Três perguntas para Michela Brígida sobre ensinar e aprender

Você foi âncora do programa online sobre fotografia, o Click na AllTV (uma grande inspiração do Foco Crítico), como foi essa experiência?

MB: Apresentar o programa Click foi um grande aprendizado pra mim, uma experiência que se integrou à minha formação em comunicação, uma vez que tivemos que dominar a rotina de produção, bem como as técnicas para apresentação e divulgação de programa semanal de TV. E tudo isso de forma voluntária. Conciliar todo esse trabalho, sendo uma jornalista e fotógrafa recém formada foi já um aprendizado e tanto!

Alem disso, aprendi muito a respeito desse universo da fotografia, tendo acesso a grandes nomes nacionais e internacionais.

Quantas transmissões você fez e quais o momento mais memorável?

MB: Acho que começamos em 2004. Fomos até 2009. Com um programa a cada domingo.
Houve muitos momentos memoráveis: quando entramos na câmera-caminhão-pinhole de Mica Costa Grande, quando entrevistamos fotógrafos que tenho como referência como German Lorca, Claudia Andujar, Thomas Farkas, Pedro Martinelli. Muitos momentos memoráveis.

Sobre o dia-a-dia nas aulas para a ETEC de Carapicuíba, o que você já aprendeu com os alunos?

MB: Tanto na Etec como na Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação, eu vejo que o que eu mais aprendo com esses alunos é ser uma pessoa melhor, mais paciente, mais compreensiva, mais humana, a enxergar e valorizar as produções, os novos trabalhos. Eles me ensinam a estar sempre renovando o olhar e isso é muito importante.

Três perguntas para Celso Eberhardt sobre tempos distantes

De passagem pela oficina do Celso Eberhardt, gravei 3 perguntinhas para ele sobre o passado distante.

Qual que é a sua memória mais antiga consertando câmeras?

CE: Eu tinha 13 anos, estava começando. Uma máquina pequena, 35mm, de fole, talvez fosse Zeiss, com a mola do obturador quebrada, tinha que desmontar tudo e eu não sabia como fazer. Ai eu comecei a desmontar e desmontei toda a máquina. Tinha um funcionário do meu pai falou: não é assim! Tirou, trocou a mola para mim, montou para mim. Mas isso ficou gravado na memória, era um obturador Compur.

Celso Eberhardt na oficina da Rua São Bento, 279.

Qual foi sua câmera predileta?

CE: Eu nunca tive uma câmera predileta. Eu usava uma Petri Color, porque eu viajava e nem focava. Ela tinha um automatismo arcaico, ela tinha tudo pronto. O fotômetro funcionava mil maravilhas e era foco fixo. Eu viajava de carro e colocava a câmera no para-brisa e fica clicando as coisa que eu achava bonito, sem olhar e sem parar.

E Leica quando começou a consertar?

CE: Me pai sempre fazia Leica e eu estava acostumado a ver as Leicas antigas de rosca, as primeiras M3. Foi um processo normal de aprendizado e de conserto, com a supervisão dele, no final da década de 1960, início dos 1970.

Três perguntas para Wagner Lungov sobre gelatina seca

A gente conversou recentemente e você me contou que já tinha feito 19 fornadas de gelatina seca. Quais caminhos te motivaram a produzir seu próprio material fotossensível?

WL: Foram vários pontos somados: Independência, diversão no processo de fazer, custo mais baixo que o de filmes comprados e possibilidade de usar algumas câmeras que foram feitas para vidro.

A gelatina seca apesar de ser vidro como o colódio, é um pouco mais prática no manuseio. Em geral, quanto tempo leva entre a produção das chapas e o processamento? Já levou suas chapas numa viagem?

WL: Ainda não tive o problema de chapas “vencidas”. Já usei até dois meses após a fabricação e processei semanas após a exposição. Sim, já levei em viagens e muitas vezes saio para fotografar apenas com placas secas. Não vejo muita graça em fazer o mesmo assunto com placa e filme, normalmente ou é um ou outro.

O negativo é uma placa de vidro de 6,5 x 9 cm a a câmera uma alemã da década de 30 chamada Patent Etui. Clique na imagem para conhecer mais trabalhos do Wagner!

Você fez diversas variações lote a lote, qual foi o aprendizado mais interessante a partir dessas mudanças? Qual foi a dificuldade mais complexa de superar?

