa por esse locais no meu dia-a-dia e encontrando coisas que podem ser usadas para gerar imagens rudimentares ou para processar imagens também. Scanners mesmo, é difícil, hoje até vi um, mas era porta serial ainda, anterior ao USB, dai fica fora da minha alçada.

Enquanto isso a tinta que falta para a conversão da Epson R3000 está passeando pela Ásia e pelo Leste Europeu, mas um dia ela chega.

A história desse blog

Esse blog nasceu em Junho de 2005 quando eu começava a pensar no TCC do curso de bacharelado em Fotografia. Comecei pela plataforma Blogspot e mantive o endereço apenas para mim, eram notas para o texto.

O texto do nasceu da idéia de consolidar os relatos de processo que eu tinha escrito até então. Esses relatos eram desde colunas que escrevi para o Fotosite até artigos para o portal Fotopro. O assunto de cada um era sempre alguma quebrada ou estragada que eu tinha dado um jeito de usar para criar imagens. Juntei todos, expandi. Depois comecei a escrever sobre o ato de reaproveitar essas coisas fotográficas e procurar referências para ajudar num diálogo.

O texto ficou pronto, o orientador não me colocou nenhum empecilho muito grave, fui para a banca e me tornei bacharel no fim daquele ano.

Um tempo mais tarde, exportei e migrei para WordPress e dai comecei a incluir o endereço do blog em outros lugares. Comecei a publicar notas e fotos dos processos com os quais estava envolvido. Nunca tive compromisso com o blog, nunca tive muito público também. De certa forma o blog continuava sendo um exercício interno de anotar etapas, descobertas e frustrações do caminho.

Em diversos momentos pensei em mudar do português para o inglês. Mas me perguntava o que de bom os page views poderiam trazer também. Dai continuava em português.

Reler o texto do TCC foi se tornando cada vez mais incômodo. Os anos passam e a gente vai entendendo algumas coisas. Cada vez que reli, pensei que seria legal retomar o texto, rescrever diversas passagens, expandir outras, adicionar os artigos que vieram depois. Contas mais histórias.

Em 2019 finalmente me vi numa situação em que a insônia foi de encontro a esse antigo desejo. Comecei juntando tudo que eu já tinha escrito depois que se assemelhava em gênero e depois fui reordenando. Fiz diversas pausas, retomei mais tarde depois que já estava em Portugal. Com as restrições impostas pela pandemia, recentemente cheguei num momento em que posso dizer que reli e revi todo o texto.

Não está nada pronto, mas não me incomoda o texto tão ferozmente quando antes, só um pouco. Ainda existem histórias que estão faltando, mas já consigo imaginar uma nova etapa para tudo isso que contei aqui no blog e nos artigos por ai. Vou começar a desenhar um livro digital que possa ser baixado através das plataformas mais comuns. E torcer para o texto fazer mais e mais sentido.