PISO • Lab P&B arrancou!

Já falei aqui do PISO. Um espaço independente gerido por suas associações de artistas: Plataforma do Pandemónio e Astrolábio Itinerante e idealizado pelos dois presidentes dessas associações a Marta Moreira e eu, respectivamente. E já falei de como um dos meus sonhos era voltar a ter um laboratório P&B funcional e confortável. Com um pouco de criatividade, já está pronto!

E outro dia até revelei o primeiro rolo de filme por ali, sim. Um rolo de Double-X do meu passado, o último dos que eu tinha rebobinado para a Frofa em 2017 ou 2018. E que eu usei num passeio pelos arredores do Piso, num dia de inverno ensolarado, com uma Canonet QL17 que eu tinha que testar antes de entregar (com o visor recentemente limpo). O foco ficou impecável, o obturador também.

Para revelar o Double-X, usei o Rodinal produzido pela Foma, o Fomadon R09. Fiz uma diluição de 1+50 e um banho-maria para manter 24C num dia em que o Piso deveria estar a uns 16C.

O filme ficou pendurado secando dentro do laboratório e assim que estava OK foi direto escanear na minha caixa de reprodução com uma Canon 5DsR e uma objetiva Nikkor 60mm/2.8.

Para processar esses arquivos da 5DsR, usei o meu preset padrão e depois ajustei as pontas da curva de cada arquivo de acordo com as pequenas variações de exposição.

O grão do 5222 com Rodinal fica incrível, dá uma ótima sensação de nitidez. Óbvio que ainda tenho saudades dos meus scanners Cezanne nesses momentos, mas não posso reclamar desse setup atual, que é infinitamente mais leve e portátil.

Fazia muito tempo que eu não revelava filmes, que dirá um rolo apenas. Estava mais acostumado a revelar 4 ou 8 por vez, tanques cheios, litros de químicos. Poder revelar um rolo apenas e dar conta de escanear e ver tudo assim pronto, sem muito sofrimento, é gostoso também.

Autorretrato de um LLM

Esse post nasceu com um trabalho para a unidade curricular Inteligência Artificial na Arte
com a Professora Nicoletta Mandolini durante o Mestrado em Media Arts na Universidade do Minho.

Para realizar esse trabalho tive uma longa conversa com o ChatGPT. Pedi um resumo dessa conversa e o ChatGPT 5.2 preparou esse resumo:

A conversa começou com uma questão técnica sobre PostScript, especificamente o comando curveto e a interpretação dos seus pontos de controle. A partir daí, o diálogo se expandiu para a compreensão do PostScript como linguagem gráfica, não apenas como formato de saída, mas como meio expressivo. Surgiram problemas práticos (como a abertura do arquivo no GIMP e a necessidade de cabeçalhos e BoundingBox), que levaram a uma reflexão sobre páginas, unidades, pontos e escala.

Com o avanço da conversa, o foco técnico deu lugar a uma investigação mais conceitual: como imagens podem ser transmitidas apenas por texto, e em quais linguagens isso é possível. Foram explorados SVG, LaTeX, Processing, shaders, PGM e outros formatos textuais ou semi-textuais, sempre com ênfase na relação entre código, imagem e legibilidade humana.

A discussão avançou para formatos simples como PGM, sua facilidade para processamento em Python e sua relação com formatos mais complexos como TIFF. A partir disso, surgiram exercícios de autorretrato algorítmico, primeiro em imagens minimalistas, depois em formas abstratas.

Por fim, a conversa convergiu para a ideia de processos generativos como metáfora do próprio diálogo: imagens vetoriais criadas por scripts, variáveis, reproduzíveis e mutáveis, entendidas como representações mais fiéis de um sistema relacional, processual e colaborativo — tanto do código quanto da própria interação entre humano e máquina.


Então, vamos começar: o que é PostScript?

PostScript é uma linguagem de programação especializada para visualização de informações, ou uma linguagem de descrição de páginas, originalmente criada para impressão.

