Revisitando meu projeto com timelapses

Há uns anos, ainda em São Paulo, explorei o software Gawker e uma webcam que eu tinha na época para criar alguns timelapses a partir da janela do ateliê da Rua Tabapuã. A primeira experiência foi aqui e a segunda aqui.

Recentemente encontrei alguns itens no lixo de Braga que me fizeram lembrar daquelas experiências e me deram novas idéias.

As objetivas das webcams tem algo em torno de 5mm de distância focal, logo usar uma objetiva 20mm seria como adaptar um teleobjetiva.

Desmontei essa objetiva mount NX que apareceu no lixo para deixar o diafragma mais aberto, numa posição que permitisse mais luz no sensor.

Enquanto isso explorei o interior da webcam para saber o que tinha por lá e qual o tamanho do sensor.

Uma vez que todos os componentes foram explorados e desmontados, com madeira fininha (de uma caixa de frutas) fiz uma prova de conceito da montagem dessa objetiva com o sensor da dessa webcam.

Usei um tubinho de papel preto para impedir que luz não desejada chegasse ao sensor.

Apontei a câmera em direção ao vale do Rio Cávado, na direção Norte e gravei por uns minutos.

A aprender com os miúdos

Daqui a pouco já fará dois anos que estou por aqui. Muito desse tempo, junto com a pandemia, passei fechado num quarto, trabalhando de casa num emprego que nada tem a ver com esse mundo aqui. Cheguei a aproveitar a convivência dos portugueses nos primeiros meses, mas o isolamento e esse trabalho mudaram os rumos das coisas por aqui.

Recentemente fui convidado pela Pavac (Passos Audiovisuais Associação Cultural) para facilitar umas oficinas para crianças. A câmara municipal cria atividades para que as ATLs tragam suas crianças durante às férias. ATLs são entidades ou mesmo escolas que se organizam para oferecer atividades em tempo livre para as crianças. Enfim, o termo é usado para cães também, por exemplo.

As crianças são sempre os melhores alunos, principalmente numa oficina livre como essa, eles falam as coisas mais inusitadas e nos mantém em alerta 100% do tempo, é um passeio com muito pouco conforto, mas um aprendizado incrível.

“Eu vejo um cavalo!” gritou um, o outro falou “Eu vejo um gato!”. Depois viram foguetes e estações espaciais. Uma menina me perguntou onde eu tinha aprendido tudo isso, expliquei que era fotógrafo e tinha aprendido essas coisas ao longo dos anos e até faculdade de fotografia eu tinha feito, ela não teve dúvida: “Então é isso que eu vou fazer.”

Um outro logo me perguntou há quanto tempo eu estava em Portugal. A professora que vinha junto me perguntou se eu preferia o Brasil. Porque a imagem fica invertida? Expliquei como funciona uma foto da câmara Instax. Falei da botânica Anna Atkins. Não assustei eles com nomes complicados, quem precisa saber que se chama quimiograma? Podemos apenas chamar de fotografia, não?

Esse quimiograma a partir de uma folha de Tília, que acima, chamou a atenção de uma menina com seus 12 anos, ela disse que era um coração malvado. Fiquei pensando nas ligações entre o vocabulário da língua falada e as manchas de química que parece chamas envolvendo o coração.

Experimentamos para reproduzir o efeito, mas nenhum ficou tão malvado, disse ela. O S que se formou no canto superior direito talvez tenha a ver com isso, não sei.

Graças ao miúdos eu perdi o medo e aprendi a fixar lumen prints com revelador bem diluído. Dessas coisas que me deixam triste, porque a imagem perde muita densidade, mas assim eles puderam levar as cópias de volta para a escola e mostrar para os pais.

As folhas de carvalho são muito densas, mas as folhas de tília tem uma transparência ímpar. Folhas ligeiramente úmidas soltam um vapor de água que cria efeito de borda nas lumen prints, é algo lindo de ver acontecer e que pode ser percebido na próxima imagem.