WL: Depois de fazer o curso do Roger Sassaki, no Sesc, comecei no meu laboratório com uma fórmula muito simples que tem no livro do Josef Maria Eder. Depois li muito sobre o que cada reagente faz e como cada parte do processo afeta o resultado final. Construí vários aparelhos para eliminar interferências manuais e poder repetir algo exatamente igual da última vez. Daí comecei a fazer variações, uma coisa por vez, nunca duas ao mesmo tempo, observando o resultado e ajustando a dose. Mas são tantas variáveis que mesmo na 19ª fornada ainda faltam muitas coisas a testar. Mas já passei a fase de frustração, isto é, da emulsão ficar imprestável. Isso aconteceu umas quatro vezes, mas hoje confio que vou conseguir usar e a dúvida está se vai ficar razoável, boa , ótima… Tenho feito fotografias sem tripé em fotos externas, já usei até 1/250s f/5.6. Já dá para pensar como ‘fotografia’ e não apenas como ‘tentando fotografar’.

A maior dificuldade foi acertar a viscosidade da emulsão para dar uma cobertura uniforme e sem falhas. Isso depende da gelatina, da concentração e da temperatura basicamente. O aprendizado mais interessante foi desenvolver uma forma de lavar a gelatina mantendo o controle de quanta água ela irá absorver. São coisas bem técnicas, mas o processo é mesmo técnico. Acho que não dá para ficar na tentativa e erro sem tentar antecipar na teoria qual é a validade de cada nova hipótese.

Dan Watson #2

Dan Watson praticava astronomia e fotografia como hobbies na adolescência, seu interesse era a ótica.
Com medo de se convocado para o exército em plena Guerra do Vietnã, Dan se voluntariou para a Marinha, esperançoso de que um teste de habilidades o permitisse fazer curso de fotógrafo. Dan passou nos testes e aprendeu fotografia com a Marinha norte-americana.
Sua família tradicionalmente trabalhava nas fábricas de aviões na região de Dallas, Texas, Dan achou que havia se livrado disso em seu cotidiano, mas a Marinha o colocou em um porta-aviões.
Em 1973 ele passou alguns meses no Mar Mediterrâneo durante a Guerra de Yom Kippur entre árabes e israelenses.
Numa manhã cheia de névoa ele foi chamado às pressas à torre de comando, o navio onde ele estava tinha se perdido na névoa e no horizonte haviam vários barcos “próximos”, alguns aliados, outros inimigos, com sua Leicaflex e lente 1000mm sua tarefa foi registrar os barcos mais visíveis para que eles pudessem ser identificados melhor posteriormente. Segundo ele próprio, o dia em que esteve mais próximo do combate.
De volta à terra firme, Dan foi atrás da astronomia, na Flórida estudou ótica por dois anos e trabalhou em um observatório fotografando o céu em 4×5″. Depois foi para a Universidade do Arizona estudar física. Descobriu que a Universidade procurava alguém com experiência em construir espelhos para telescópios e lá foi ele. Construiu espelhos durante 18 anos. Entre 92 e 93 construiu um espelho de 8,4 metros de diâmetro e 20 toneladas de vidro. Nesse processo de construção de alta precisão, a fotografia está plenamente envolvida, Dan conta que testes de stress de material, comuns no preparo de vidro para essas aplicações são fotografias que às vezes levam até duas semanas para serem montadas e feitas.
Contente com seu enorme feito em vidro, Dan abandonou a academia e voltou para o interior do Texas para criar cabras e cervos em um rancho e para viver perto da mulher Judy.
A grana ficou curta e um dia perguntou a um amigo se ele sabia de algo que ele pudesse fazer para ganhar um trocado. A furacão Katrina tinha acabado de inundar Nova Orleans, a empresa BMS-Cat procurava pessoas que pudessem ir para lá trabalhar na limpeza da cidade. Essa empresa é especializada em documentação e rescaldo em catástrofes. Dan foi para lá trabalhar como supervisor de algumas equipes de limpeza e voltou para seu rancho sem tirar nenhuma fotografia. No entanto, no trabalho subsequente Dan ficou encarregado de tirar algumas fotos de documentação e desde então é isso que ele tem feito para a empresa, que foi contratada para documentação e limpeza relacionados à um acidente aéreo aqui no Brasil.
Batemos um papo aqui no ateliê na noite passada do qual eu gravei 8 minutos que podem ser ouvidos aqui, em inglês (o link está faltando, vou providenciar um novo host para o arquivo).

Dan Watson #1

Conversei hoje com Dan Watson, um fotógrafo americano que é um monte de coisas além de fotógrafo. E que está no Brasil fotografando o que restou de uma tragédia. Fotografia técnica, não fotografia jornalística. Dan já fotografou uma fábrica de sapatos que foi inundada, por exemplo, para que o cliente tivesse um documento do que foi destruído e como. Gravei a conversa e vou preparar um mp3 para por na rede junto com um texto sobre o Dan.