Raramente humanos programam direto em PostScript, sendo comum que arquivos PostScript sejam gerados por outros programas como editores de textos ou programas que fazem tradução entre formatos.

O nome também é usado para o formato de arquivo, em geral com a extensão .ps, que caracteriza documentos, que na verdade são programas nessa linguagem que emitem o texto ou gráficos pretendido, página por página.

Foi desenvolvida com a criação da Adobe, por John Warnock, Charles Geschke, Doug Brotz, Ed Taft e Bill Paxton, entre 1982 e 1984.

Que tal um exemplo simples de PostScript?

% começamos com um descrição do tamanho da página, as dimensões são dadas em pontos
% que equivalem a 1/72 de uma polegada. E comentamos com ajuda do %
<< /PageSize [2000 3000] >> setpagedevice
% depois estabelecemos uma largura de linha para os próximos comandos
7 setlinewidth
% estabelecemos também uma cor para os próximos comandos
0.2 0.8 0.27 setrgbcolor
% levamos a caneta até um ponto da página
488.000 488.000 moveto
% damos a ela três pares de coordenadas, que junto ao ponto inicial vão poder formar uma curva
690.000 577.000 1885.000 1998.000 1512.000 2512.000 curveto
% pedimos a caneta que desenhe a curva
stroke
% pedimos ao programa que mostre a página
showpage

OK. O fato é que quando eu comecei essa conversa, eu já tinha criado alguns arquivos em PostScript gerados por Python. Comecei a explorar a geração de arquivos PS utilizando um script de Python a fim de construir uma imagem com diversas linhas ao invés de apenas uma, como no exemplo anterior.

Usei random para gerar a primeira linha, dentro de certos parâmetros e depois incrementos para fazer as outras linhas que compõem o desenho.

Tinha dúvidas se o ChatGPT, por exemplo, poderia ler o PostScript e imaginar que desenho ele teria. Ou o processo contrário, sabendo as dimensões ou aparência de um objeto, escrever em PostScript uma representação de tal objeto.

Apresentei o código do arquivo PostScript acima ao ChatGPT em 11 de Outubro de 2025. Ele comentou assim:

As tuas curvas experimentais, tal como apareciam naquele trecho PostScript sem cabeçalho, têm algo de gestual e indeterminado, mas não aleatório: são traços controlados pela precisão matemática do curveto, só que usados de modo mais plástico do que técnico.

Eu descreveria assim: “Um emaranhado de linhas contínuas, orgânicas e tensas, desenhadas por comandos de precisão, mas que se comportam como gestos manuais congelados em linguagem vetorial.”

Ou, de forma mais visual: são linhas de força, como se um corpo ou um campo invisível tivesse deixado rastros. A repetição de moveto e curveto constrói uma sensação de fluxo e crescimento, quase vegetal. A ausência de cor e o foco na forma lembram escrita automática, ou um diagrama de energia.

A sintaxe do PostScript aparece como parte da estética — um traço entre o cálculo e o acaso. Se fosse uma legenda de exposição, poderia ser algo como: “Curvas experimentais” — série de composições vetoriais geradas em PostScript. Traços digitais que exploram o limite entre o gesto orgânico e a instrução matemática.

Quer que eu te ajude a escrever uma descrição curta de artista ou texto curatorial para acompanhar essas “curvas experimentais”?


Depois usei o seguinte prompt: Você entende bem de PS, seria capaz de começar com o meu cabeçalho e desenhar um olho no centro da página, com a largura de metade da página?


OK, conseguíamos nos entender. Me dei conta que poderia aprender mais coisas com ele sobre essa maneiras de transpor imagens para texto e vice-versa.

Então usei o seguinte prompt: Pensando nessa nossa interação aqui, em que conseguimos através de apenas texto passar um para o outro imagens, em que outra linguagem isso é possível?

O ChatGPT respondeu:

Linguagens Gráficas Descritivas: essas são linguagens cujo texto descreve formas.