Eu nem lembrava a saudade que eu tinha de fazer lumen prints, como é bom. E é perfeito para o verão, aqui no paralelo 41, onde o Sol não é tão forte no resto do ano. As crianças e o Pavac me devolveram algumas sensações quase esquecidas, obrigado!

Entupimentos e tal

Voltei a tentar usar a R3000 e acabei descobrindo dois canais bem entupidos. Fiz uma série de modificações na impressora, ligando os tanques externos diretos às mangueiras para eliminar todos os problemas que poderiam ser causados pelo sistema de vácuo usado para tirar tinta do cartucho.

Ainda assim os entupimentos não forma embora, tentei desmontar a cabeça por completo e coloquei a superfície da cabeça em contato com líquido de limpeza para desentupir a cabeça, ainda não resolveu, mas rendeu o vídeo bonito abaixo.

Ainda para continuar essa investigação.

Tenso

Nessa semana recebi um e-mail do GuardeAqui da Lapa, onde estão temporariamente minhas impressões fotográficas, meus negativos, o que sobrou do ateliê. Eles avisavam que havia ocorrido um incêndio e que a unidade estaria fechada até segunda ordem. Já se passaram alguns dias e não tive mais notícias, não sabemos ainda em que parte do prédio ocorreu o incêndio, nem que unidades poderiam ter sido afetadas.

No Twitter, localizei esse post do 193 sobre o ocorrido. Imagino que assim que a Defesa Civil liberar o prédio, que o GuardeAqui vai mandar informações aos seus clientes. Enquanto isso, fica aqui a cabeça a imaginar o que pode ter sido perdido e como lidar com isso no futuro.

Nasa Perseverance • Pasta com imagens não processadas

A Nasa já publicou mais de uma centena de imagens não processadas da missão que acaba de chegar a Marte:

https://mars.nasa.gov/mars2020/multimedia/raw-images/

E se você quiser saber onde está o rover Perseverance, se liga nesse mapa interativo (a propósito, ele só deve começar a se movimentar na semana que vem):

https://mars.nasa.gov/mars2020/mission/where-is-the-rover/

Foi mesmo um susto

Há 20 anos, o que ficou desse dia foi um belo galo na cabeça, um medo profundo de andar de carro perto dos zero graus centígrados e minha Hasselblad quebrada. A bolsa não estava bem fechada e ela saiu voando pelo carro, back e lente foram arrancados do corpo que ficou amassado na lateral e nunca mais funcionou.

Ainda era viável fotografar e revelar filme positivo. Algumas digitais estavam aparecendo com preços mais convidativos, mas nada que se comparasse à beleza de um slide bem revelado. Dois anos depois eu faria o último rolo de filme positivo revelado em E-6 e passaria a fazer todos os trabalhos cor em digital e filme negativo (que o minilab já escaneava). E ainda se passaram muitos anos até que eu tivesse um scanner capaz de trazer para o mundo digital as linda cores dos slides que eu fiz antes de 2003, mas isso é só história.

Desses slides que sobraram dessa época, lá por 2019 eu selecionei um conjunto de 48 imagens. Foi mesmo um número arbitrário, as cartelas de slides que eu tinha eram para 24 slides, eu achava que uma seria pouco, achei que duas seria suficiente. Era um apanhado geral de pastas de slides, não eram as melhores imagens, era apenas uma sequência interessante com coisas que eu jamais mostraria por qualquer outra razão.

Fez muito sentido criar aquela sequência naquela hora. Fiquei com aquela sensação que o sentido iria desaparecer, mas ele insistentemente está ali ainda. É verdade que são imagens que eu mesmo vi muito pouco e elas ainda me causam estranhamento. Coisas que eu vi muito pela lupa, apenas. É verdade que são coisas e lugares que tocam o coração. Eu era jovem. Quero acreditar que há algo mais ali, algo que outras pessoas possam desfrutar. Existem algumas pessoas indiferentes andando pela cidade, algumas pessoas esperando, existem uma sensação de busca, uma procura.

E ter restaurado a impressora colorida, abriu portas para várias idéias que estavam guardadas à espera de dias em que imprimir fosse mais fácil, agora é a hora.