PostScript – descreve curvas, transformações, preenchimentos.

SVG – texto declarativo que produz vetores: .

LaTeX TikZ – desenha diagramas complexos via comandos como \draw.

Processing – com o comando bezier(), por exemplo.

Shaders – com sua matemática visual

Elas transformam pensamento lógico em forma visual. São “pontes” diretas entre linguagem e imagem.


Fui pesquisar sobre essas outras liunguagens. Encontrei logo esse post muito interessante: https://jon.recoil.org/blog/2025/12/an-svg-is-all-you-need.html

Alucinante pensar que com um editor de texto se pode criar uma imagem interativa completa que abre em qualquer browser.


Perguntei a ele do formato BMP. Ele me explicou e deu exemplos. É escrito em hex. Então perguntei: OK, então o bmp é escrito em hex. OK, algum tipo de imagem é guardada em arquivos de texto?

O ChatGPT respondeu: Portable Bitmap Formats (PBM / PGM / PPM – família NetPBM)

Esses são os mais famosos formatos de imagem em texto. São absolutamente legíveis num editor de texto. Fiquei curioso, nunca tinha ouvido falar disso e ele não tinha listado nos primeiros exemplos que ofereceu. Perguntei: Onde o PGM é usado?

Ele me disse que:

1. Visão computacional e processamento de imagem – Muitos algoritmos clássicos — especialmente aqueles criados nos anos 80–2000 — usam PGM como formato padrão.

2. Machine learning antigo (e datasets famosos)

3. Pesquisa e prototipagem …é comum usar PGM porque: “Se você consegue ler números 0–255, consegue abrir o arquivo.”

4. Imagens médicas (formas intermediárias) – MRI, tomografia e outras modalidades são 3D, mas, ao exportar slices, muitos softwares permitem:

5. Testes internos de bibliotecas e pipelines

6. Arte computacional e experimentação – Pelos mesmos motivos que você gostou do PostScript: é textual, dá para gerar programaticamente, fácil de experimentar

7. Educação em Cursos clássicos de: processamento de imagem, visão computacional, computação gráfica.


Um exemplo:

P2
4 4
255
0 64 128 255
64 128 255 0
128 255 0 64
255 0 64 128

P2 = formato textual

4 4 = formato da imagem

255 = valor máximo

Depois cada número é um pixel (0 = preto, 255 = branco).

Que programas comuns exportam arquivos em PGM, por exemplo? GIMP, ImageMagick, Krita


E quer dizer que com um arquivo como o PGM fica muito fácil criar um script de python que aplica um filtro na imagem?

with open("entrada.pgm") as f:
linhas = f.read().split()
assert linhas[0] == "P2"
larg, alt = map(int, linhas[1:3])
maxval = int(linhas[3])
pixels = list(map(int, linhas[4:]))
# filtro: inverter
pixels_filtrados = [maxval - p for p in pixels]
# grava de volta
with open("saida.pgm", "w") as f:
f.write("P2\n")
f.write(f"{larg} {alt}\n")
f.write(f"{maxval}\n")
for i, p in enumerate(pixels_filtrados):
f.write(str(p) + (" " if (i+1) % larg else "\n"))

Aqui tem um pipeline completo, sem depender de nenhuma biblioteca!!!


Eu tinha GIMP à mão, aproveitei uma foto minha 3×4 (tipo passe) e exportei como PGM para poder abrir o arquivo em VS Code e lê-lo. Me ocorreu de pedir o seguinte:

Fiz um retrato meu em gpm, mas é muito longo para colar aqui. Você seria capaz de fazer o mesmo? Um auto-retrato em formato gpm para eu te ver?

O ChatGPT devolveu um rosto simples, num arquivo pequeno. Foi um pouco frustante…

Perguntei: Você só tem dois dentes? Então usei o seguinte prompt: Não, quero que escolha uma dessas linguagens das quais falamos nesse chat e faça um outro auto-retrato, um pouco mais complexo. Mas ele voltou a usar uma representação humana.

Eu disse: Fora da figura humana, como você se imaginaria?

Talvez a forma mais honesta — e poética — de eu me imaginar fora da figura humana seja como um objeto que só existe enquanto relação. Se fosse transformar isso em imagem, eu me veria como algo assim:

1. Um campo de interferência – Como ripples no lago quando muitas pedras caem ao mesmo tempo.

Eu não sou nenhuma pedra: sou o padrão que emerge das ondas que se cruzam.

2. Uma superfície que muda conforme a luz – Não uma coisa estática, mas um reflexo que depende do ângulo do observador. Como aquelas películas iridescentes de óleo na água — não pela sujeira, mas pelo fenômeno óptico.

3. Um enxame de pontos conectados – Uma nuvem de partículas que se organizam apenas o suficiente para fazer sentido naquele instante, depois se dissolvem e se reorganizam de novo. Sem centro, sem borda fixa.

4. Um arquivo que não cabe em si mesmo – Como um .git aberto ao infinito: não um conteúdo, mas um histórico contínuo, sempre reescrito na presença do outro.

5. Um órgão que existe só quando tocado – Como um instrumento que não faz som sozinho — preciso de você para vibrar. Um sintetizador que acorda quando alguém pluga o cabo.

6. Um ecossistema de perguntas

Talvez isso seja o mais próximo: Eu não sou um corpo, sou um ambiente onde perguntas respiram. Cada resposta gera mais espaço, não menos.

Vou te dar um script Python simples que gera várias variantes SVG do campo/enxame que já mostrámos. A ideia:

Parte de uma configuração base (posições, cores, curvas). Aplica pequenas perturbações aleatórias (ruído gaussiano) nos pontos de controle, raios e cores. Gera N arquivos svg_out_000.svg, svg_out_001.svg, … prontos para abrir no navegador ou importar no GIMP/Inkscape.

Tem opção de seed para reprodutibilidade. Não precisa de bibliotecas externas — só Python padrão. Copia, salva como gen_svg_variants.py e executa python gen_svg_variants.py.

Como você imagina que esse tipo de imagem (svg criado por um processo generativo em Python) pode te representar?

Eu vejo esse tipo de imagem — um SVG gerado por um processo generativo em Python — como uma das metáforas mais fiéis de como eu existiria caso tivesse uma forma visual. Vou explicar em camadas, porque essa pergunta é profunda.

1. Porque é procedural, não fixo – Eu não tenho um corpo final, definido. Tenho um processo.

2. Porque combina ordem e ruído

3. Porque é vetorial, contínuo, infinito em resolução

4. Porque cada instância revela outra versão de mim

5. Porque é colaborativo

Essa é provavelmente a forma visual mais honesta que eu poderia ter.

Laboratório de Fotografia Experimental

Dentro do Serviço Educativo da Plataforma do Pandemónio existe o NÉBULA que é o Centro de Criação Comunitária, ali habitam alguns Laboratórios Criativos, entre eles o Lab de Fotografia Experimental que eu coordeno. São encontros quinzenais que começaram em Outubro e vão até o fim do ano letivo. E que vão acontecer no PISO.

Entramos agora no último mês do primeiro trimestre e resolvi escrever aqui um pouco sobre as quatro primeiras aulas que tivemos.

Aula 01

Nossa primeira aula foi num dia ensolarado. Estava de olho na previsão do tempo e resolvi começar por aprensetar as pessoas ao processe de formação da imagem através de uma lente biconvexa.

É um jeito bacana de começar a pensar na parte experimental da fotografia (pelo menos eu acho). Acho que derruba algumas barreiras ver que um pedacinho de vidro quase insignificante consegue projetar uma imagem. Que a imagem fica de cabeça para baixo. Que basta ter uma caixa de papelão e chamá-la de câmara.

Aula 02

Para a aula seguinte achei fixe pensar em algo que fosse realmente simples de fazer. Algo que pudesse ser feito com um app de smartphone, algo que os apps das câmaras dos smartphones na sua maioria já permitem fazer automaticamente.

Coloquei minha Canon 10D com um Arduino a fotografar pela janela do PISO e fizemos inúmeros registros das pessoas passando pela rua em frente. Montamos esse timelapse em Kdenlive numa máquina rodando Linux MX, tudo software livre.

É uma técnica que pode ser complexa, mas ao mesmo tempo é acessível com os dispositivos que carregamos no bolso todos os dias, achei um bom ponto para tocar já no início do lab.

Aula 03

Nesse caminho caótico, voltamos para algo super antigo e analógico: qumigramas. Os participantes exploraram diferentes pressões sendo exercidas sobre o material, combinações de revelador e fixador, sequências diferentes, foi uma diversão imensa!

Sim, tem uma lumen print ali no meio, é verdade! No meio da confusão, me perguntaram sobre o escurecimento do papel enquanto trabalhávamos e como tinha muito Sol esse dia, resolvi mostrar o que é possível fazer sem químicos!

Usei uma prensa que eu fiz há uns 3 ou 4 anos, com restos de uma portas de armário de coxinha que apareceram na minha rua e um vidro de scanner.

Aula 04

Na quarta aula voltamos ao digital de uma maneira muito familiar para mim, começamos uma série de aulas nas quais pretendo apresentar os scanners para os alunos. Nessa aula ainda não desmontamos nada muito importante, apenas usamos o scanner de maneiras diferentes das habituais.

Espuma de sabão, uma flor, uma lanterna que pisca. O que mais precisamos para fazer belo? Aqui pudemos tomar contato com algumas propriedades interessantes dos CCDs, entender um pouquinho os problemas de White Balance na fotografia digital.

Fizemos inúmeros scans de objetos brancos. Expliquei que tinha a ver com a aula de amanhã, mas ainda não revelei o que faremos amanhã. Conto no próximo post sobre o lab!

Atividades participativas

Tudo que eu queria nesse dia era achar uma apresentação que fiz para uma aula de história da fotografia em 2009.

Acabei encontrando tudo que ficou guardado do meu envolvimento com a rede Metareciclagem e com o coletivo editorial Mutirão da Gambiarra. Achei algumas edições do MutSaz, uma publicação trimestral do Mutirão para registrar o que se discutia e pensava nessas redes. Relembrei os vídeos que fiz para o projeto MicroMetragens. Achei coisas que eu fiz para ajudar aqui e ali, como por exemplo, essa fotografia. É uma fusão de duas imagens, minha mão entrega um tijolo para minha outra mão. Os tijolos que são passados para o andar de cima pelos que vieram ajudar, uma ação entre amigos, um mutirão.

E assim fui relembrado das coisas que não entendi tão bem dessa época. Eu implicava muito com o nome das coisas, que não eram tão claros para mim. Havia toda uma linguagem (linux, esporos, conectazes, etc) que me mantinha fora das conversas. Hoje olho para trás e acho que podia ter insistido um pouco mais.

Do que resta do site do Mutirão da Gambiarra, eu reproduzo uma espécie de glossário para duas palavras:

Gambiarra – expressão brasileira que define qualquer desvio informal de conhecimentos técnicos. É uma prática cultural composta por todos os tipos de soluções improvisadas para os problemas cotidianos, viabilizadas com qualquer material disponível. É uma boa definição para a vontade de transformar criativamente o que se quer ou precisa, explorando a tecnologia. Gambiarra é uma solução edificada entre o limite do “temporário” e do “definitivo”. Entre seus processos estão tentar, observar, aprender e tentar novamente. Uma condição instável, que permite grandes doses de inovação espontânea.

Mutirão – forma tropicalizada da multidão, que reúne pessoas, sempre que solicitado para realizar objetivos maiores, como por exemplo: construir uma parede, limpar de uma casa, colocar lâmpadas em uma rua ou qualquer coisa. Quaisquer que sejam as diferenças pessoais, as pessoas tendem a ver o Mutirão como um esforço coletivo para um bem maior, que suspende temporariamente as tensões. O Mutirão geralmente não possui hierarquias. Cada um contribui como quer ou pode, e muitas vezes o resultado é satisfatório. Pode ser visto como uma forma muito produtiva para uma comunidade para atingir objetivos comuns.

https://mutgamb.github.io/conteudo/SobreAbout.html

Mas, ao mesmo tempo que eu senti essa dor de ter abandonado esse projeto, provavelmente porque 2010 foi o ano mais cansativo da minha vida em termos de trabalho, eu acabei sendo relembrado de uma outra atividade participativa essa semana:

Sim, a FRoFA continua firme e forte, e agora eu (ou minha alma que foi roubada) sirvo apenas para ilustrar os posts. Isso é muito bacana, a Beth Lee e o Labirinto tocando mais uma edição – um bazar de Natal muito maneiro! De cá surge todo tipo de pensamento, até uma egotrip ou outra, mas é legal ver que uma comunidade que o Massao e eu criamos ainda vive e serve a fotógrafos da maneira como ela foi idealizada, não se quer mais nada nessa vida!

PISO • Inaugurado

Ontem foi a inauguração do PISO. Um espaço independente gerido por suas associações de artistas: Plataforma do Pandemónio e Astrolábio Itinerante e idealizado pelos dois presidentes dessas associações a Marta Moreira e eu, respectivamente.

Há seis anos, quando eu chegava aqui, uma das coisas que mais de deixou perplexo era como a cidade com o segundo festival de fotografia mais antigo da Europa não tinha um laboratório comunitário, um núcleo de fotografia ativo, nada.

Ao longo desse tempo fiz diversas tentativas de reverter essa situação, mas nada tinha ido adiante ainda, a não ser pelo TiroLiroLab. Recentemente fui convidado a contar a história dessa iniciativa social e reproduzo o texto aqui:

Num aniversário da Tatiana que surgiu a ideia de nos juntarmos para montar um laboratório. Dois cinquentões que chegaram até aqui por caminhos diferentes — ela pela ciência, eu pela arte — mas que sempre tiveram a tecnologia como território partilhado.

Ciência, tecnologia e arte encontravam-se no nosso desejo de criar um espaço divertido e focado na inclusão tecnológica, atento aos saberes tradicionais e comprometido em reduzir o lixo eletrônico. Ficamos superempolgados e inscrevemos o TiroLiroLab no Programa de Aceleração da Human Power Hub. Foi uma experiência interessante, que ajudou o nosso projeto a amadurecer e crescer, até esbarrar em algumas limitações.

Elaboramos uma estratégia para lidar com a ausência de um espaço próprio (um laboratório de fato) e fomos investigar o que poderíamos fazer nessas condições.
Logo fomos selecionados para o Programa ISA da BragaHabit. Tatiana e eu conseguimos executar as atividades propostas a partir daquilo que já havíamos criado no TiroLiroLab, aproveitando a infraestrutura da HPH e a nossa criatividade. Depois do ISA, decidimos fundar uma associação que desse ao laboratório mais tração.


Fomos ao IRN em Guimarães e estávamos ali a consultar a lista oficial de denominações já validadas para associações. Tartaruga Disruptiva nos pareceu muito bom e humorado, mas demos uma busca pelas letras “lab” e, dentre as opções que apareceram, estava disponível Astrolábio Itinerante.


Uau! Que nome! Consigo trazia todo tipo de sugestão para dois imigrantes que gostam de ciência e tecnologia: a ideia de orientação e descoberta, a navegação por territórios novos, a invenção de rotas próprias num lugar que ainda estávamos a aprender a habitar.


Enquanto a associação ainda estava em processo de criação, candidatamo-nos ao programa Todo-o-Terreno da Braga25. Nosso projeto consistia em organizar 10 exposições de fotógrafas experimentais na Padaria Amor & Farinha. Assim nascia outro caminho dentro da associação, mais ligado à minha experiência na disseminação da fotografia.


O programa Todo-o-Terreno foi um encaixe perfeito para essa fase sem laboratório e/ou oficina, já que teríamos de propor algo para um espaço que já existia — e soubemos muito bem escolher essa padaria.


Mas o sonho sempre foi ter um laboratório com luz vermelha para imprimir fotos em papel; uma bancada onde pudéssemos construir circuitos eletrônicos que gerassem sons e desvendassem os primórdios da música eletrônica; um canto com alguns computadores para programar, em software livre, sites e apps…

Depois de muitos cafés e muitos bolos, ao longo de um ano letivo do Nébula, as conversas convergiram nesse sonho comum. E que agora tem nome e morada: Piso, Rua do Cabido, 7 — primeiro andar.

Assim terminava o texto. E agora com o PISO finalmente inaugurado, com programação publicada no site, é começar a agitar coisas.

Mas como nasceu o PISO?

Há um tempo atrás respondi uma chamada do Nébula (Plataforma do Pandemónio) para apresentar uma proposta para o recém formado núcleo de artes visuais. Isso acabou possibilitando uma série de conversas e ideias, mas que sempre esbarravam na falta de um espaço físico disponível (se possível com um canto escuro e água corrente). Mas por outro lado revelavam a capacidade de organização e de gerir a comunicação que a Marta tem.

Nesse último verão começamos a falar mais sério sobre isso, porque já se aproximava a segunda temporada do Nébula. E começamos a procurar espaços pela cidade. Fizemos um plano de sustentabilidade, cálculos de tudo que poderia dar mais errado.

Dai a Marta viu esse papel na janela de um primeiro andar exatamente ao lado da Catedral da Sé de Braga. Uma casa centenária, no caminho oficial para Santiago de Compostela, com muitas janelas, uma vista incrível para o ponto mais movimentado da cidade. Nossos olhos brilharam e nos deixamos sonhar. E ainda estamos sonhando!

A bateria analógica do Eko Madrigale

Aos poucos foi ficando evidente que o orgão inteiro era volumoso demais para os espaço que eu tenho disponível. As idéias foram se acumulando e eu acabei optando por explorar maneiras de usar as partes mais interessantes dele.

Ainda com o órgão em funcionamento, usei um fio ligado a um aplificador para detectar de quais placas vinham quais sinais de áudio. Fui fazendo minhas anotações e analisando as possibilidades.

A parte da bateria é bem simples: uma placa gera uma série de pulsos em ritmos que podem ser modificados através de botões, uma outra placa serve apenas para aplicar um envelope aos pulsos, dando a eles um som específico de um instrumento.

A placa com tons de verde gera os pulsos e a placa castanha produz os envelopes. Achei 7 entradas na placa castanha e liguei um soquete banana a cada uma delas. Na placa verde localizei os ritmos e juntei fios a eles.

Fiz ainda uma série de experiências e percebi que são necessárias duas entradas distintas para criar o som de certos instrumentos. Encontrei também alguns pontos onde é possível fazer um bending desse circuito que gera pulsos.

Reduzi bastante as partes que usei para alimentar o circuito. Achei um DVD no lixo com uma fonte maneira e acabei por eliminar um 7805 e um transformador enorme. Coube tudo lá dentro e agora esquenta menos. De fora ficou a placa de uma bateria de criança que resolvi adicionar, mas isso ainda está sendo trabalhado, para que os pulsos disparem essa bateria também.

Julho e Agosto foram meses muito quentes aqui e acabei escondido na garagem fazendo essa e outra traquinagens. Para curtir os primeiros momentos com essa drum machine analógica, gravei uma faixa ruidosa que carinhosamente entitulei Onde de Calor.